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Onde os velhos não têm vez
março 7th, 2008 • The book is on the table
Tags: Cormac McCarthy, livro, Onde os velhos não têm vez
Anos 80. Estamos no interior da loja de conveniências de um posto de abastecimento. O freguês, um sujeito corpulento numa roupa de tom morto e cabelos escorridos até o pescoço, deposita no balcão o dinheiro da gasolina e do doce pego na loja. Do outro lado, o velhinho que gerenciava o lugar, no tom mais amistoso do mundo, faz uma pergunta inocente. Tem início uma conversa que mais parece um pavio aceso de uma bomba: quando ela alcançar seu fim, tudo irá pelos ares.
Esse clima tenso e seco, de eminente tragédia, percorre todas as páginas de Onde os velhos não têm vez, assinado pelo norte-americano Cormac McCarthy.
Nono livro de sua bibliografia, o romance, mesmo não se ambientando nos tempos do velho oeste estadunidense (e cenário de suas três obras anteriores, a “trilogia do sul”), não deixa de ter ares de western. Engana-se, no entanto, quem pensa que McCarthy empreende uma narrativa para renovar o gênero mencionado. Ela é apenas o ponto de partida para uma história sobre acaso e tempo, amarrando todas as pontas com uma reflexão acerca da violência que devora a sociedade contemporânea. Este é o triângulo que dá sustentação a obra: uma alegoria de um novo-oeste, digamos.
São três, também, os co-protagonistas da história.
Llwelyn Moss, veterano do Vietnã e soldador aposentado, caça nas proximidades da fronteira do Novo México. O sol o castiga e sua mira não está nos melhores dias. Ele não consegue derrubar um mísero cervo do bando o qual se acercava. Acaba, no entanto, dando o bote numa mala órfã com dois milhões de dólares em seu interior, encontrada naquela mesma região em meio a corpos e carros crivados de bala, resultado de uma negociação mal-sucedida entre traficantes. Ele imagina que tirou a sorte grande. Antes disso, Anton Chigurh se deixa prender por um jovem sub-delegado. É levado algemado para a delegacia. E escapa de um modo extremamente brutal. Chigurh pode ser caracterizado como uma força da natureza — ou, como McCarthy faz em dado momento da narrativa, como uma praga. Aparentemente, nada pode pará-lo. E temos o xerife Bell completando o quadro. Ele é um homem dos velhos tempos, onde uma estrela no peito intimidava mais do que uma arma preenchendo o coldre, onde todos se conheciam pelo nome e havia uma divisão clara entre o certo e o errado.
O estopim da história, a mala com dois milhões de dólares, é um MacGuffin. Algo que se torna perceptível antes de alcançarmos a metade do livro e quando o desfecho que se espera acontece antes do fim propriamente dito. E McCarthy não se dispõe a dominar os rumos da trama; deixa que seus personagens vivam por si só e tomem suas próprias decisões, acertadas ou não. É o acaso se fazendo valer através das mãos do autor.
Ao início de cada capítulo, contamos como introdução um depoimento do xerife Bell. É através de suas palavras que juntamos as peças e percebemos que a mala de dinheiro não é o que está em jogo ou mesmo em discussão. Nunca foi. Para o homem da lei, Chigurh representa um vislumbre do terror que se anuncia, um fantasma de um futuro corrompido de um modo indizível. O que o remete aos tempos passados, ao maniqueísmo entre mocinhos e bandidos. Ele quer salvar Moss, quer impedir que Anton continue solto. Mas como enfrentar algo à frente de sua época, que o faz questionar cada passo dado?
McCarthy trabalha tipos humanos com desenvoltura. Seus personagens são distintos e não há como deixar de se importar ou de ficar curioso acerca deles. Talento que transformou o antagonista Anton Chigurh num verdadeiro ícone pop — “imortalizado”, obviamente, pela interpretação fantástica de Jarvier Bardem na adaptação cinematográfica do livro pelas mãos dos irmãos Coen. No que diz respeito a elementos literários, sua prosa lembra a do escritor português José Saramago: Cormac dispensa o uso de vírgulas durante boa parte do livro e os diálogos não são destacados por meio de travessões e aspas, estabelecendo um fluxo um tanto quanto confuso no início da leitura, mas que, em dado ponto, torna-se ágil, cheio de vigor e familiar ao olho leitor.
Cormac McCarthy
fevereiro 14th, 2008 • 1 comment The book is on the table
Tags: Cormac McCarthy, Literatura
Neste mês de fevereiro, devorei Onde os velhos não têm vez e A Estrada, ambos adquiridos em dezembro do ano que passou, e estou simplesmente destruído pela literatura de Cormac McCarthy.
As duas obras lidas, além de ricas aulas de narrativa e composição, são de uma beleza e visceralidade e violência física e psicológica sublimes.
E vou passar alguns dias para me recuperar do baque que é A Estrada. Vou, sim.
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