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Eleições 2008 em Maceió e Alagoas
outubro 6th, 2008 • Ensaios, Paraíso das Águas
Tags: alagoas, Cadê o Ciço?, Cícero Almeida, Eleições 2008, Heloísa Helena, Maceió
Aconteceu o que era mais que previsto: Cícero Almeida, atual prefeito de Maceió, faturou a disputa com mais de 80% dos votos válidos na capital alagoana. Hoje, em entrevista ao Bom Dia Alagoas da TV Gazeta, filiada da Globo, pediu desculpas por não tem ido aos debates — medida tomada em consenso por ele e assessores, por entender que seria alvo de bombardeio pesado — e se emocionou ao falar que trabalhou na emissora (como motorista). Já na entrevista ao Jornal da Pajuçara Manhã da TV Pajuçara, filiada da Record, Cícero afirmou que vai partir para socorrer a periferia; algo que, em seu primeiro mandato, realizou em mais em termos de estrutura física. Espera-se que, na esfera social, ocorram avanços. Por fim, ainda na entrevista ao Jornal da Pajuçara Manhã, deixou uma mensagem ao jornalista Ricardo Mota, também de tom emocionado, garantindo que seu segundo mandato fará jus às críticas e comentários do repórter — este um apreciador, a sua maneira, do trabalho realizado por Cícero e, provavelmente, um dos jornalistas políticos que mais espera que o prefeito forrozeiro melhore no que ficou devendo no mandato a iniciar ano que vem.
Quanto aos demais candidatos a prefeitura da capital, o que há de falar? Apenas dos dois principais adversários de Cícero Almeida, chamados assim pela falta de um eufemismo ainda menos irônico: Solange Jurema, que tinha por trás de si o governo do estado, se mostrou ainda mais inexpressiva nesse final de eleição; ficou atrás de Judson Cabral, que obteve 10% dos votos, algo alcançado mais pela sua postura e campanha moderada, já que, segundo os analistas políticos, ele não teve apoio do PT nacional e, em Alagoas, a esquerda não chegou num denominador comum. Mário Agra, do PSOL, foi candidato apenas para que o partido não passasse batido. Manoel de Assis, do PSTU, foi uma figura alegórica no horário eleitoral e nos debates nas emissoras de TV; de tão despreparado, deve ter gerado vergonha alheia em muita gente.
Para a Câmara de Vereadores, uma surpresa — positiva para alguns e temerosa para outros: Heloísa Helena, a ex-senadora por Alagoas que muitos questionam o grau de sanidade, foi a primeira colocada com expressivos 29.516 votos. Heloísa adjetivou-se com humildade e tranqüilidade e saiu às ruas pedindo o voto da população. Eu mesmo apanhei uma vez santinhos das mãos da própria, num sinal próximo ao meu trabalho, e a avistei mais duas vezes na mesma região e outra na Avenida Fernandes Lima, Farol, parte alta de Maceió. Ela pediu, segundo me disseram, que os eleitores não dessem sua candidatura como ganha, que o voto de cada um era importante. Deu no que deu: além da votação espetacular, Heloísa arrastou consigo Ricardo Barbosa, eleito com míseros 435 votos, conhecido por ter sido líder estudantil e ter lutado contra o aumento das mensalidades da faculdade particular onde estudou (!). Espera-se que ambos sejam os grandes fiscalizadores da próxima gestão de Almeida; barulho, com certeza, não vai faltar quando se considera o histórico de Heloísa.
Mas as surpresas não pararam na esfera solar: Thaíse Guedes, a popular “candidata ciborgue” do Goma de Mascar, foi eleita pelo PSC com 4.739. Ela junta-se a Rosinha da ADEFAL, PTB, no que diz respeito a candidatos portadores de necessidades especiais. Rosinha, no entanto, tem mais histórico: ela substituiu Jerônimo Cirqueira — que faleceu anos atrás — na direção da ADEFAL, instituição mais conhecida no que diz respeito ao trabalho com pessoas deficientes. Se Thaíse ganhou por ter gerado simpatia por sua condição e beleza jovem ao eleitorado maceioense, espera-se que, junto a Rosinha, desempenhe papel importante e real para as pessoas com necessidades especiais de Maceió. Para finalizar as novidades pasmadoras na eleição para vereador da capital, Arnaldo Fontan, atual presidente da câmara, não se reelegeu. Efeito do indiciamento na Operação Taturana? Vai saber. O mesmo não aconteceu com o ex-cabo Luiz Pedro, que se encontra preso por suspeita de assassinato e que foi indiciado pela mesma Operação Taturana. A piada pronta que tem corrido desde ontem é que ele vai despachar do presídio.
NO INTERIOR DO ESTADO
Em Arapiraca, terra do fumo, do ASA e segunda maior cidade de Alagoas, Luciano Barbosa ganhou com uma porcentagem ainda maior que Cícero Almeida: mais de 90% dos arapiraquenses confirmaram o segundo mandato do atual prefeito, considerado um dos melhores administradores municipais do país. É um dos possíveis candidatos ao governo do estado em 2010; um páreo duro, com certeza.
Fernando Collor, que tirou licença do Senado, perdeu em duas frontes onde tinha candidatos apoiados por sua pessoa. Em Marechal Deodoro, o deputado federal Cristiano Matheus ganhou com larga vantagem dos concorrentes. Euclides Melo, primo do ex-presidente da república, ficou em terceiro lugar. Já em Rio Largo, para onde Collor se deslocou na reta final da eleição, fixando moradia temporária, o filho Fernando James também amargou a derrota — e também em terceiro lugar.
Em União dos Palmares, a terra de Zumbi, Kil Freitas, vice do recentemente falecido José Pedrosa e que tomou seu posto, foi eleito prefeito. A gravação realizada numa reunião de campanha do candidato e veiculada no horário eleitoral de lá, onde o ex-governador Manoel Gomes de Barros afirmava que quem mandava na cidade era ele e que Kil não assinava nada sem sua autorização, não foi o suficiente para que Beto Baía superasse o adversário. Derrota também para João Lyra, usineiro que lançou Kil no mundo da política e se sentiu traído pelo protegido ao saber da submissão do mesmo para Gomes de Barros, também usineiro e dono de áreas no entorno de União.
CRIMES ELEITORAIS
Como prometido semana passada pelo superintendente da Polícia Federal em Alagoas, José Pinto de Luna, a instituição realizou diversas ações na capital e interior visando limar as tentativas de compra de votos. Mais de 38 mil Reais foram apreendidos até ontem, no total, nas cidades Porto de Pedras, São Luiz do Quitunde, Craíbas, Rio Largo e na capital.
Em Maceió, ocorreram denúncias de que algumas urnas eletrônicas haviam sido fraudadas: eleitores afirmaram que ao digitarem o número 11, do prefeito reeleito Cícero Almeida, aparecia na tela a foto da candidata Solange Jurema. O TRE, juntamente com advogados do prefeito, verificaram as máquinas e não se constatou fraude. Segundo o diretor de informática do Tribunal, os eleitores teriam se confundindo com a foto da vice de Cícero, Lourdinha Lyra. (Como se ambas fossem idênticas, claro.)
AOS TRABALHOS
Mesmo indignando parte da população de Maceió por não ter comparecido aos debates nas emissoras da TV, Cícero Almeida manteve o foco. Respondeu com ponderação as agressivas provocações dos adversários, principalmente da candidata Solange Jurema. Esta que, surgida do limbo político — mesmo tendo ocupado cargo importante no governo FHC, ninguém em Maceió fazia a menor idéia de quem ela era —, vai ficar conhecida mais pelas provocações de sua campanha do que por propostas concretas para governar Maceió. Da apresentadora irritante de seu horário eleitoral às críticas referentes a uma música sacana do prefeito forrozeiro — nada que um Saia Rodada da vida não consiga ser dez vezes mais sacana —, a peça televisiva onde um gordinho dança por várias partes da cidade onde Cícero prometeu melhorar e não deu as caras, transformou-se em hit e motivo de conversa em bares e ambientes de trabalho; um ctrl-c+ctrl-v básico de um vídeo gringo. A peça é conhecida como “Cadê o Ciço?” e, claro, já está no Youtube:
A resposta do Prefeito, agora vencedor da eleição, foi essa rima: “Cadê o Ciço? Tá trabalhando que o cabra é bom de serviço”. Veremos se isso continuará nesse segundo mandato; e, de preferência, sem os problemas com a justiça e com um possível abandono do cargo para a disputa ao governo de Alagoas em 2010.
Meu desejo, como um não-eleitor de Cícero Almeida nessa eleição, é que ele governe não apenas para os 319.831 eleitores que ele disse, em entrevista nas duas principais emissoras do estado, que são seus patrões, mas para todos os maceioenses. Que, independente do voto, pagam os seus impostos e, obviamente, têm o mesmo posto de ‘patrão’ que seus eleitores.
Mudanças de efeito placebo?
outubro 1st, 2008 • 2 comments Ensaios, Paraíso das Águas
Tags: alagoas, Cícero Almeida, Corrupção, Eleições 2008, Eleições Maceió, Maceió, Operação Taturana, Prefeitura
Eleições à vista no próximo domingo, 5 de outubro, e a vaga para o cargo de gestor da cidade de Maceió está basicamente garantida para o atual prefeito Cícero Almeida. E não é à toa. Homem de origem humilde, daqueles de fé explícita a Deus e alguns punhados de santos e santas, foi subindo na vida e, quando todos se deram conta, fora eleito prefeito da capital de Alagoas.
Lembro do Cícero repórter — e, pelo que sei, sem diploma — do noticiário polialesco Plantão Alagoas, um dos pioneiros nesse estilo na TV do estado, e apresentado então pelo hoje deputado estadual e ainda host de um programa similar, em outra emissora, Jeferson Morais. Almeida, nessa época, já atuava também no rádio. Quando eleito vereador e, posteriormente, deputado estadual, ambos os cargos alcançados com imensa quantidade de votos, ele foi deixando de lado o microfone da TV e manteve-se apenas nas ondas FM. Virou o prefeito forrozeiro e chegou a dar as caras no Jô Soares por isso.
Cícero Almeida realizou, nesse primeiro mandato, obras de cunho estrutural: calçou ruas na periferia, tascou viadutos em áreas de classe média e está finalizando a maquiagem na orla da capital. Pode ter feito outras coisas, mas o fácil de catar na mídia foram essas ações. De resto, teve lá seus deslizes. Para a grande massa que tem nele a figura de um prefeito digno e que surpreendeu a todos isso pouco interessa pelo que indicam as pesquisas — o homem está com 80% do povo ao seu lado.
Mas não foram deslizes qualquer.
Maceió está sem receber recursos do governo federal para a área de ação social por irregularidades no uso da verba repassada. Cinco secretários passaram pela pasta e nada se resolveu. Um deles, Cláudio Farias, deixou o cargo denunciando José Aremilton, amigo particular do prefeito, sobre um esquema de desvio do dinheiro.
Nesta semana, Almeida levou outra pedrada: foi indiciado oficialmente na Operação Taturana, ação comandada pela Polícia Federal e que teve início em dezembro de 2007, por crimes de peculato, formação de quadrilha, crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Segundo o delegado Janderlyer Gomes, que preside o inquérito, garante que os crimes foram cometidos. Na boca miúda de parte da população, há tempos se comenta do enriquecimento ilícito de Cícero; algo obtido ao lado de outros políticos e lançando mão de diversos laranjas. Fala-se, por exemplo, de propriedades de milhões, como fazendas, que alguém com o salário do comandante de Maceió não teria condições de adquirir. “Basta andar nas ruas para ver a disparidade entre o que um indiciado recebe, por exemplo, e o seu patrimônio”, declarou Gomes.
O indiciamento de Cícero Almeida é apenas um dos muitos outros movidos contra políticos, seja na esfera municipal e, principalmente, estadual. Desde o início da Operação Taturana, Alagoas tem visto um trabalho de moralização da vida política e social como ninguém podia imaginar. Não se considerando o histórico do estado, conhecido como terra da pistolagem. Políticos com fama de coronéis, assassinos e senhores da vida alheia começaram a cair e tiveram sua pose jogada aos porcos. Vibrou a população, sentindo uma vibe de mudança.
Ainda assim, mesmo com as renovadas polícias Federal e Civil, a filosofia do “rouba mas faz” vigora entre a massa. A aprovação de 80% de Cícero Almeida é prova disso. Mas, conforme a citada corrente filosófica, o prefeito fez sim coisas benéficas — e que são de seu dever! — para com os cidadãos de Maceió. Se ele ficou com unzinho a mais de obras possivelmente superfaturadas, deixa pra lá, certo? O que importa é que a sua e a minha ruas estão calçadas com paralelepípedos.
A população reclama da demora na apuração e execução dos processos referentes a Taturana, mas não deixa de ser conivente às vésperas de mais uma eleição. O que inclui a própria classe média, que vive na bolha que é Maceió, a casa grande que fecha os olhos para a senzala que é o interior do estado. Espera-se, claro, que a Federal e Civil consigam dar cabo de suas ações, mesmo com as pressões que têm acontecido na esfera política — aqui e em Brasília —; que a população descruze os braços, perceba que Jesus não vai descer de helicóptero dos Céus e Cícero Almeida pode ser um reflexo bem aparentado de (suas) velhas e nocivas alianças políticas.
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