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Batman - O Cavaleiro das Trevas

A década de 80 foi um período fértil para os quadrinhos norte-americanos, principalmente para os de super-heróis. A DC Comics, por exemplo, realizava sua faxina cronológica com a máxi-série Crise nas Infinitas Terras; ao reiniciar ali o processo de atualização de seu universo de super-seres encapuzados, a editora abriu espaço para a criação de obras que, até hoje, são consideradas referenciais. Dentre elas, duas são estreladas pelo Batman, tendo sido ambas escritas por Frank Miller.

Batman: Ano Um e Batman – O Cavaleiro das Trevas são marcos referenciais ora tangenciais ora distintos. Encontram-se ao elevar ao máximo a atmosfera pulp e hard boiled com os quais os quadrinhos do Homem-Morcego, até então, pareciam acenar. Tornam-se ímpares na abordagem narrativa e na proposta: no primeiro, Miller, ao lado do excepcional ilustrador David Mazzucchelli, reconta a origem do Homem-Morcego de modo crível, usando a máfia e uma Gotham corrompida pela marginalidade para estabelecer o vigilante como a renovação da esperança numa salvação do caos; no segundo, Frank redige e desenha de modo arrojado aquela que é considerada a história definitiva com o personagem, tragando para o universo policial do Batman elementos dos super-heróis num víeis político-social, abordagem que se cristalizou naquela década.

O cenário desenvolvido nos quadrinhos na década de 80 pode ser usado como um paralelo para o que foi feito do Homem-Morcego no cinema.

Depois de Tim Burton ter dado sua visão pessoal do herói — em dois filmes que considero bacanas, mesmo com todo o desvirtuamento de certos elementos  — e de Joel Schumacher, mais do que falho, tentar emular o seriado clássico com Adam West — principalmente no terrível Batman & Robin —, era o momento de trazer alguém mais afeito ao contexto urbano e de crime que as histórias de Frank Miller estabeleceram. E Christopher Nolan, festejado pelo excepcional Amnésia e o bom Insônia, parecia uma escolha acertada. Com Batman Begins, ele provou isso, passando uma borracha nas produções anteriores e reiniciando a franquia cinematográfica; trazendo consigo a seriedade necessária, com base em certa suspensão de descrença, do contexto policial e dramático daquelas que são consideradas as melhores histórias e fases da criação de Bob Kane.

Mesmo com Ra’s al Ghul caracterizando noções mais condizentes com o aspecto super-herói do universo do Batman, a construção psicológica do protagonista, a ambientação crível de Gotham e os debates acerca do crime e da violência se fizeram os verdadeiros destaques daquele filme — algo aproximando-se do já citado Batman: Ano Um, elencado como uma das referências para a película.

Utilizando o título da outra obra de Miller, Nolan e equipe cravam os pés ainda mais no chão e entregam uma seqüência que não é apenas um dos melhores — senão, até agora, o melhor — filmes inspirados numa história em quadrinhos, como também um grande drama policial, com atuações brilhantes.

Na trama, depois de se estabelecer como o vigilante de Gotham City, Batman precisa lidar com a máfia local, que se une com o intuito de derrubá-lo definitivamente, e o surgimento daquele que será o seu principal adversário em mais de duas horas e meia de projeção: o Coringa.

No primeiro filme, Christian Bale foi o foco como Bruce Wayne/Batman. Pela primeira vez no cinema, a reinvenção do personagem foi mostrada em sua riqueza como nos quadrinhos. Estão lá as três facetas: Bruce Wayne depois da morte dos pais, buscando sentido para sua vida; o Bruce Wayne playboy festeiro, que compra hotéis com um mero cheque e anda com supermodelos; e o Batman, o vigilante soturno. Cada um do seu timbre de voz, postura e modo de agir. Todos máscaras do garoto que viu seus pais serem friamente assassinados. No segundo filme, não se deixa de lado a história de origem apenas para contar uma nova história, mas para abrir espaço para outros personagens.

Gary Oldman causa a empatia adequada para o Tenente/Comissário Gordon e o fardo que este precisa carregar: ele sabe a desconfiança que o Homem-Morcego causa no departamento e na população, mas tem certeza que, sem o herói, não será possível livrar Gotham do crime. Aaron Eckhart como Harvey Dent, representa — trocadilho a seguir — a outra faceta da justiça na cidade. Sua gradual transformação e mudança de lado foram tratados com a maturidade que uma figura como o Duas-caras necessita. Na periferia da história, Michael Caine (Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox) brilham como coadjuvantes de luxo. E Maggie Gyllenhaal consegue fazer tudo o que Katie Homes, no primeiro filme, não conseguiu — mas, infelizmente, sem o mesmo rostinho bonito.

O motor do filme, como se esperava desde o início das campanhas virais e, infelizmente, potencializada após sua morte, foi a atuação de Heath Ledger como Coringa. Um dos maiores vilões do Batman e dos quadrinhos de herói, o Palhaço do Crime ganhou uma representação ainda mais bombástica do que podia se imaginar.

Nas HQ’s, além do comentado Cavaleiro das Trevas, há outras duas obras que são representativas no histórico do vilão: Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave McKean, e A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. É nesta trinca que podemos encontrar a imagem lapidada do conceito que é o Coringa: uma entidade anárquica, violenta e imprevisível, que encontra no Batman o combustível para sua existência. São marcantes os momentos quando, em Cavaleiro das Trevas, o maníaco desperta de seu estado letárgico após ver na TV que o Homem-Morcego voltara a ativa, e em A Piada Mortal, quando ambos dividem risadas depois de uma piada contada pelo palhaço. No filme, essa relação doentia foi potencializada e tratada de modo particular, como a história pedia.

O resultado é que Ledger rouba a cena, mesmo quando não aparece; afinal, a engrenagem da história gira em torno de suas ações, afetando a cada um dos personagens. Quando aparece, é difícil que provoque risos confortáveis. O que me remete, como fã e leitor dos quadrinhos da DC, a situações em certos gibis onde dois super-heróis conversam, e um deles fala sobre quão assustador o Batman é; e o outro replica: É? Então pede pra ele te falar do Coringa. É isso que encontramos no filme: um Coringa do qual apenas as histórias sobre ele são capazes de assustar. Imagine, então, vê-lo em ação.

Nolan e seu irmão, Jonathan, baseados na história desenvolvida pelo diretor e o co-roteirista do filme anterior, David S. Goyer, estruturaram um roteiro onde ainda existem toques de suspensão de descrença: não no contexto da trama, mas nalgumas cenas de ação. Nolan aproveita e abre um pouco o enfoque de sua câmera, mostrando um pouco mais do Batman nas lutas; mas sem entregar tanto e não abrindo mão de uma boa quantidade de sombras. Por mais pé-no-chão que a construção da armadura do Homem-Morcego fora desenvolvida, o aspecto de boneco articulado não sumiu, e o diretor sabe disso.

No que diz respeito a ambientação da história, não há resquícios do que foi visto com a participação de Ra’s al Ghul. Temos o Coringa, o crime organizado e a violência de uma cidade grande. Trabalho suficiente para deixar marcas profundas no corpo e, principalmente, na mente de Bruce Wayne. Ao longo de sua jornada, ele irá se questionar — e será questionado — sobre seu papel social, sendo este um dos trunfos da caracterização do vigilante no filme.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme enorme, e não me refiro a duração: há camadas nele a serem destrinchadas e analisadas em separado, para então serem reagrupadas numa peça única. Como uma das grandes histórias em quadrinhos do personagem da década de 80, trata-se de um clássico, uma obra de referência para o que virá a seguir. E que, dificilmente, será superada.

Piada Mortal

Heath Ledger como CoringaDurante meu almoço no apartamento dos meus avós por esses dias, quando conversava amenidades com minha avó na cozinha, ela comenta com um alarde dos mais assustadores que o filho do vizinho, aquele que mora no andar de cima, não passou no último vestibular da federal. A pobre criou toda uma atmosfera de tragédia antes de dizer o que se tratava, que eu, com comida enfiada até o céu da boca, quase me engasgo com o susto. O que diabos ela queria que eu comentasse sobre um fato ocorrido com um moleque que posso ter visto uma ou outra vez no hall do edifício?

Este pequeno ocorrido com a minha avó me fez decidir, finalmente, escrever sobre a morte do ator Heath Ledger na última terça-feira, em Nova York.

Celebridades e suas mortes são assuntos um tanto quanto alienígenas nas nossas bocas, gente normal, aquelas que formam o rosto da multidão. Mas não nos importamos (e por que deveríamos, não é verdade?) em comentar com escárnio e certo nojinho as fotos da Britney menstruada, rir de tristeza da Miss Amy Blonde-house exagerando na escrotice com as drogas e mesmo sentir pesar pela morte repentina de um ator próximo de atingir o ápice de sua carreira cinematográfica. Não é possível classificar ou equiparar a nossa sensação com a aflição que acomete as famílias dessas pessoas.

E daí que um amigo ou parente próximo seu morreu de overdose, intencional ou não, como pode ter sido o caso de Ledger? As comparações se desvirtuam porque, mesmo que o elemento ser humano seja o alvo da equiparação abstrata, no final das contas o que nos incomoda é que uma daquelas estrelas inalcançáveis se apagou no mar da constelação pop.

Ninguém vai sentir falta do Heathcliff Andrew Ledger, mas do sujeito que fez aquele maloqueiro em 10 coisas que eu odeio em você; do filho do Mel Gibson em O Patriota que morre lá perto do fim do filme; e do cowboy carrancudo e gay do ótimo Brokeback Mountain. E para os milhões de nerds espalhados ao redor do globo, talvez ele já seja considerado o responsável pela representação definitiva do Coringa no cinema. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas, filme onde ele interpreta o Palhaço do Crime, sequer estreou.

Essa coisa de especularmos e criticarmos nossos ídolos de mentirinha sempre será uma constante enquanto existir a cultura pop; até porque alguns desses astros, sejam eles atores, diretos, escritores ou personalidades instantâneas criadas por empresários espertinhos, meio que acabam se metendo no meio das nossas vidas cotidianas. Apontamos os defeitos, sentimos pena e criticamos como donos da verdade e dos bons costumes seus atos desvirtuados. Quando nós somos tão ou mais zoados com essa possessão egoísta para com esses ícones do entretenimento.

E tudo que eu penso agora é em como conseguir terminar este texto fazendo uma citação oportunista àquela graphic novel escrita pelo Alan Moore. Que não faço apenas por não conseguir a frase certa, irônica e nerd o bastante para agradar o meu ego. Seria uma bela homenagem ao Coringa.

Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

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O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.