Archive for Paraíso das Águas

“Façam um favor, não façam vergonha”

Zumbi Vive?

Esta é a pergunta que Artur Finizola (se) faz no título do texto que publicou em seu site, o Aiégua:

O que era para ter sido a celebração da resistência negra nos quilombos alagoanos, tornou-se um show de inadimplência, preconceito, amadorismo e conseqüentemente: violência. No último dia 15, a banda de reggae Vibrações iniciou o projeto Zumbi Vive, com a proposta de agregar as manifestações afro-descendentes num evento que visava chamar a atenção do público alagoano sobre o valor histórico do dia de hoje (20 de novembro). Infelizmente, a missão não chegou nem perto de ser cumprida.

Falta de acesso a deficiente, confusão na entrada e agressão a uma moça negra.

Leia o texto completo.

Enquanto isso, em Maceió, religiosos suspenderam as atividades como forma de protesto no Dia da Consciência Negra.

Enfim… o que se comemora mesmo hoje?

O mínimo de indignação

Na minha lista de medos sociais, dentre várias coisas, constam o assaltante, o assassino, o seqüestrador. Claro: ser assaltado numa cidade como Maceió é pra lá de imprevisível se você previne-se devidamente; nunca dei motivo a ninguém para que me queiram a sete palmos; muito menos tenho dinheiro suficiente ou sou parente de alguém endinheirado para ser jogado num porta-malas e ficar refém em cativeiro nas imediações dum canavial. Apesar dos temores listados, não deixo de levar a vida fora de casa com certa tranqüilidade, sendo a minha maior preocupação quando ponho os pés na rua é não perder o horário do ônibus e chegar atrasado no trabalho.

A questão é que há itens aparentemente bobos na tal lista de coisas que me assustam (e irritam) no convívio social que são capazes de me deixar com o coração a mil e as veias pulsando feito o toque vibrador do celular. São bobos no que diz respeito a ação que causa incomodo — como o sujeito sentado na fila detrás da sua no cinema, chutando o encosto da cadeira. Não é todo mundo que verbaliza a reclamação. Numa situação destas, Ana e eu costumamos olhar com cara feia. Quando isso não é o bastante e os chutes permanecem, mudamos de lugar. Frescura, covardia? O (nosso) ponto é: não dá para saber com quem está se lidando. E não se trata do receio de iniciar um showzinho de punhos fechados e solados de tênis rasgando o ar. Em Maceió, não é só na periferia que as pessoas se matam por causa de R$ 10,00 que ficaram faltando para fechar a conta na birosca: já teve playboy que, no meio da balada num dos principais bares da cidade, saiu do lugar, foi até o carro, catou a arma e ficou esperando o cara que olhou lascivo para a namorada dele e meteu-lhe dez tiros no peito. Proporcionalmente, não são tantos os casos deste tipo, mas fica valendo a prevenção, certo?

O que não significa que se deva evitar certos causos quando a briga realmente é boa; até para confrontarmos a permissividade que parasita a passividade dessa filosofia de não querer meter-se em confusão. No domingo 2 de novembro, Dia de Finados, Ana e eu decidimos não fechar os olhos — e nem tapar os ouvidos — para um problema que estava acabando com o nosso sossego: um vizinho bêbado.

Eu havia acordado às 5h da manhã. Às 6h, liguei a TV e sintonizei no FX para assistir a mais uma reprise dum episódio da Família da Pesada (um vício no matrimônio meu e d’Ana). De repente, me vi aumentando o volume da TV, competindo com um som alto e abafado vindo da rua — um carro (um gol ou pálio, não lembro) equipado com caixas de som estúpidas, portas fechadas, tocando axé. Equação infalível para acabar com o descanso dominical de qualquer (não) cristão.

Imaginei se tratar de alguém retornando duma farra, cana empapando o quengo e com o juízo lá nos dedões dos pés. Bastava colocar o carro na garagem e tudo voltaria a tranqüilidade.

Tsc.

Ana saltou da cama depois das 8h. O ar-condicionado do quarto havia poupado seus ouvidos até ali. Claro: o som ainda não estava tão alto. Passando das 9h, assistir televisão estava impraticável. Conversa só na base do grito. Criou-se um impasse se deveríamos ou não ligar para a polícia — até porque percebemos um conflito em relação ao som: num momento, era diminuído; noutro, aumentado a níveis irracionais. Das janelas do nosso apartamento, vimos o carro na garagem do prédio defronte ao nosso, as portas e a mala escancaradas. No sobe e desce do volume, liguei para a polícia.

Primeiro para a delegacia civil no nosso bairro, onde a atendente me informou que é a polícia militar a responsável por atender esse tipo de ocorrência, pedindo para que eu tentasse o 190. O fiz. A nova atendente, após registrar a ocorrência, disse que encaminharia uma viatura assim que houvesse uma disponível. Quando ela meteu o “disponível” na frase, vi a probabilidade do problema ser resolvido cair mais do que as bolsas nesses tempos de crise financeira mundial. Beirando ao desespero de ver o nosso domingo de descanso se transformar numa micareta fora de contexto, liguei para um amigo PM que também mora no condomínio. Ao invés de pedir que resolvesse o problema (além de estar de folga, sua interferência no caso poderia ser mal interpretada pelos moradores, imaginando que ele estaria se aproveitando da função para se impor como uma figura de autoridade), perguntei se ele não tinha o telefone de alguém de patente relevante que pudesse viabilizar uma viatura o quanto antes. Isto me levou ao tenente responsável pelo plantão na região do meu bairro naquele domingo; que estava atendendo uma ocorrência n’alguma grota, mas garantiu que passaria pelo nosso endereço depois disso.

Nesse meio tempo, meu pai apareceu: foi nos buscar para o almoço em família. O furdunço era tamanho quando ele chegou que, para conseguir nos avisar que estava na entrada do prédio, só no grito. Até tentou ligando para o meu celular, mas não ouvi o aparelho tocar.

Coisa de vinte minutos antes de sairmos, a atendente da polícia militar me retorna a ligação: queria saber se eu anotei a placa do veículo — “Não, não tem condições deu fazer isso. Estou dentro do meu apartamento, não tem como ver da janela.” — e disse que a viatura da rádio patrulha já estava a caminho. E quando colocamos os pés fora do apartamento, Ana viu do hall a chegada dos policiais. Justiça seria feita.

Os ventos daquele Dia de Finados, no entanto, fizeram com que a merda jogada no ventilador também sobrasse para nós. Quando meu pai, Ana e eu saímos do prédio, nos dirigindo para o carro, o baderneiro, visivelmente alcoolizado, apontou para o meu pai e não poupou saliva: “Eu sei quem foi que ligou. Foi esse filho da puta aí, que tá saindo. Eu vi ele no telefone aí na porta, ligando! Filho da puta!” O circo se armou daí. As ofensas continuaram, sobrando inclusive para mim, o “playbozinho de merda”. Não faltou, também, incentivo dos PMs para que déssemos parte do sujeito por calúnia, difamação, injúria, etc. Apesar da nossa vontade inicial ser esta, o pai do irresponsável, amigo do meu avô — a quem o apartamento onde moramos pertence(u) e onde residiu por mais de 20 anos com minha avó, minha fortaleza em diversos fins de semana e férias durante a infância e adolescência — e que também conhecia meu pai, já com lágrimas nos olhos, pediu para que resolvêssemos a situação ali. Ele conversaria com o filho; garantiu também que o mesmo não faria nada contra Ana e eu, visto que chegou a formular pretensas ameaças contra nós.

Esta é uma versão resumida dos fatos, porque certas baixarias é bom de se ver só na novela das oito. Na vida real, tudo poderia ter saído muito errado, perigando para o prejuízo da nossa integridade física — minha e da Ana, pelo menos, já que seria bem improvável que o sujeito, mesmo sóbrio, fosse capaz de passar pelo meu pai. E não se trata de uma disputa de punhos que foi evitada, mas da ausência do respeito mínimo entre pessoas que dividem o mesmo espaço urbano e do receio de fazer valer a máxima de “o seu direito termina quando o meu começa”.

Uma mocinha que acompanhava o beberrão — “Eu tava aqui curtindo, bebendo minha cerveja, lavando meu carro, brincando com as crianças” — disse para nós, durante a confusão, que aquilo não era motivo para chamar a polícia — “E tava tão alto assim?” —, que poderíamos ter pedido para que ele baixasse o volume. Um argumento, no mínimo, tosco: ela foi a responsável por ligar para o pai do sujeito que, por não agüentar a altura insuportável do som, meteu-se dentro do seu carro e foi para um lugar mais tranqüilo. Um morador do prédio vizinho ao meu, pelo que me disseram, pegou o filho ainda bebê e fez o mesmo. Sem contar um dos vizinhos do meu andar que, antes da polícia chegar e testemunhado pela Ana, saltou a pérola: “Isso aqui é mesmo uma favela”, e foi se trancar no apartamento.

Não estávamos no cinema, onde se pode mudar de lugar, chamar a gerência ou mesmo assistir o filme noutra sessão. Cada um estava em sua residência, num dia de descanso, e ninguém se dignou a fazer nada além de procurar outro canto ou resmungar bobagens hipócritas. A atitude que tivemos, também, não nos fez melhores e mais corajosos que ninguém, porque o receio nos acompanhou igualmente no decorrer da situação. Mas decidimos não deixar nosso mínimo desejo de indignação amolecer quando tínhamos toda a razão do mundo conosco.

Uma semana depois do fato, a recompensa: um domingo tranqüilo, sem carro com som turbinado nos obrigando a ouvir o que não queríamos. Descanso.

De nada, vizinhos. Obrigado, polícia militar.

Gaveta aberta

Gláucia Machando lendo o Gaveta #4

Outubro já se foi, e a edição número 4 da GAVETA está bem aberta e traz muitas novidades - inclusive poemas meus. Com distribuição gratuita, a publicação cumpre um importante papel em Maceió, pois é a única que manifesta sua própria voz. Independência e vida é uma boa definição para explicar o projeto editorial que reúne Carla Castellotti, Carol Almeida, Pablo Casado, Ramiro Ribeiro, Alexsandro Costa. Nas palavras de Castellotti, no editorial: “escrever é uma atividade que não descansa porque é a decodificação das idéias dessa galera”.

Pois muito bem!

Palavras gostosas vindas da Gláucia Machado, que colaborou na edição #4 com seu poema Série.

Um reconhecimento que se torna ainda maior quando ela afirma que o fanzine desempenha papel importante na cena cultural/literária de Maceió. Como alguém que entrou no jogo quando a partida já havia começo, fico feliz de continuar participando e colaborando com o projeto, que parece ganhar projeção além do simples divertimento de pessoas que se divertem juntando letras aqui e acolá.

‘Brigado ao Ramiro, Carla e Carol por terem me chamado para subir a bordo. Ao Alex por ter metido a cara na diagramação desta edição e pela ajuda na anterior. E as pessoas que lêem, comentam nos bares e cinemas e perguntam quando o próximo número vai sair.

Para quem quer ler, basta baixar o arquivo em .pdf (clique com o botão direito e selecione salvar como). Em breve, o Gaveta terá um blog só seu, com todas as edições disponíveis - seja para leitura online ou para download.

Leiam e espalhem por aí.

Preto, a ausência (de cor)

As eleições mal acabaram de ser realizadas e já teve autoridade não cumprindo promessa de campanha. A ironia está no fato de que não se trata de uma figura política: ao final de maio deste ano, o Sr. Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares, garantiu que no dia 1º de junho o Parque Memorial Quilombo dos Palmares estaria funcionando a todo vapor.

Meses depois, há quantas anda a situação na Serra da Barriga?

Segundo reportagem veiculada ontem a noite no AL TV 2ª Edição, da TV Gazeta, o Parque continua basicamente do mesmo modo desde a data acertada pelo Sr. Zulu Araújo.

De progresso, apenas a realização da licitação para decidir quem desenvolveria as atividades culturais no Memorial. Uma ONG de Brasília foi a vencedora, embolsando 2 Milhões de Reais — boa parte da verba foi concedida pelo governo federal — para a realização de um projeto, com duração de 10 meses, que promoveria shows mensais, visitações de estudantes de escolas públicas e cursos profissionalizantes para moradores da Serra da Barriga e do entorno. Disto, apenas alguns dos cursos foram realizados.

Representantes do Movimento Negro sediado em União, na entrevista do telejornal, afirmaram que as atividades foram interrompidas, como medida de segurança para os visitantes, devido as fortes chuvas no período do inverno. Eles esclareceram que ao final de outubro os shows e visitações devem ser retomados, assim como as oficinas.

Restando pouco mais de um mês para os eventos da Semana da Consciência Negra em União dos Palmares, espera-se mesmo que o maior dos monumentos à figura do negro em Alagoas — e do próprio país — esteja, enfim, operacionalmente funcionando. Seja para justificar todo o dinheiro investido ou mesmo para que se ateste que algo envolvendo o negro funciona fora da Bahia também. E isso, numa terra de coronéis brancos, se mostraria um senhor avanço.

A volta dos que não foram: lançamento do Gaveta #4

Desde o lançamento de sua terceira edição, em dezembro de 2007, o fanzine literário Gaveta entrou num hiato que quase transformou-se em seu fim. Quase um ano depois, ele retorna a cena cultural de Maceió com uma edição mais que recheada de boas letras, a ser lançada numa baladinha aberta a todos os interessados.

Se liga no flyer (clique na imagem para ampliar), cortesia do Alex: A volta dos que não foram: lançamento do Gaveta #4

Nesta edição:

Entrevistas:

Poesia e Prosa:

  • Série - por Gláucia Machado
  • Enquanto isso, na lanchonete - por Carol Almeida
  • Cápsulas - por Carla Castellotti
  • Atrás da cortina - por Pablo Casado

Ilustrações:

Ficha técnica:

  • Diagramação: Alex(sandro) Costa
  • Revisão: Carol Almeida e Pablo Casado
  • Editorial: Carla Castellotti
  • Edição: Ramiro Ribeiro e Pablo Casado

É sexta, 10 de outubro, a partir das 21h.

Local: Bar 1080 (ex-Engenho Jaraguá), Rua Silvério Jorge, 285 Jaraguá, Maceió.

Entrada franca e distribuição ainda mais franca do Gaveta #4!

Não perca(m)!

Eleições 2008 em Maceió e Alagoas

Ciço Almida Aconteceu o que era mais que previsto: Cícero Almeida, atual prefeito de Maceió, faturou a disputa com mais de 80% dos votos válidos na capital alagoana. Hoje, em entrevista ao Bom Dia Alagoas da TV Gazeta, filiada da Globo, pediu desculpas por não tem ido aos debates — medida tomada em consenso por ele e assessores, por entender que seria alvo de bombardeio pesado — e se emocionou ao falar que trabalhou na emissora (como motorista). Já na entrevista ao Jornal da Pajuçara Manhã da TV Pajuçara, filiada da Record, Cícero afirmou que vai partir para socorrer a periferia; algo que, em seu primeiro mandato, realizou em mais em termos de estrutura física. Espera-se que, na esfera social, ocorram avanços. Por fim, ainda na entrevista ao Jornal da Pajuçara Manhã, deixou uma mensagem ao jornalista Ricardo Mota, também de tom emocionado, garantindo que seu segundo mandato fará jus às críticas e comentários do repórter — este um apreciador, a sua maneira, do trabalho realizado por Cícero e, provavelmente, um dos jornalistas políticos que mais espera que o prefeito forrozeiro melhore no que ficou devendo no mandato a iniciar ano que vem.

Quanto aos demais candidatos a prefeitura da capital, o que há de falar? Apenas dos dois principais adversários de Cícero Almeida, chamados assim pela falta de um eufemismo ainda menos irônico: Solange Jurema, que tinha por trás de si o governo do estado, se mostrou ainda mais inexpressiva nesse final de eleição; ficou atrás de Judson Cabral, que obteve 10% dos votos, algo alcançado mais pela sua postura e campanha moderada, já que, segundo os analistas políticos, ele não teve apoio do PT nacional e, em Alagoas, a esquerda não chegou num denominador comum. Mário Agra, do PSOL, foi candidato apenas para que o partido não passasse batido. Manoel de Assis, do PSTU, foi uma figura alegórica no horário eleitoral e nos debates nas emissoras de TV; de tão despreparado, deve ter gerado vergonha alheia em muita gente.

Heloísa Helena Para a Câmara de Vereadores, uma surpresa — positiva para alguns e temerosa para outros: Heloísa Helena, a ex-senadora por Alagoas que muitos questionam o grau de sanidade, foi a primeira colocada com expressivos 29.516 votos. Heloísa adjetivou-se com humildade e tranqüilidade e saiu às ruas pedindo o voto da população. Eu mesmo apanhei uma vez santinhos das mãos da própria, num sinal próximo ao meu trabalho, e a avistei mais duas vezes na mesma região e outra na Avenida Fernandes Lima, Farol, parte alta de Maceió. Ela pediu, segundo me disseram, que os eleitores não dessem sua candidatura como ganha, que o voto de cada um era importante. Deu no que deu: além da votação espetacular, Heloísa arrastou consigo Ricardo Barbosa, eleito com míseros 435 votos, conhecido por ter sido líder estudantil e ter lutado contra o aumento das mensalidades da faculdade particular onde estudou (!). Espera-se que ambos sejam os grandes fiscalizadores da próxima gestão de Almeida; barulho, com certeza, não vai faltar quando se considera o histórico de Heloísa.

Thaíse Guedes Mas as surpresas não pararam na esfera solar: Thaíse Guedes, a popular “candidata ciborgue” do Goma de Mascar, foi eleita pelo PSC com 4.739. Ela junta-se a Rosinha da ADEFAL, PTB, no que diz respeito a candidatos portadores de necessidades especiais. Rosinha, no entanto, tem mais histórico: ela substituiu Jerônimo Cirqueira — que faleceu anos atrás — na direção da ADEFAL, instituição mais conhecida no que diz respeito ao trabalho com pessoas deficientes. Se Thaíse ganhou por ter gerado simpatia por sua condição e beleza jovem ao eleitorado maceioense, espera-se que, junto a Rosinha, desempenhe papel importante e real para as pessoas com necessidades especiais de Maceió. Para finalizar as novidades pasmadoras na eleição para vereador da capital, Arnaldo Fontan, atual presidente da câmara, não se reelegeu. Efeito do indiciamento na Operação Taturana? Vai saber. O mesmo não aconteceu com o ex-cabo Luiz Pedro, que se encontra preso por suspeita de assassinato e que foi indiciado pela mesma Operação Taturana. A piada pronta que tem corrido desde ontem é que ele vai despachar do presídio.

NO INTERIOR DO ESTADO

Em Arapiraca, terra do fumo, do ASA e segunda maior cidade de Alagoas, Luciano Barbosa ganhou com uma porcentagem ainda maior que Cícero Almeida: mais de 90% dos arapiraquenses confirmaram o segundo mandato do atual prefeito, considerado um dos melhores administradores municipais do país. É um dos possíveis candidatos ao governo do estado em 2010; um páreo duro, com certeza.

Fernando Collor, que tirou licença do Senado, perdeu em duas frontes onde tinha candidatos apoiados por sua pessoa. Em Marechal Deodoro, o deputado federal Cristiano Matheus ganhou com larga vantagem dos concorrentes. Euclides Melo, primo do ex-presidente da república, ficou em terceiro lugar. Já em Rio Largo, para onde Collor se deslocou na reta final da eleição, fixando moradia temporária, o filho Fernando James também amargou a derrota — e também em terceiro lugar.

Em União dos Palmares, a terra de Zumbi, Kil Freitas, vice do recentemente falecido José Pedrosa e que tomou seu posto, foi eleito prefeito. A gravação realizada numa reunião de campanha do candidato e veiculada no horário eleitoral de lá, onde o ex-governador Manoel Gomes de Barros afirmava que quem mandava na cidade era ele e que Kil não assinava nada sem sua autorização, não foi o suficiente para que Beto Baía superasse o adversário. Derrota também para João Lyra, usineiro que lançou Kil no mundo da política e se sentiu traído pelo protegido ao saber da submissão do mesmo para Gomes de Barros, também usineiro e dono de áreas no entorno de União.

CRIMES ELEITORAIS

Como prometido semana passada pelo superintendente da Polícia Federal em Alagoas, José Pinto de Luna, a instituição realizou diversas ações na capital e interior visando limar as tentativas de compra de votos. Mais de 38 mil Reais foram apreendidos até ontem, no total, nas cidades Porto de Pedras, São Luiz do Quitunde, Craíbas, Rio Largo e na capital.

Em Maceió, ocorreram denúncias de que algumas urnas eletrônicas haviam sido fraudadas: eleitores afirmaram que ao digitarem o número 11, do prefeito reeleito Cícero Almeida, aparecia na tela a foto da candidata Solange Jurema. O TRE, juntamente com advogados do prefeito, verificaram as máquinas e não se constatou fraude. Segundo o diretor de informática do Tribunal, os eleitores teriam se confundindo com a foto da vice de Cícero, Lourdinha Lyra. (Como se ambas fossem idênticas, claro.)

AOS TRABALHOS

Mesmo indignando parte da população de Maceió por não ter comparecido aos debates nas emissoras da TV, Cícero Almeida manteve o foco. Respondeu com ponderação as agressivas provocações dos adversários, principalmente da candidata Solange Jurema. Esta que, surgida do limbo político — mesmo tendo ocupado cargo importante no governo FHC, ninguém em Maceió fazia a menor idéia de quem ela era —, vai ficar conhecida mais pelas provocações de sua campanha do que por propostas concretas para governar Maceió. Da apresentadora irritante de seu horário eleitoral às críticas referentes a uma música sacana do prefeito forrozeiro — nada que um Saia Rodada da vida não consiga ser dez vezes mais sacana —, a peça televisiva onde um gordinho dança por várias partes da cidade onde Cícero prometeu melhorar e não deu as caras, transformou-se em hit e motivo de conversa em bares e ambientes de trabalho; um ctrl-c+ctrl-v básico de um vídeo gringo. A peça é conhecida como “Cadê o Ciço?” e, claro, já está no Youtube:

A resposta do Prefeito, agora vencedor da eleição, foi essa rima: “Cadê o Ciço? Tá trabalhando que o cabra é bom de serviço”. Veremos se isso continuará nesse segundo mandato; e, de preferência, sem os problemas com a justiça e com um possível abandono do cargo para a disputa ao governo de Alagoas em 2010.

Meu desejo, como um não-eleitor de Cícero Almeida nessa eleição, é que ele governe não apenas para os 319.831 eleitores que ele disse, em entrevista nas duas principais emissoras do estado, que são seus patrões, mas para todos os maceioenses. Que, independente do voto, pagam os seus impostos e, obviamente, têm o mesmo posto de ‘patrão’ que seus eleitores.

Mudanças de efeito placebo?

Eleições à vista no próximo domingo, 5 de outubro, e a vaga para o cargo de gestor da cidade de Maceió está basicamente garantida para o atual prefeito Cícero Almeida. E não é à toa. Homem de origem humilde, daqueles de fé explícita a Deus e alguns punhados de santos e santas, foi subindo na vida e, quando todos se deram conta, fora eleito prefeito da capital de Alagoas.

Lembro do Cícero repórter — e, pelo que sei, sem diploma — do noticiário polialesco Plantão Alagoas, um dos pioneiros nesse estilo na TV do estado, e apresentado então pelo hoje deputado estadual e ainda host de um programa similar, em outra emissora, Jeferson Morais. Almeida, nessa época, já atuava também no rádio. Quando eleito vereador e, posteriormente, deputado estadual, ambos os cargos alcançados com imensa quantidade de votos, ele foi deixando de lado o microfone da TV e manteve-se apenas nas ondas FM. Virou o prefeito forrozeiro e chegou a dar as caras no Jô Soares por isso.

Cícero Almeida realizou, nesse primeiro mandato, obras de cunho estrutural: calçou ruas na periferia, tascou viadutos em áreas de classe média e está finalizando a maquiagem na orla da capital. Pode ter feito outras coisas, mas o fácil de catar na mídia foram essas ações. De resto, teve lá seus deslizes. Para a grande massa que tem nele a figura de um prefeito digno e que surpreendeu a todos isso pouco interessa pelo que indicam as pesquisas — o homem está com 80% do povo ao seu lado.

Mas não foram deslizes qualquer.

Maceió está sem receber recursos do governo federal para a área de ação social por irregularidades no uso da verba repassada. Cinco secretários passaram pela pasta e nada se resolveu. Um deles, Cláudio Farias, deixou o cargo denunciando José Aremilton, amigo particular do prefeito, sobre um esquema de desvio do dinheiro.

Nesta semana, Almeida levou outra pedrada: foi indiciado oficialmente na Operação Taturana, ação comandada pela Polícia Federal e que teve início em dezembro de 2007, por crimes de peculato, formação de quadrilha, crime contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Segundo o delegado Janderlyer Gomes, que preside o inquérito, garante que os crimes foram cometidos. Na boca miúda de parte da população, há tempos se comenta do enriquecimento ilícito de Cícero; algo obtido ao lado de outros políticos e lançando mão de diversos laranjas. Fala-se, por exemplo, de propriedades de milhões, como fazendas, que alguém com o salário do comandante de Maceió não teria condições de adquirir. “Basta andar nas ruas para ver a disparidade entre o que um indiciado recebe, por exemplo, e o seu patrimônio”, declarou Gomes.

O indiciamento de Cícero Almeida é apenas um dos muitos outros movidos contra políticos, seja na esfera municipal e, principalmente, estadual. Desde o início da Operação Taturana, Alagoas tem visto um trabalho de moralização da vida política e social como ninguém podia imaginar. Não se considerando o histórico do estado, conhecido como terra da pistolagem. Políticos com fama de coronéis, assassinos e senhores da vida alheia começaram a cair e tiveram sua pose jogada aos porcos. Vibrou a população, sentindo uma vibe de mudança.

Ainda assim, mesmo com as renovadas polícias Federal e Civil, a filosofia do “rouba mas faz” vigora entre a massa. A aprovação de 80% de Cícero Almeida é prova disso. Mas, conforme a citada corrente filosófica, o prefeito fez sim coisas benéficas — e que são de seu dever! — para com os cidadãos de Maceió. Se ele ficou com unzinho a mais de obras possivelmente superfaturadas, deixa pra lá, certo? O que importa é que a sua e a minha ruas estão calçadas com paralelepípedos.

A população reclama da demora na apuração e execução dos processos referentes a Taturana, mas não deixa de ser conivente às vésperas de mais uma eleição. O que inclui a própria classe média, que vive na bolha que é Maceió, a casa grande que fecha os olhos para a senzala que é o interior do estado. Espera-se, claro, que a Federal e Civil consigam dar cabo de suas ações, mesmo com as pressões que têm acontecido na esfera política — aqui e em Brasília —; que a população descruze os braços, perceba que Jesus não vai descer de helicóptero dos Céus e Cícero Almeida pode ser um reflexo bem aparentado de (suas) velhas e nocivas alianças políticas.

É hoje!

Ah, foda-se a chuva, os poucos cigarros no maço, porque hoje tem Wado:

Flyer Wado

Fui!

Memorial da Ausência

Semana passada, o presidente da toda-poderosa Fundação Palmares, Sr. Zulu Araújo, afirmou para o Jornal Nacional que o Parque Memorial Quilombo dos Palmares estaria em pleno funcionamento no último domingo, dia 1º de junho.

Montado na Serra da Barriga e inaugurado a pouco mais de seis meses, em União dos Palmares, interior do estado de Alagoas, o parque saiu ao custo de, segundo as fontes oficiais, em torno de 2 Milhões de Reais. O que seria o símbolo máximo em homenagem ao Quilombo liderado, em seu auge, por Zumbi, tornou-se objeto de disputa nas esferas municipal, estadual e federal pelo seu gerenciamento.

Apesar dos pesares, e considerando a qualidade dos órgãos políticos de Alagoas e seus gestores, a Fundação Palmares seria uma saída razoável para manter vivo um projeto extremamente importante para a valorização de uma faceta da identidade cultural e social do estado: a negra.

Infelizmente, segundo reportagem do Bom Dia Alagoas de hoje, 3 de junho, o Parque continua a não funcionar.

Em nota, publicada em seu site oficial, a Fundação Palmares contestou a reportagem veiculada pelo Jornal Nacional semana passada, afirmando que o telejornal “preferiu apenas colocar no ar aquilo que mais lhe agradou no rumo já antecipado da reportagem proposta”.

Ainda na nota, Zulu teria explicado, num material não veiculado na TV, “que os projetos prometidos ao Parque, na ocasião da sua inauguração, dependiam da liberação do Orçamento da União, que, por sua vez, dependia da votação do Congresso Nacional. E que somente agora, após a liberação e contigenciamento pelo Ministério do Planejamento, a Fundação Cultural Palmares, responsável pela preservação e manutenção do Parque, estaria apta a iniciar os procedimentos para as atividades propostas”.

Independente dos interesses aos quais a matéria poderia atender — como é questionado no comunicado — e da necessidade da liberação das verbas requisitadas, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, até o presente momento, nada mais é do que o reflexo de obras do tipo realizadas em solo alagoano: fogos de artifício para uma platéia ausente. O que é uma pena.

Soa fantasioso imaginar que, um dia, possamos recomendar, além das praias do nosso belíssimo litoral — provavelmente um dos três mais belos do Nordeste, senão o primeiro lugar entre estes —, pontos de visitação que falem da história e cultura de Alagoas.

E eu não duvido: se União dos Palmares e Zumbi fossem da Bahia, o Memorial seria um tipo de Disneylândia do movimento negro. Devíamos contratá-los para fazer um serviço de consultoria sobre bairrismo por estas bandas, quem sabe.

Aproveite e leia o meu relato sobre os dias em que estive em União dos Palmares, ano passado, e que antecederam a inauguração “oficial” do Memorial.

Blog, blog, blog

No Caderno B da Gazeta de Alagoas do última sábado, 03 de maio, foi publicada uma matéria sobre os blogs da terrinha.

Clique na imagem abaixo para baixar o .pdf da reportagem:

Reportagem sobre blogs da Gazeta

Dentre eles, este que vocês acessam foi linkado. Estão lá também o Ramiro, a Carol e a Carla.

Agradecimentos ao Fernando Coelho, que assinou a matéria, e a Carla, que resenhou este blog.

(Se conseguir, coloco uma foto do jornal neste post por esses dias, ok?)

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Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

Área compartilhada

O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.