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Promessas do oriente
janeiro 22nd, 2008 • 1 comment Cinema
Tags: crime, David Cronenberg, drama, filme, movie, policial
Há uma fala de um personagem em Eastern Promises, referente aos russos integrantes dos clãs criminosos da antiga União Soviética, que diz que as tatuagens espalhadas pelos corpos desses homens contam suas histórias de vida. Um homem sem essas tatuagens simplesmente não existe dentro daquele microcosmo humano. No entanto, esse diálogo não resume o principal norte do filme mais recente do diretor canadense David Cronenberg — algo aludido, inclusive, na frase “Todo pecado deixa uma marca” estampada no cartaz da produção. Não: seu título e o início das anotações da jovem Tatiana em seu diário, narradas em off no começo e repetidas no fim da película, concentram o foco principal da história.
O filme, roteirizado por Steven Knight, é desenvolvido a partir de dois acontecimentos distintos, ambos transcorridos na cidade de Londres às vésperas do Natal: o primeiro, um assassinato encomendado e forçado numa barbearia; e o segundo, o parto sofrido de Tatiana, que dá a luz e, antes de conhecer sua filha, tem declarado seu atestado de óbito. A partir daí, as peças principais entram em cena: Anna, parteira interpretada com competência pela bela Naomi Watts, se interessa em saber se há parentes da falecida Tatiana na capital britânica, alguém para quem ela possa encaminhar a recém-nascida órfã ao invés de entregá-la para o serviço social. De posse do diário (escrito em russo) da garota morta, ela vai até o restaurante do velho Semyon, pois no caderno encontrou um cartão do estabelecimento culinário comandado por este senhor. Ela não faz idéia dos segredos sujos contidos naquele diário e do interesse que ele irá despertar. Na saída, Anna trava o primeiro contato com Nikolai (Mortensen), o truculento motorista de Semyon e seu filho, o ácido Kirill (interpretado com a soberba de sempre por Vincent Cassel).
Não há rompantes de criatividade no que diz respeito ao plot da trama ou mesmo reviravoltas inesperadas em Eastern Promises — tanto que a única reviravolta concreta do filme é bastante previsível. Fatores que podem diminuir a película para alguns, considerando que ela é tratada, dentro da classificação de gênero, como um thriller de mistério e/ou suspense. Na verdade, Cronenberg lança mão de uma estrutura semi-pronta para tratar de assuntos como tradição e identidade cultural, laços familiares e a eterna busca do ser humano por uma condição de vida melhor. Daí seu título: Promessas do oriente, numa tradução literal e livre, possuir uma carga de contextualização mais relevante para a história do filme do que o Senhores do Crime escolhido como “tradução” para as cópias brasileiras. Algo com o qual o diretor de A Mosca já sofreu no passado na mão dos translators tupiniquins: Naked Lunch, sua adaptação do romance beat Almoço Nu escrito por William Burroughs, ficou batizado no Brasil como Mistérios e Paixões.
E mesmo que Eastern Promises não seja um filme que se restrinja dentro do seu (aparente) gênero de ‘crime romance’, ele desfila homenagens ao mesmo através de seus personagens. Se um dia Virgo Mortensen representou a nobreza da fantasia medieval na trilogia O Senhor dos Anéis, no papel do Rei Aragorn, em sua segunda colaboração com Cronenberg, ele encarna de modo impecável um certo tipo de personagem do universo das tramas de crime policial — do qual não se pode comentar afundo sem estragar a ‘reviravolta óbvia’ que comentei anteriormente. Armin Mueller-Stahl, que interpreta Semyon, líder de uma família pertencente a Vory V Zakone, uma irmandade criminosa russa, atua como outro símbolo do gênero. É ele o causador de uma das melhores seqüências do filme: a luta na casa de banhos.
Essa seqüência, inclusive, muda parte do tom do filme e encaminha a história para um fim anti-climático.
Há uma resolução satisfatória tanto para Anna como Nikolai; ambos obtém aquilo que queriam desde o início da história. Knight e Cronenberg guiam o telespectador para um encerramento óbvio, mas que talvez seja proposital. Nos minutos finais, o diretor repete uma passagem da narração em off de Tatiana, uma menina de quatorze anos que só queria uma vida melhor num lugar novo, repleto de possibilidades. Renascimento. E que acabam reservadas para sua filha, Christina — “eu a chamei assim porque lembra Christmas (Natal em inglês)”, diz a personagem de Watts em dado momento. Que analogia serviria melhor para um filme que começa no natal e se encerra, de certo modo, horas antes do ano novo? Até porque, antes do subir dos créditos, os senhores e seus crimes são relegados a segundo plano. Para quem assiste, sobram apenas as promessas. Boas ou não.
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