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Profissionais do sexo, não da comunicação
janeiro 10th, 2008 • 4 comments Ensaios
Tags: artigo, fanzine, humor, internet, prostituição, sexo
Não adianta: puta foi feita para ser fodida mediante pagamento adequado e previamente acertado. Fora da cama e das quatro paredes, fica ao gosto do cliente. Que pague jantar, ande de mãos dadas na orla, jogue conversa fora e fique de namorico. Nada contra. Seja em relação ao pagante ou a cobrante, digamos assim, para o texto ficar engraçadinho. Prostituta também é gente e de fácil sua profissão não tem nada. Classifiquemos como atalho; mas todo atalho cobra seu preço, que o diga a menininha do capuz vermelho. Porque ficar em esquina como se fosse carne em gancho de açougue ou agüentar aquele gringo babão para receber suas doletas no final do serviço exige culhões.
Caro leitor, sei que você não é bobo nem nada. Se for, me permita quebrar a casca do seu analfabetismo funcional: não comecei este texto batendo e alisando a seguir em vão. Conheço minhas palavras e como é difícil controlá-las quando estão tomadas pela irritação. Talvez isso se deva pelo fato de que me deixei levar por uma ilusão: nem toda garota de programa tem cacife ou os genes para ser uma Vivian Ward (muito menos aquele sorriso largo e branco). Se tivesse, Deus do Céu, não ia faltar macho para querer tirá-la “dessa vida”. Mas não vem ao caso ficar enrolando com analogias pop, porque o assunto é sério, de cunho e penetração jornalística.
Tudo começou numa reunião de pauta para esta terceira edição do Gaveta. Carla, Carol, Ramiro e eu, sentados numa mesa de boteco, evitando molhar a garganta durante uma hora para fechar o que queríamos para o número em questão. Solidão e auto-publicação foram os tópicos recorrentes, os alicerces do tema geral que se formava. Cada um foi definindo o que fazer e o que receberíamos dos convidados. Fiquei pescando algo na minha mente que pudesse servir. Até que interrompi a conversa e joguei meu ás: por que não entrevistar uma prostituta?
Soou meio clichê de cara, mas discorri sobre a proposta, usando de um embasamento digno de… de… enfim, provei por a + b que seria interessante fazê-lo. Diabos, Maceió é uma cidade pequena e todo mundo sabe das universitárias que se anunciam nos jornais para ganhar um trocado turbinado durante qualquer dia da semana, desde que seja no horário de atendimento das moças, claro. Nada de ir em cabaré, porque isso sim seria muito batido. É só lembrar do Nazareno n’A Última Tentação de Cristo, esperando um dia inteiro até não haver mais pinto para ser carcado no aconchego de Madalena para poder trocar umas palavrinhas com ela. História velha, por demais da conta.
Nosso alvo eram cocotinhas da classe média, das universidades particulares, freqüentadoras dos bares da moda e mantenedoras de um padrão de vida que não seria fácil obter ralando como vendedora duma loja de departamentos. Numa São Paulo da vida, é bem mais fácil elas passarem desapercebidas, imagino. Mas numa província como a capital alagoana? Como elas conseguem? Que tipo de vida levam? Elas se prostituem porque precisam ou é esporte mesmo? Perguntas que foram brotando na mesa de bar e formando uma pauta consistente. Hora de cair em campo. E que campo melhor para começar que o Orkut, hein?
E aqui cabe um parênteses: a idéia para a entrevista só surgiu por causa do Orkut mesmo. Na manhã do dia da citada reunião de pauta, estava eu checando meus recados mais recentes e comunidades de interesse. Observando a opção “Visitantes recentes”, notei uma usuária inusitada ali elencada: “Aninha Garota de Programa”. O alerta disparou. Só pode ser vírus, imaginei, mas acabei clicando porque pensei com a cabeça que não devia. Nada de vírus: era puta mesmo. De Maceió, estilo universitária, vejam só. Fotos com close na própria bunda e telefone celular para contato. Formava-se ali uma pauta…
Com o acerto formalizado na reunião — a idéia era que os quatro, de algum modo, pudessem entrevistar a profissional do sexo —, catei o número da meretriz. Botei uns créditos suados no acessório que eventualmente me serve de celular e fiz contato. Aquela tensão inicial se desfez quando ela indicou que se tratava, bem, dela mesma. Pediu que eu ligasse em 15, 20 minutos no máximo: estava no supermercado, muito barulho para entender o que eu falava. Achei que estava sendo passado para trás, aceitei e voltei para o teclado e a navegação. Passados os 20 minutos, não é que ela me liga? Liga nada: me dá toque a cobrar. O que não se faz por uma p(a)uta? Retornei. Conversamos, expliquei o lance da entrevista, pra onde era. Ela, com aquela voz maliciosa, candenciada para ganhar o cliente, disse que seu trabalho era aquele, por hora. Indaguei se fosse combinado algo num período inferior a uma hora, o preço cairia junto. “Podemos negociar”, foi a resposta dela, muito aberta. Nós tínhamos uma entrevista!
Trocamos e-mails, Carla, Carol, Ramiro e eu, nos dois dias que se seguiram após o contato inicial. Combinamos que o céu era o limite até quarenta Reais — nossa Iris Steensma maior de idade e futura graduada cobrava oitenta a hora, seu sexo e o prazer do cliente. Nós só queríamos conversar. Em meia hora, provavelmente conseguiríamos arrancar dela tudo o que queríamos, sem precisar deixá-la nua ou mesmo recebendo algum tipo de prestação carnal. Quarenta pilas para falar por meia hora? Quem poderia recusar, considerando que os pagantes não passavam de um bando de jovens adultos fanzineiros?
Acertado o valor que seria pago, bastava esperar o momento certo para realizar novo contato com “Aninha”. E que veio a acontecer via MSN, facilitando a vida de todos. A idéia era rebolar, oferecer apenas trinta Reais. Caso ela recusasse, seria o caso de oferecer uma contra-proposta com os quarenta. A seguir, um longo trecho (não editado, que se diga) do bate-papo:
.casado, pablo diz:
conversei com o pessoal e, já que se trata de um bate-papo (que dará origem a entrevista), eles acharam que 30 Reais é um preço justo pra situação.
Aninha diz:
eu trabalho com hora ,o valor da hora é no minimo 80,00
.casado, pablo diz:
Certo. Mas se bem me lembro, você me disse por telefone que um valor abaixo dos 50 - que é quanto você cobra a partir de meia-hora -, poderia ser negociado.
.casado, pablo diz:
E conversar não pode ser comparado ao ato sexual em si, vamos lá.
Aninha diz:
sim 50,00por meia h
.casado, pablo diz:
Então: menos que isso ou até isso não pode ser negociado um valor abaixo dos 50, considerando que se trata de uma conversa?
Aninha diz:
isso mesmo
Aninha diz:
eu também tenho outros compromissos a cumprir
.casado, pablo diz:
Tudo bem. E nem questiono isso. Por isso, inclusive, que a conversa será sucinta, creio. Vamos levar um gravador, as perguntas já estarão formuladas e você fala o que der na telha. Pagar 50 Reias por uma conversa que pode não chegar a 30 minutos é rasgar dinheiro - no nosso caso.
Aninha diz:
infelismente eu nao posso fazer nada
.casado, pablo diz:
Nem eu. Vai me dizer que 30 Reais apenas para uma conversa/entrevista é pouco? Considerando que, por 20 Reias a mais, você realizar o ato sexual num período de 30 min? Qual é.
Aninha diz:
bye
.casado, pablo diz:
Hm, jogo difícil esse. Uma contra-proposta: 40 Reias.
.casado, pablo diz:
A conversa durando, no mínimo, 30 min certinhos.
Aninha diz:
infelismente eu já disse que só trabalho por hora
.casado, pablo diz:
?
Aninha diz:
me desculpa tenho que atender o tel
.casado, pablo diz:
Tudo bem.
.casado, pablo diz:
Mas agora eu fiquei sem entender: quando falei com você ao telefone, explicitei a questão do horário - que a entrevista duraria meia-hora, no máximo -, perguntei se poderia ser negociado um valor abaixo dos 50 - e vc disse que sim -, e agora o seu argumento pra não ganhar 40 contos por uma conversa é que você cobra por hora?
.casado, pablo diz:
Tô tentando entender a lógica disso.
Aninha diz:
eu disse que 50 a partir de meia hora , e 1 hora fica no minimo 80,00 foi isso q disse,vc deve ter entendido errado
Aninha diz:
no meu orkut tem todo meu perfil
.casado, pablo diz:
Então, menos que meia hora não seria um valor menor? E por algo que nem envolve sexo?
.casado, pablo diz:
Eu sei, eu li.
.casado, pablo diz:
Sexo no sentido literal, quis dizer.
.casado, pablo diz:
Porque você só vai gastar um pouco de saliva, levar 40 pilas por uma conversa e xau.
.casado, pablo diz:
Não sei se vc pode estar achando que se trata de alguma armada - e eu te passei links via e-mail que confirmam a existência da publicação onde sairia a entrevista.
Aninha diz:
meu querido independente de ter sxo ou nao eu trabalho com hora
Aninha diz:
sexo
.casado, pablo diz:
E isso eu entendi claramente. Meu argumento é que: se por meia-hora de SEXO você cobra a partir de 50, menos que isso seria um valor abaixo. E o objetivo da entrevista é claro: a idéia é saber como você vive no mundo da prostituição em Maceió. se você trabalha por hora independente do assunto ser sexo, não nos interessa. queremos saber sobre o seu produto.
Aninha diz:
é como eu ja´te expliquei, se não dá ,não dá.
Aninha diz:
agora tenho que ir. xau
.casado, pablo diz:
Ai, meu saquinho. Que seja. E a gente ainda leva a sério as coisas que se vê na internet.
.casado, pablo diz:
Bom trabalho “por hora”.
.casado, pablo diz:
Até
Fiquei parecendo um idiota durante boa parte da conversa. Claro, fui pego com as calças na mão: na minha cabeça, a matemática da “Aninha” não fazia sentido. Parecia que eu estava negociando uma consultoria para um estudo antropológico acadêmico ou roteiro cinematográfico de algum drama de orçamento baixo com uma verdadeira expert no assunto. Nem um, nem outro, nem nada. Só perda de tempo e paciência. Bruna Surfistinha foi um mal para a classe, pelo visto. “Infelismente”.
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Texto publicado originalmente na terceira edição do fanzine Gaveta, lançada em dezembro de 2007.
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