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25 anos e contando

Nunca fui daqueles de comemorar efusivamente (o meu) aniversário. Quando criança, claro, aproveitei todas as festas que meus pais bancaram. Com a idade avançando, minha maneira de celebrar tornou-se mais restrita: preferia ficar em casa, sem ninguém me enchendo a paciência, com um almoço feito sob medida para o meu gosto limitado, aproveitando os presentes financeiros gastos com gibis, livros e outras eventuais nerdices. Não que meu comportamento seja de todo anti-social; sou do tipo caseiro. Que dia melhor para aproveitar um descanso em casa do que no próprio aniversário, quando quem te quer bem só deseja te agradar?

Meu aniversário 08 Este ano, infelizmente, meu aniversário caiu bem numa terça-feira. O que significava trabalhar oito horas e ter apenas o período da noite para uma eventual comemoração. Graças a uma série de problemas de ordem familiar e pessoal, desisti de tentar reunir os amigos mais próximos; sair com a Ana parecia uma possibilidade, mas estávamos tão de saco cheio que eu não faria questão de abrir mão de festejar meus 25 anos no fim de semana que se seguiria.

A questão é que eu sou um tremendo idiota. Sou mesmo.

Porque me surpreendo com os amigos que tenho e com a mulher que me deu o prazer de, fora o fato de dividir o mesmo espaço físico, poder chamá-la de esposa. Às vezes, não sei o que faço para que essas pessoas tenham o mínimo de respeito e apreço por mim, porque sou idiota, cabuloso de carteirinha e preguiçoso feito matuto de bucho cheio.

No dia 28 de outubro de 2008, tive duas festas surpresas, das quais não tive a mínima suspeita de que elas aconteceriam.

Meu aniversário 08 Primeiro, meus amigos e colegas do trabalho trouxeram torta, fizeram cartaz e até presente ganhei. Só pecaram pela Coca-cola ser a única bebida da comemoração (eu detesto Coca-cola e não tem nada de pseudo-patriotismo nisso, mas de gosto mesmo). Se eu estava com desgosto de trabalhar no dia do meu aniversário, ele sumiu assim que eles entraram na sala cantando parabéns.

À noite, Ana me deu o maior golpe de todos.

Havíamos marcado de nos encontrar no apartamento dos meus pais, ficarmos um tempo com eles, esperarmos meus avós maternos aparecerem para me desejarem parabéns e, só então, sairmos nós dois para jantar.

Mesmo com uma história completamente maluca de uma torta que ela inventou de pedir de último mora, para o momento não passar batido, e que veio o sabor errado, além da eventual demora dos meus avós e dela ter se enfiado na cozinha para fazer uns salgados, não desconfiei em nenhum momento que Ana tivesse me preparado uma festa surpresa.

Minha esposa simplesmente me fez diversas perguntas nas semanas que antecederam meus 25 anos — quem eu convidaria, para onde gostaria de ir — e eu não me toquei que ela estava preparando o terreno. Até um cd com alguns músicos que gosto ela pediu preu gravar para uma amiga dela, que comemoraria aniversário dias antes, e que era para a minha própria festa (eu sou tão preguiçoso que nem gravei, vejam só, ela que fez isso por contra própria).

Meu aniversário 08 Ana entrou em contato com as pessoas que citei via Orkut, falou com os meus pais, agendou uma torta, salgados, fez tira-gostos, comprou refrigerantes e muita cerveja… e um bolo com velinha do Batman (ô, meu herói favorito =D), me enrolando direitinho. Tudo para comemorar os meus 25 anos.

Quando finalmente fui até o salão de festas e dei de cara com parentes e amigos mais próximos, fiquei besta, sem reação, me sentindo um idiota feliz e sortudo — porque eu tenho a melhor mulher do mundo.

Fico feliz por todas as pessoas que participaram de perto dos meus 25 anos no dia 28 de outubro de 2008, e agradeço de coração a elas, mas é a minha esposa, minha preta, minha Ana que merece toda a devoção que um pobre coitado nerd como eu pode lhe dar. E que nos próximos 25 anos eu possa estar ao seu lado para retribuir 25 vezes mais tudo o que você me proporcionou no dia 28 deste ano.

À você, amor da minha vida.

O mínimo de indignação

Na minha lista de medos sociais, dentre várias coisas, constam o assaltante, o assassino, o seqüestrador. Claro: ser assaltado numa cidade como Maceió é pra lá de imprevisível se você previne-se devidamente; nunca dei motivo a ninguém para que me queiram a sete palmos; muito menos tenho dinheiro suficiente ou sou parente de alguém endinheirado para ser jogado num porta-malas e ficar refém em cativeiro nas imediações dum canavial. Apesar dos temores listados, não deixo de levar a vida fora de casa com certa tranqüilidade, sendo a minha maior preocupação quando ponho os pés na rua é não perder o horário do ônibus e chegar atrasado no trabalho.

A questão é que há itens aparentemente bobos na tal lista de coisas que me assustam (e irritam) no convívio social que são capazes de me deixar com o coração a mil e as veias pulsando feito o toque vibrador do celular. São bobos no que diz respeito a ação que causa incomodo — como o sujeito sentado na fila detrás da sua no cinema, chutando o encosto da cadeira. Não é todo mundo que verbaliza a reclamação. Numa situação destas, Ana e eu costumamos olhar com cara feia. Quando isso não é o bastante e os chutes permanecem, mudamos de lugar. Frescura, covardia? O (nosso) ponto é: não dá para saber com quem está se lidando. E não se trata do receio de iniciar um showzinho de punhos fechados e solados de tênis rasgando o ar. Em Maceió, não é só na periferia que as pessoas se matam por causa de R$ 10,00 que ficaram faltando para fechar a conta na birosca: já teve playboy que, no meio da balada num dos principais bares da cidade, saiu do lugar, foi até o carro, catou a arma e ficou esperando o cara que olhou lascivo para a namorada dele e meteu-lhe dez tiros no peito. Proporcionalmente, não são tantos os casos deste tipo, mas fica valendo a prevenção, certo?

O que não significa que se deva evitar certos causos quando a briga realmente é boa; até para confrontarmos a permissividade que parasita a passividade dessa filosofia de não querer meter-se em confusão. No domingo 2 de novembro, Dia de Finados, Ana e eu decidimos não fechar os olhos — e nem tapar os ouvidos — para um problema que estava acabando com o nosso sossego: um vizinho bêbado.

Eu havia acordado às 5h da manhã. Às 6h, liguei a TV e sintonizei no FX para assistir a mais uma reprise dum episódio da Família da Pesada (um vício no matrimônio meu e d’Ana). De repente, me vi aumentando o volume da TV, competindo com um som alto e abafado vindo da rua — um carro (um gol ou pálio, não lembro) equipado com caixas de som estúpidas, portas fechadas, tocando axé. Equação infalível para acabar com o descanso dominical de qualquer (não) cristão.

Imaginei se tratar de alguém retornando duma farra, cana empapando o quengo e com o juízo lá nos dedões dos pés. Bastava colocar o carro na garagem e tudo voltaria a tranqüilidade.

Tsc.

Ana saltou da cama depois das 8h. O ar-condicionado do quarto havia poupado seus ouvidos até ali. Claro: o som ainda não estava tão alto. Passando das 9h, assistir televisão estava impraticável. Conversa só na base do grito. Criou-se um impasse se deveríamos ou não ligar para a polícia — até porque percebemos um conflito em relação ao som: num momento, era diminuído; noutro, aumentado a níveis irracionais. Das janelas do nosso apartamento, vimos o carro na garagem do prédio defronte ao nosso, as portas e a mala escancaradas. No sobe e desce do volume, liguei para a polícia.

Primeiro para a delegacia civil no nosso bairro, onde a atendente me informou que é a polícia militar a responsável por atender esse tipo de ocorrência, pedindo para que eu tentasse o 190. O fiz. A nova atendente, após registrar a ocorrência, disse que encaminharia uma viatura assim que houvesse uma disponível. Quando ela meteu o “disponível” na frase, vi a probabilidade do problema ser resolvido cair mais do que as bolsas nesses tempos de crise financeira mundial. Beirando ao desespero de ver o nosso domingo de descanso se transformar numa micareta fora de contexto, liguei para um amigo PM que também mora no condomínio. Ao invés de pedir que resolvesse o problema (além de estar de folga, sua interferência no caso poderia ser mal interpretada pelos moradores, imaginando que ele estaria se aproveitando da função para se impor como uma figura de autoridade), perguntei se ele não tinha o telefone de alguém de patente relevante que pudesse viabilizar uma viatura o quanto antes. Isto me levou ao tenente responsável pelo plantão na região do meu bairro naquele domingo; que estava atendendo uma ocorrência n’alguma grota, mas garantiu que passaria pelo nosso endereço depois disso.

Nesse meio tempo, meu pai apareceu: foi nos buscar para o almoço em família. O furdunço era tamanho quando ele chegou que, para conseguir nos avisar que estava na entrada do prédio, só no grito. Até tentou ligando para o meu celular, mas não ouvi o aparelho tocar.

Coisa de vinte minutos antes de sairmos, a atendente da polícia militar me retorna a ligação: queria saber se eu anotei a placa do veículo — “Não, não tem condições deu fazer isso. Estou dentro do meu apartamento, não tem como ver da janela.” — e disse que a viatura da rádio patrulha já estava a caminho. E quando colocamos os pés fora do apartamento, Ana viu do hall a chegada dos policiais. Justiça seria feita.

Os ventos daquele Dia de Finados, no entanto, fizeram com que a merda jogada no ventilador também sobrasse para nós. Quando meu pai, Ana e eu saímos do prédio, nos dirigindo para o carro, o baderneiro, visivelmente alcoolizado, apontou para o meu pai e não poupou saliva: “Eu sei quem foi que ligou. Foi esse filho da puta aí, que tá saindo. Eu vi ele no telefone aí na porta, ligando! Filho da puta!” O circo se armou daí. As ofensas continuaram, sobrando inclusive para mim, o “playbozinho de merda”. Não faltou, também, incentivo dos PMs para que déssemos parte do sujeito por calúnia, difamação, injúria, etc. Apesar da nossa vontade inicial ser esta, o pai do irresponsável, amigo do meu avô — a quem o apartamento onde moramos pertence(u) e onde residiu por mais de 20 anos com minha avó, minha fortaleza em diversos fins de semana e férias durante a infância e adolescência — e que também conhecia meu pai, já com lágrimas nos olhos, pediu para que resolvêssemos a situação ali. Ele conversaria com o filho; garantiu também que o mesmo não faria nada contra Ana e eu, visto que chegou a formular pretensas ameaças contra nós.

Esta é uma versão resumida dos fatos, porque certas baixarias é bom de se ver só na novela das oito. Na vida real, tudo poderia ter saído muito errado, perigando para o prejuízo da nossa integridade física — minha e da Ana, pelo menos, já que seria bem improvável que o sujeito, mesmo sóbrio, fosse capaz de passar pelo meu pai. E não se trata de uma disputa de punhos que foi evitada, mas da ausência do respeito mínimo entre pessoas que dividem o mesmo espaço urbano e do receio de fazer valer a máxima de “o seu direito termina quando o meu começa”.

Uma mocinha que acompanhava o beberrão — “Eu tava aqui curtindo, bebendo minha cerveja, lavando meu carro, brincando com as crianças” — disse para nós, durante a confusão, que aquilo não era motivo para chamar a polícia — “E tava tão alto assim?” —, que poderíamos ter pedido para que ele baixasse o volume. Um argumento, no mínimo, tosco: ela foi a responsável por ligar para o pai do sujeito que, por não agüentar a altura insuportável do som, meteu-se dentro do seu carro e foi para um lugar mais tranqüilo. Um morador do prédio vizinho ao meu, pelo que me disseram, pegou o filho ainda bebê e fez o mesmo. Sem contar um dos vizinhos do meu andar que, antes da polícia chegar e testemunhado pela Ana, saltou a pérola: “Isso aqui é mesmo uma favela”, e foi se trancar no apartamento.

Não estávamos no cinema, onde se pode mudar de lugar, chamar a gerência ou mesmo assistir o filme noutra sessão. Cada um estava em sua residência, num dia de descanso, e ninguém se dignou a fazer nada além de procurar outro canto ou resmungar bobagens hipócritas. A atitude que tivemos, também, não nos fez melhores e mais corajosos que ninguém, porque o receio nos acompanhou igualmente no decorrer da situação. Mas decidimos não deixar nosso mínimo desejo de indignação amolecer quando tínhamos toda a razão do mundo conosco.

Uma semana depois do fato, a recompensa: um domingo tranqüilo, sem carro com som turbinado nos obrigando a ouvir o que não queríamos. Descanso.

De nada, vizinhos. Obrigado, polícia militar.

Preto, a ausência (de cor)

As eleições mal acabaram de ser realizadas e já teve autoridade não cumprindo promessa de campanha. A ironia está no fato de que não se trata de uma figura política: ao final de maio deste ano, o Sr. Zulu Araújo, presidente da Fundação Palmares, garantiu que no dia 1º de junho o Parque Memorial Quilombo dos Palmares estaria funcionando a todo vapor.

Meses depois, há quantas anda a situação na Serra da Barriga?

Segundo reportagem veiculada ontem a noite no AL TV 2ª Edição, da TV Gazeta, o Parque continua basicamente do mesmo modo desde a data acertada pelo Sr. Zulu Araújo.

De progresso, apenas a realização da licitação para decidir quem desenvolveria as atividades culturais no Memorial. Uma ONG de Brasília foi a vencedora, embolsando 2 Milhões de Reais — boa parte da verba foi concedida pelo governo federal — para a realização de um projeto, com duração de 10 meses, que promoveria shows mensais, visitações de estudantes de escolas públicas e cursos profissionalizantes para moradores da Serra da Barriga e do entorno. Disto, apenas alguns dos cursos foram realizados.

Representantes do Movimento Negro sediado em União, na entrevista do telejornal, afirmaram que as atividades foram interrompidas, como medida de segurança para os visitantes, devido as fortes chuvas no período do inverno. Eles esclareceram que ao final de outubro os shows e visitações devem ser retomados, assim como as oficinas.

Restando pouco mais de um mês para os eventos da Semana da Consciência Negra em União dos Palmares, espera-se mesmo que o maior dos monumentos à figura do negro em Alagoas — e do próprio país — esteja, enfim, operacionalmente funcionando. Seja para justificar todo o dinheiro investido ou mesmo para que se ateste que algo envolvendo o negro funciona fora da Bahia também. E isso, numa terra de coronéis brancos, se mostraria um senhor avanço.

Lapso temporal

Primeiro, desocuparam o apartamento.

Encontramos apenas poeira, duas prateleiras velhas que eram usadas num dos quartos e foram jogadas num canto da sala, paredes cobertas por um rosa cegante e mais de vinte anos de arquitetura original não retocada.

Depois, veio a reforma.

Arrancaram o piso, deixaram as paredes nuas e, ainda por cima, derrubaram duas delas — uma de um quarto para a sala e outra da cozinha para a sala. Foi como recauchutar uma velha e deixá-la um pouco mais apresentável. Bonita, quem sabe.

Usamos um tipo de piso para a sala, corredor e quartos, algo meio areia, bege claro. Na cozinha, optamos pelo estilo boteco: piso preto e branco, parede com pisos menores brancos e, pouco antes de chegar a sua metade, uma faixa alternando com alguns azuis circundando todo o ambiente. Nas paredes, tacamos dois tons de areia.

Tudo isso em quase dois meses e Ana e eu não tiramos uma única foto. Estamos nos perguntando como vamos contar isso para os nossos filhos e netos.

Listando presentes

Ana não é nerd, mas apronta das suas de vez em quando. E da mesma forma que ela me abriu os olhos (quando nosso namoro engatilhou) para o mundo dos filmes e sessões de arte, também me apresentou American Dad e Uma Família da Pesada - não é a toa que as caixas de dvd desse último, aqui em casa, foram compradas por ela (com exceção da terceira, que foi presente meu).

Para o aniversário dela deste ano, que é hoje, eu estava na dúvida. Ela adora vestidos e eu a adoro ainda mais de vestidos. Foram muitas vitrines apontando aqueles que imaginei que ela poderia gostar, errando bem mais que acertando.

Pensei em algo decorativo para o nosso apartamento, mas, mesmo que fosse algo que ela gostasse, ia ser mais um presente para a casa do que para ela. E eu já tenho restrições demais com tanta coisa florida que ela arranja.

Imaginei até uma festa com nossos amigos e/ou familiares. Mas como gastos do tipo andam meio improváveis nesses tempos pós-reforma e montagem do apê, quem sabe ano que vem.

Restou, então, apelar pela fagulha nerd que existe no coração da minha esposa.

E qual seria o presente ideal para uma mulher que comprou todas as temporadas de Sex and The City numa tacada só, levando de brinde uma nécessaire de couro estilosa, e que, vez por outra, apanho assistindo as malditas reprises da série no Fox Life?

Parabéns, amor!

A melhor segunda-feira

Foi a de ontem: Ana voltou de viagem, finalmente.

Troca(n)do

Quem mora nas capitais ou grandes centros urbanos do interior, onde o transporte público é a metáfora mais próxima de um banheiro unisex lotado no inferno, já foi platéia das mais diversas figuras ao usá-lo diariamente: gente vestida de palhaço pedindo para comprar uma ou outra bugiganga, assim elas teriam recursos para continuar visitando os velhinhos nos asilos; vendedores de doces industriais ou artesanais anunciando o produto na base de um discurso em tom de rap ou repente; e desempregados afirmando que, assim como milhões de outros brasileiros, aquela era a sua situação atual e, ao invés de estarem roubando ou matando, estão apenas pedindo.

Claro, você ou ele ali já se comoveu, achou que o sujeito merecia ou estava com tanto mau-hálito que uma balinha cairia bem. Mas quem nunca teve o pé atrás com todo esse povo, que tenha o desgosto de perder dois ônibus e que o terceiro quebre antes de chegar até o ponto onde você está esperando debaixo de chuva!

Por esses dias, Ana confirmou aquilo que você, eu e a sua avó que adora andar de coletivo já sabíamos: tem gente safada demais metida entre esses — na falta de um termo socialmente menos pejorativo — pedintes. Não todos, claro. Enfim…

Três vezes, em dias distintos, mas sempre no ônibus que ela apanha para voltar do trabalho, um menino subiu, com todo aquele discurso de desemprego, e pediu ajuda. O detalhe gritante, o qual seria capaz de dissipar qualquer sentimento de piedade em relação ao moleque: das três vezes, segundo a Ana — e a palavra da minha esposa é Lei & Ordem, vagabundagem —, ele usou nomes diferentes. E nomes diferentes compostos!

Da última vez, Ana não se agüentou e começou a rir sozinha. Eu teria sacado uma ou duas moedas da carteira e dado pra ele, mandando lembranças para seus irmãos gêmeos.

E tem gente que consegue dormir em paz dando trocado para essas cobras criadas, achando que fez a “sua parte”.

Fedeu

Trânsito lento e irritante numa das principais avenidas da capital, localizada justamente num bairro de classe média alta e que dá acesso a uma de suas praias mais concorridas. Some a isso a presença neste trecho de três restaurantes requisitados — um de comida típica baiana, uma pizzaria e uma churrascaria —, uma sorveteria da moda e lojas elitizadas de roupa, além das obras de mudança na malha viária realizadas pela prefeitura em diversos pontos da avenida, e perceba que o citado problema de trânsito estava mais que anunciado.

Duas mulheres, ambas turistas, desesperam-se no perrengue automobilístico.

Uma delas, a filha, mantinha-se ao volante, uma das mãos praticamente socando a buzina. A outra, senhora e mãe da motorista, estava bem sentada atrás, cuidando da neta, que dormia. As duas, irritadas, conversam sem acreditar no que criam ser a inépcia dos motoristas locais. (Como se o bronzeado camaronesco que ostentavam chegasse a ser um sinônimo de sagacidade.) O diálogo alcança o ápice quando a senhora, assoberbada, recomenda a filha:

— Minha filha, desvie, porque esse povo é tudo burro!

A mãe indicava, com o dedo rijo, uma rua à direita, a última antes da saída efetiva daquela avenida congestionada. A filha, aguardando que o carro a sua frente avançasse uns dois ou três metros, se meteu na tal rua quando a oportunidade apareceu. Elas, provavelmente, regojizaram-se pelo triunfo obtido.

Agora, difícil mesmo é imaginar a expressão adequada na cara dessas mulheres quando elas deram com as fuças numa rua sem saída. Sério: quem consegue determinar a fisionomia de alguém que acabou de perceber que patinou no gelo fino da ignorância? Que sentiu o peso da merda nas calças quando achou que aquele peido seria inocente e passaria despercebido?

Sinto dizer, queridas, mas vocês precisam se trocar. E só voltar aqui com um nível de adestramento melhor — porque os burros nativos, além de hospitaleiros, estão mais espertinhos, hein?

Futuro do presente

Hoje em dia, quando as pessoas se casam, não apenas colocam alianças nos anelares anulares esquerdos e juntam as escovas de dentes sob um mesmo teto — elas também atualizam a opção de relacionamento do Orkut.

Reconstruindo

Nos meus tempos de moleque, dispensava parte dos meus fins de semana e períodos de férias de meio e fim de ano no apartamento dos meus avós maternos. Eles moravam — e ainda moram — no bairro do Farol, parte alta de Maceió. Nessa época fiz amizades que duram até hoje. Laços que se formaram durante brincadeiras com bonecos dos Thundercats e He-man, jogos de bola em terrenos baldios, tardes e mais tardes jogando videogame na locadora do bairro, noites de conversa pelos cotovelos na porta do edifício, disputando a mesma garota em certas ocasiões, saindo para beber quando tínhamos algum trocado e o que mais pintasse pela frente.

Meus avós se mudaram desse apartamento anos atrás, indo para um outro relativamente próximo daquele — que integra um condomínio de prédios de três andares de antigamente, sabe? Não venderam, alugaram durante esse tempo todo. Minha avó me contou uma história curiosa tempos atrás: uma das irmãs dela havia falecido. No dia da morte ou no dia que se seguiu ao ocorrido, eu, com menos de dez anos, estava passando um dos meus fins de semana por lá. Jantava entretido enquanto minha avó, do outro lado da mesa com três cadeiras que ela tinha na cozinha, chorava silenciosamente. Ela me disse que, do nada, eu olhei para ela e mandei a seguinte pérola: “Vó, quando a senhora morrer, deixa esse apartamento pra mim?” Ela me contou essa história umas duas vezes, sempre rindo do meu abestalhamento infantil.

Minha avó não morreu. Nem meu avô. Estão bem de saúde, principalmente ela — ele passou por poucas e boas depois de mais de 20 anos bebendo e fumando; nenhuma seqüela deformadora, a não ser a voz, meio rouca, e que só ficou assim depois que ele teve um câncer benigno na garganta, pouco tempo atrás. Desde moleque, dizem que sou igual a ele, e não apenas fisicamente: hoje eu fumo meus três cigarros por dia, nada comparado aquelas caixas com não sei quantos cigarros que eram substituídas semana após semana, e que ele deixava do lado do telefone, no corredor do apartamento. Apesar disso tudo, meu avô nunca fumou dentro de casa, e eu nunca o vi fumar nos tempos que ele mantinha o vício. Se vi, minha mente apagou. Da mesma maneira que tenta apagar o fato de que eu posso ser realmente parecido com ele em algumas coisas.

Ana e eu temos visitado o apartamento constantemente nas últimas duas semanas. Há pouco mais de um mês, o último inquilino o desocupou. Não necessariamente por vontade própria: ano passado, disse a minha avó que, se ela quisesse, eu aceitaria morar no apartamento junto com a Ana. E ela deu uma daqueles sorrisos iluminados de católica fervorosa que só ela sabe. Acho que isso foi em fevereiro de dois mil e sete. Mais de um ano depois, a equipe que está trabalhando na reforma do lugar já tirou todo o piso antigo, quebrou paredes, está refazendo a parte elétrica e começou a colocar o piso novo. E fica a dica: se um dia alguém te disser que reformar dá dor de cabeça e custa um bocado, saiba que não é exagero algum. Vai até ser pior do que te disseram.

Mas olha só: vai valer cada centavo, cada noite mal dormida, cada dia em que você almoçou correndo para ter que voltar ao trabalho depois de ter ido visitar a obra em cima da hora porque o mestre-de-obras ligou pedindo material, se for isso que você — ou vocês — realmente quiser(em).

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Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

Área compartilhada

O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.