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Category — Cinema

Sex and The City - o filme

Como um filme de mulherzinha consegue se estender tanto?

(…)

O quê? A resenha acabou lá em cima. Sério: é um serviço público que eu presto não fazendo ninguém perder mais do que trinta segundos lendo qualquer coisa sobre esse filme.

julho 25, 2008   4 Comments

Batman - O Cavaleiro das Trevas

A década de 80 foi um período fértil para os quadrinhos norte-americanos, principalmente para os de super-heróis. A DC Comics, por exemplo, realizava sua faxina cronológica com a máxi-série Crise nas Infinitas Terras; ao reiniciar ali o processo de atualização de seu universo de super-seres encapuzados, a editora abriu espaço para a criação de obras que, até hoje, são consideradas referenciais. Dentre elas, duas são estreladas pelo Batman, tendo sido ambas escritas por Frank Miller.

Batman: Ano Um e Batman – O Cavaleiro das Trevas são marcos referenciais ora tangenciais ora distintos. Encontram-se ao elevar ao máximo a atmosfera pulp e hard boiled com os quais os quadrinhos do Homem-Morcego, até então, pareciam acenar. Tornam-se ímpares na abordagem narrativa e na proposta: no primeiro, Miller, ao lado do excepcional ilustrador David Mazzucchelli, reconta a origem do Homem-Morcego de modo crível, usando a máfia e uma Gotham corrompida pela marginalidade para estabelecer o vigilante como a renovação da esperança numa salvação do caos; no segundo, Frank redige e desenha de modo arrojado aquela que é considerada a história definitiva com o personagem, tragando para o universo policial do Batman elementos dos super-heróis num víeis político-social, abordagem que se cristalizou naquela década.

O cenário desenvolvido nos quadrinhos na década de 80 pode ser usado como um paralelo para o que foi feito do Homem-Morcego no cinema.

Depois de Tim Burton ter dado sua visão pessoal do herói — em dois filmes que considero bacanas, mesmo com todo o desvirtuamento de certos elementos  — e de Joel Schumacher, mais do que falho, tentar emular o seriado clássico com Adam West — principalmente no terrível Batman & Robin —, era o momento de trazer alguém mais afeito ao contexto urbano e de crime que as histórias de Frank Miller estabeleceram. E Christopher Nolan, festejado pelo excepcional Amnésia e o bom Insônia, parecia uma escolha acertada. Com Batman Begins, ele provou isso, passando uma borracha nas produções anteriores e reiniciando a franquia cinematográfica; trazendo consigo a seriedade necessária, com base em certa suspensão de descrença, do contexto policial e dramático daquelas que são consideradas as melhores histórias e fases da criação de Bob Kane.

Mesmo com Ra’s al Ghul caracterizando noções mais condizentes com o aspecto super-herói do universo do Batman, a construção psicológica do protagonista, a ambientação crível de Gotham e os debates acerca do crime e da violência se fizeram os verdadeiros destaques daquele filme — algo aproximando-se do já citado Batman: Ano Um, elencado como uma das referências para a película.

Utilizando o título da outra obra de Miller, Nolan e equipe cravam os pés ainda mais no chão e entregam uma seqüência que não é apenas um dos melhores — senão, até agora, o melhor — filmes inspirados numa história em quadrinhos, como também um grande drama policial, com atuações brilhantes.

Na trama, depois de se estabelecer como o vigilante de Gotham City, Batman precisa lidar com a máfia local, que se une com o intuito de derrubá-lo definitivamente, e o surgimento daquele que será o seu principal adversário em mais de duas horas e meia de projeção: o Coringa.

No primeiro filme, Christian Bale foi o foco como Bruce Wayne/Batman. Pela primeira vez no cinema, a reinvenção do personagem foi mostrada em sua riqueza como nos quadrinhos. Estão lá as três facetas: Bruce Wayne depois da morte dos pais, buscando sentido para sua vida; o Bruce Wayne playboy festeiro, que compra hotéis com um mero cheque e anda com supermodelos; e o Batman, o vigilante soturno. Cada um do seu timbre de voz, postura e modo de agir. Todos máscaras do garoto que viu seus pais serem friamente assassinados. No segundo filme, não se deixa de lado a história de origem apenas para contar uma nova história, mas para abrir espaço para outros personagens.

Gary Oldman causa a empatia adequada para o Tenente/Comissário Gordon e o fardo que este precisa carregar: ele sabe a desconfiança que o Homem-Morcego causa no departamento e na população, mas tem certeza que, sem o herói, não será possível livrar Gotham do crime. Aaron Eckhart como Harvey Dent, representa — trocadilho a seguir — a outra faceta da justiça na cidade. Sua gradual transformação e mudança de lado foram tratados com a maturidade que uma figura como o Duas-caras necessita. Na periferia da história, Michael Caine (Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox) brilham como coadjuvantes de luxo. E Maggie Gyllenhaal consegue fazer tudo o que Katie Homes, no primeiro filme, não conseguiu — mas, infelizmente, sem o mesmo rostinho bonito.

O motor do filme, como se esperava desde o início das campanhas virais e, infelizmente, potencializada após sua morte, foi a atuação de Heath Ledger como Coringa. Um dos maiores vilões do Batman e dos quadrinhos de herói, o Palhaço do Crime ganhou uma representação ainda mais bombástica do que podia se imaginar.

Nas HQ’s, além do comentado Cavaleiro das Trevas, há outras duas obras que são representativas no histórico do vilão: Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave McKean, e A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. É nesta trinca que podemos encontrar a imagem lapidada do conceito que é o Coringa: uma entidade anárquica, violenta e imprevisível, que encontra no Batman o combustível para sua existência. São marcantes os momentos quando, em Cavaleiro das Trevas, o maníaco desperta de seu estado letárgico após ver na TV que o Homem-Morcego voltara a ativa, e em A Piada Mortal, quando ambos dividem risadas depois de uma piada contada pelo palhaço. No filme, essa relação doentia foi potencializada e tratada de modo particular, como a história pedia.

O resultado é que Ledger rouba a cena, mesmo quando não aparece; afinal, a engrenagem da história gira em torno de suas ações, afetando a cada um dos personagens. Quando aparece, é difícil que provoque risos confortáveis. O que me remete, como fã e leitor dos quadrinhos da DC, a situações em certos gibis onde dois super-heróis conversam, e um deles fala sobre quão assustador o Batman é; e o outro replica: É? Então pede pra ele te falar do Coringa. É isso que encontramos no filme: um Coringa do qual apenas as histórias sobre ele são capazes de assustar. Imagine, então, vê-lo em ação.

Nolan e seu irmão, Jonathan, baseados na história desenvolvida pelo diretor e o co-roteirista do filme anterior, David S. Goyer, estruturaram um roteiro onde ainda existem toques de suspensão de descrença: não no contexto da trama, mas nalgumas cenas de ação. Nolan aproveita e abre um pouco o enfoque de sua câmera, mostrando um pouco mais do Batman nas lutas; mas sem entregar tanto e não abrindo mão de uma boa quantidade de sombras. Por mais pé-no-chão que a construção da armadura do Homem-Morcego fora desenvolvida, o aspecto de boneco articulado não sumiu, e o diretor sabe disso.

No que diz respeito a ambientação da história, não há resquícios do que foi visto com a participação de Ra’s al Ghul. Temos o Coringa, o crime organizado e a violência de uma cidade grande. Trabalho suficiente para deixar marcas profundas no corpo e, principalmente, na mente de Bruce Wayne. Ao longo de sua jornada, ele irá se questionar — e será questionado — sobre seu papel social, sendo este um dos trunfos da caracterização do vigilante no filme.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme enorme, e não me refiro a duração: há camadas nele a serem destrinchadas e analisadas em separado, para então serem reagrupadas numa peça única. Como uma das grandes histórias em quadrinhos do personagem da década de 80, trata-se de um clássico, uma obra de referência para o que virá a seguir. E que, dificilmente, será superada.

julho 21, 2008   2 Comments

Wall-E

Em um mundo no qual o sinônimo de globalização pode ser definido de modo raso como a presença virulenta da Coca-cola ou do McDonalds nas grandes as pequenas cidades, não se pode cogitar a possibilidade de que certas marcas sejam realmente capazes de constituir uma mensagem cosmopolita pura, de união entre diferentes povos. E o itálico ali utilizado aparece para tentar desfazer qualquer ar pedante que o início desta crítica possa ter ganho: porque estou me referindo a um produto de consumo que não termina em si mesmo, no simples ato de digestão. Centenas de filmes podem ser tão descartáveis e passageiros como um bom refrigerante, cujo gosto se desfaz depois de um apanhado de minutos; mas não Wall-E.

Não se pode rotular a mais nova produção da Pixar como uma mera animação infantil. Na verdade, ficam para os pequenos as cenas de humor físico e os magníficos trejeitos tão humanos dos robozinhos — e que não deixam de cativar adolescentes e adultos, é claro. O longa animado, no entanto, vai além, como muitas das produções da casa. Wall-E tem momentos de filme mudo, romance e ficção científica. E não são poucos ou mesmo condensados. Hoje, a propósito, o filme de Andrew Stanton entraria fácil numa lista particular das melhores produções sci-fi da Sétima Arte.

Na história, o robô que dá título a história passa seus dias fazendo aquilo para o que foi programado: limpar a Terra, atolada em poluição e incapaz de sustentar vida orgânica, para que os humanos, em “férias” no espaço, possam um dia reabitar o planeta. Minto: ele faz mais do que isso. Wall-E coleciona objetivos em sua morada, o interior da carcaça de um robô maior desativado, e assiste a antigos musicais num I-Pod. Sua única companhia, seu animal de estimação, é uma baratinha que faz as vezes do cão agitado do protagonista nos filmes-família convencionais. A rotina do nosso herói — e ele o é — muda com a chegada de EVA, uma robô mais avançada, em visita a Terra em busca de “algo”.

Procurando Nemo, o filme mais babado de Stanton até então, não me empolgou. Considero uma animação OK, com um ou outro ponto interessante e uma mensagem bonitinha, mas nada além disso. Wall-E, de certo modo, carrega parte da essência de Nemo em sua história; só que não se contenta em retratar sua mensagem, mesmo que clichê, de modo simplório ou meramente infantil. Trata-se de uma obra refinada, que ousou flertar com o piegas, buscou ser referencial e entrelaçou romance e ficção científica como poucas outras. Da mesma forma que Brad Bird, em Os Incríveis, fez mil vezes mais para o gênero dos super-heróis do que Tim Story com os dois Quartetos Fantásticos — comparação feita considerando-se as similaridades de conceito do primeiro com as histórias em quadrinhos dos quais o segundo foi baseado.

Se em seu âmago Wall-E é um confortável colchão de referências, na superfície é uma grande e bela mensagem universal, capaz de promover o mínimo de reflexão além das risadas e do entretenimento de mais alto nível. Considerando a quantidade de sujeira na sala de cinema depois do fim do filme, foi triste constatar que quase todos os presentes não se deram conta do que acabaram de assistir. Talvez, como no próprio longa, estejamos conectados apenas durante o divertido compartilhamento do gás de um refrigerante e diante de uma tela multicolorida.

O único questionamento que não consegui chegar a uma resposta, até agora, foi: será que a beleza em diversas formas de Wall-E é capaz de bater a superação genial de Ratatouille? Ou ambos merecem dividir o trono de melhores produções da Pixar hoje?

julho 1, 2008   8 Comments

Corujão Cine Sesi V

No próximo sábado, 16, o Cine Sesi realiza, aqui em Maceió, a quinta edição da maratona cinéfila Corujão.

Das quatro edições realizada previamente, não fui justamente a de número quatro, que, na minha opinião, teve um set list pouco empolgante.

Escrevi uma resenha monstro da segunda edição, a melhor, e na terceira fui o único a acertar o filme surpresa da noite, O Balconista 2, do Kevin Smith.

Sábado estarei lá novamente, carregando, inclusive, um cobertor.

Se liga na programação:

23:00h - Abertura - clipes de músicos alagoanos
23:15h - Exibição do filme ” SOMBRAS DE GOYA” - o mais novo filme do premiado diretor Milos Forman (Amadeus e O Povo contra Larry Flint), estrelado por Javier Bardén (Mar Adentro) e Natalia Portman (Closer).
01:15h - Show com Vítor Pirralho
01:50h - Exibição do filme “UM AMOR JOVEM” - dirigido pelo consagrado ator Ethan Hawke (Grandes Esperanças)
03:45h - Show com Vítor Pirralho
04:15h - Exibição do filme “VIAGEM A DARJEELING” - do mesmo diretor (Wes Anderson) de filmes como “Os Excentricos Tarnembaunn” e “A Viagem Marinha com Steve Sissou”.
05:45h - Café da manhã

fevereiro 14, 2008   3 Comments

Onde a etiqueta não tem vez

Josh BrolinHã, apenas eu notei com certo escárnio que o Josh Brolin, que subiu ao palco da cerimônia do Screen Actors Guild Awards, neste domingo, para receber o prêmio de Melhor Atuação de Elenco em Filme por Onde os Fracos Não Têm Vez, tentou sem sucesso arrancar uma catota maldita diante das câmeras, enquanto fazia o discurso de agradecimento? Tipo, três vezes?

Ainda mais cômico foi ele mantendo a cabeça baixa enquanto falava, meio que com medo das câmeras pegarem uma pontinha da meleca fugindo das ventas. Isso, claro, só piorou as coisas.

Espero que usem no The Soup.

janeiro 28, 2008   1 Comment

Piada Mortal

Heath Ledger como CoringaDurante meu almoço no apartamento dos meus avós por esses dias, quando conversava amenidades com minha avó na cozinha, ela comenta com um alarde dos mais assustadores que o filho do vizinho, aquele que mora no andar de cima, não passou no último vestibular da federal. A pobre criou toda uma atmosfera de tragédia antes de dizer o que se tratava, que eu, com comida enfiada até o céu da boca, quase me engasgo com o susto. O que diabos ela queria que eu comentasse sobre um fato ocorrido com um moleque que posso ter visto uma ou outra vez no hall do edifício?

Este pequeno ocorrido com a minha avó me fez decidir, finalmente, escrever sobre a morte do ator Heath Ledger na última terça-feira, em Nova York.

Celebridades e suas mortes são assuntos um tanto quanto alienígenas nas nossas bocas, gente normal, aquelas que formam o rosto da multidão. Mas não nos importamos (e por que deveríamos, não é verdade?) em comentar com escárnio e certo nojinho as fotos da Britney menstruada, rir de tristeza da Miss Amy Blonde-house exagerando na escrotice com as drogas e mesmo sentir pesar pela morte repentina de um ator próximo de atingir o ápice de sua carreira cinematográfica. Não é possível classificar ou equiparar a nossa sensação com a aflição que acomete as famílias dessas pessoas.

E daí que um amigo ou parente próximo seu morreu de overdose, intencional ou não, como pode ter sido o caso de Ledger? As comparações se desvirtuam porque, mesmo que o elemento ser humano seja o alvo da equiparação abstrata, no final das contas o que nos incomoda é que uma daquelas estrelas inalcançáveis se apagou no mar da constelação pop.

Ninguém vai sentir falta do Heathcliff Andrew Ledger, mas do sujeito que fez aquele maloqueiro em 10 coisas que eu odeio em você; do filho do Mel Gibson em O Patriota que morre lá perto do fim do filme; e do cowboy carrancudo e gay do ótimo Brokeback Mountain. E para os milhões de nerds espalhados ao redor do globo, talvez ele já seja considerado o responsável pela representação definitiva do Coringa no cinema. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas, filme onde ele interpreta o Palhaço do Crime, sequer estreou.

Essa coisa de especularmos e criticarmos nossos ídolos de mentirinha sempre será uma constante enquanto existir a cultura pop; até porque alguns desses astros, sejam eles atores, diretos, escritores ou personalidades instantâneas criadas por empresários espertinhos, meio que acabam se metendo no meio das nossas vidas cotidianas. Apontamos os defeitos, sentimos pena e criticamos como donos da verdade e dos bons costumes seus atos desvirtuados. Quando nós somos tão ou mais zoados com essa possessão egoísta para com esses ícones do entretenimento.

E tudo que eu penso agora é em como conseguir terminar este texto fazendo uma citação oportunista àquela graphic novel escrita pelo Alan Moore. Que não faço apenas por não conseguir a frase certa, irônica e nerd o bastante para agradar o meu ego. Seria uma bela homenagem ao Coringa.

janeiro 25, 2008   3 Comments

Eu sou a Lenda

Eu sou a LendaÉ possível criar-se expectativas de que certos filmes tornem-se clássicos de um gênero, pontos de referência dentro da cultura pop. Se os produtores têm um bom roteiro em mãos, assim como diretor e atores a altura do projeto, e dispõem de um capital de investimento gorduroso, basta uma campanha publicitária certeira para se criar a euforia necessária em torno da película. Some a isso o fato do filme ser a adaptação de um livro cult, e a produção ganhará pontos extras. Seria esta a receita para o sucesso? Ao se assistir Eu sou a Lenda, não se pode afirmar isso com certeza.

Terceira adaptação do romance (de mesmo nome) do escritor Richard Matheson, e precedido por Mortos que matam (1964) e A Última Esperança Sobre a Terra (1971), o filme dirigido por Francis Lawrence, do bom Constantine, e estrelado pelo boa praça Will Smith possuía os requisitos básicos para se tornar uma obra marcante. E alcançar esse status não é para qualquer blockbuster — algo para o qual Eu sou a Lenda, depois de seus 101 minutos de reprodução, não obteve êxito. O que não o qualifica, necessariamente, como uma má produção.

Na história, Smith vive o tenente-coronel e cientista militar Robert Neville, único sobrevivente de uma Nova York arrasada por uma praga viral que se espalhou pelo mundo, eliminando drasticamente boa parte da população da Terra. Acompanhado por Sam, uma cachorra da raça pastor-alemão, Neville segue uma rotina diária durante três longos anos. O filme, precedido por um breve prólogo estrelado por Emma Thompson, começa justamente nesse terceiro ano. Acompanhamos o protagonista e sua fiel companheira numa caçada pelas ruas desertas da Grande Maçã, uma das muitas seqüências do tipo em Eu sou a Lenda a superar a Londres deserta de Extermínio. Mas talvez calhasse para o bem à película de Lawrence e Smith a ausência da pressão hollywodiana como a do filme de Danny Boyle, e que tange, inclusive, em alguns elementos a adaptação mais recente da obra de Matheson.

A mais clara delas é quanto ao investimento nos antagonistas monstruosos. Com uma maquiagem competente e um sem número de extras bem treinados, Boyle renovou o conceito dos zumbis lerdos de George Romero, transformando-os em assustadoras máquinas de devorar humanos. A opção por se criar os humanos infectados através de computação gráfica em Eu sou a Lenda é um de seus pontos fracos; há, nesses personagens, o peso deles representarem o medo concreto do que foi causado pelo vírus. Depois da construção crível de uma Nova York desolada, encarar os monstrengos em cgi com suas cabeças tortas e textura pobre nos faz perguntar se parte dos tantos milhões de dólares da produção foram realmente bem utilizados. O que me leva, de certo modo, a outra questão: a prática de product placement no filme.

Mas não espere uma opinião (totalmente) negativa da minha parte: a Warner conseguiu conciliar a prática marketeira com o roteiro de sua produção. Portanto, incomodará apenas aos mais cricris identificar, por exemplo, as logomarcas fusionadas do Super-Homem e Batman num dos outdoors de NY, que permanece em exibição por uns bons cinco segundos de duração. Ou mesmo o uso de uma seqüência quase inteira do primeiro Shrek (isso mesmo) que serve de analogia na boca do personagem de Smith durante a segunda metade do filme. Terá a Dreamworks pago pela inserção ou se tratou de apenas uma citação pop, como foi o caso de Bob Marley, sem benefício financeiro algum para a Warner?

Independente de eventuais negociatas, é possível perceber também que, da mesma maneira que houve uma adequação comercial a obra, o filme foi pensado para Will Smith. Ou Will Smith pensou no filme para si. A segunda opção aparenta ser o chute mais acertado. Considerando que o ator participou do resgate do roteiro original, escrito por Mark Protosevich, ao lado do produtor e co-roteirista do script final Akiva Goldsman, não seria de se estranhar. Una isso ao fato de que mais da metade do filme é conduzida por Smith e Abby, a pastor-alemão que interpreta Sam, e você tem uma das experiências cinematográficas mais interessantes produzidas nos anos 00.

Lawrence trabalha o roteiro com talento tremendo, fazendo transbordar os sentimentos dos personagens e das situações para fora da tela. Não há como evitar sorrir quando Neville abre a janela do carro para Sam enquanto eles percorrem a cidade ou de se segurar na cadeira durante o desfecho da perseguição frustrada a um cervo. E o que falar da seqüência no laboratório, responsável pela guinada que o filme sofre no início de sua segunda metade? Sem entregar nada, basta dizer que, é a partir dela que Eu sou a Lenda desanda.

Há uma sucessão de acontecimentos que, gradativamente, vai desestruturando a história. Alice Braga surge em cena e sua participação é relevante justamente nos momentos em que sua personagem tem diálogos curtos, mundanos, ou quando é colocada numa situação tensa — vide a cena do café-da-manhã com ovos e bacon. Ela interpreta Anna, brasileira que sabe-se lá porque não se chama Ana com apenas um ‘n’, e é completamente mal-aproveitada no roteiro. Ela tem dois momentos de destaque: a discussão sobre Deus com Neville, onde serve de escada para ótimas falas do personagem de Smith; e no final sem-graça típico de Hollywood, preparando terreno para uma eventual seqüência. Talento aqui desperdiçado, mas que pode ser visto em seu esplendor no ótimo nacional Cidade Baixa (uma mísera ponta em Cidade de Deus não conta, vamos lá).

Mesmo tropeçando nas próprias pernas no fim do segundo ato e em todo o terceiro, Eu sou a Lenda tem força suficiente para não ser um arrasa-quarteirão descartável. Ora uma ficção científica inteligente ora um drama dos mais consistentes, deve ter seus furos relevados e as falhas sublinhadas; afinal, foram estas últimas que eliminaram sua chance de ter os termos “clássico” ou “cult” usados como adjetivos pelos cinéfilos e críticos mais carrancudos. No mais, resta apenas louvar a melhor atuação de Will Smith em sua carreira e a história de sobrevivência do cientista Neville e sua cachorra Sam, ignorando as sobras da trama da mesma maneira que seu personagem faz, durante boa parte do filme, com a borboleta. Sobras bobas e inocentes como a brincadeira de uma criança.

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Update: segundo o Hector, Eu sou a Lenda é, na verdade, a quarta adaptação do romance de Matheson. A terceira seria essa pérola estrelada por Mark Dacascos.

janeiro 24, 2008   6 Comments

Promessas do oriente

Eastern PromisesHá uma fala de um personagem em Eastern Promises, referente aos russos integrantes dos clãs criminosos da antiga União Soviética, que diz que as tatuagens espalhadas pelos corpos desses homens contam suas histórias de vida. Um homem sem essas tatuagens simplesmente não existe dentro daquele microcosmo humano. No entanto, esse diálogo não resume o principal norte do filme mais recente do diretor canadense David Cronenberg — algo aludido, inclusive, na frase “Todo pecado deixa uma marca” estampada no cartaz da produção. Não: seu título e o início das anotações da jovem Tatiana em seu diário, narradas em off no começo e repetidas no fim da película, concentram o foco principal da história.

O filme, roteirizado por Steven Knight, é desenvolvido a partir de dois acontecimentos distintos, ambos transcorridos na cidade de Londres às vésperas do Natal: o primeiro, um assassinato encomendado e forçado numa barbearia; e o segundo, o parto sofrido de Tatiana, que dá a luz e, antes de conhecer sua filha, tem declarado seu atestado de óbito. A partir daí, as peças principais entram em cena: Anna, parteira interpretada com competência pela bela Naomi Watts, se interessa em saber se há parentes da falecida Tatiana na capital britânica, alguém para quem ela possa encaminhar a recém-nascida órfã ao invés de entregá-la para o serviço social. De posse do diário (escrito em russo) da garota morta, ela vai até o restaurante do velho Semyon, pois no caderno encontrou um cartão do estabelecimento culinário comandado por este senhor. Ela não faz idéia dos segredos sujos contidos naquele diário e do interesse que ele irá despertar. Na saída, Anna trava o primeiro contato com Nikolai (Mortensen), o truculento motorista de Semyon e seu filho, o ácido Kirill (interpretado com a soberba de sempre por Vincent Cassel).

Não há rompantes de criatividade no que diz respeito ao plot da trama ou mesmo reviravoltas inesperadas em Eastern Promises — tanto que a única reviravolta concreta do filme é bastante previsível. Fatores que podem diminuir a película para alguns, considerando que ela é tratada, dentro da classificação de gênero, como um thriller de mistério e/ou suspense. Na verdade, Cronenberg lança mão de uma estrutura semi-pronta para tratar de assuntos como tradição e identidade cultural, laços familiares e a eterna busca do ser humano por uma condição de vida melhor. Daí seu título: Promessas do oriente, numa tradução literal e livre, possuir uma carga de contextualização mais relevante para a história do filme do que o Senhores do Crime escolhido como “tradução” para as cópias brasileiras. Algo com o qual o diretor de A Mosca já sofreu no passado na mão dos translators tupiniquins: Naked Lunch, sua adaptação do romance beat Almoço Nu escrito por William Burroughs, ficou batizado no Brasil como Mistérios e Paixões.

E mesmo que Eastern Promises não seja um filme que se restrinja dentro do seu (aparente) gênero de ‘crime romance’, ele desfila homenagens ao mesmo através de seus personagens. Se um dia Virgo Mortensen representou a nobreza da fantasia medieval na trilogia O Senhor dos Anéis, no papel do Rei Aragorn, em sua segunda colaboração com Cronenberg, ele encarna de modo impecável um certo tipo de personagem do universo das tramas de crime policial — do qual não se pode comentar afundo sem estragar a ‘reviravolta óbvia’ que comentei anteriormente. Armin Mueller-Stahl, que interpreta Semyon, líder de uma família pertencente a Vory V Zakone, uma irmandade criminosa russa, atua como outro símbolo do gênero. É ele o causador de uma das melhores seqüências do filme: a luta na casa de banhos.

Essa seqüência, inclusive, muda parte do tom do filme e encaminha a história para um fim anti-climático.

Há uma resolução satisfatória tanto para Anna como Nikolai; ambos obtém aquilo que queriam desde o início da história. Knight e Cronenberg guiam o telespectador para um encerramento óbvio, mas que talvez seja proposital. Nos minutos finais, o diretor repete uma passagem da narração em off de Tatiana, uma menina de quatorze anos que só queria uma vida melhor num lugar novo, repleto de possibilidades. Renascimento. E que acabam reservadas para sua filha, Christina — “eu a chamei assim porque lembra Christmas (Natal em inglês)”, diz a personagem de Watts em dado momento. Que analogia serviria melhor para um filme que começa no natal e se encerra, de certo modo, horas antes do ano novo? Até porque, antes do subir dos créditos, os senhores e seus crimes são relegados a segundo plano. Para quem assiste, sobram apenas as promessas. Boas ou não.

janeiro 22, 2008   1 Comment

A Lenda de Beowulf

Citar Neil Gaiman numa conversa sem associá-lo a Sandman é mais que improvável. Mesmo que ele tenha escrito romances que caíram no gosto da crítica e do público — Deuses Americanos, Filhos de Anansi e Stardust; este último adaptado para o cinema em 2007 —, a obra em quadrinhos de cerca de 60 edições é o referencial mor para qualquer um que conheça o mínimo sobre sua produção.

Isso não quer dizer que sua literatura seja menor ou deva ser desconsiderada perante Sandman. Seria um erro grosseiro. Gaiman, de certo modo, sempre foi um prosador. Sua passagem pelas histórias em quadrinhos foi uma benção para o meio e uma prova incontestável do potencial do mesmo para seus detratores. Mas o que está em questão aqui não é a invasão britânica nos quadrinhos norte-americanos por Neil, Alan, Grant e outros na década de 1980. E sim o retorno, digamos, do roteirista que mostrou a América como um punhado de areia daria vida a um pesadelo.

Ao lado de Roger Avary, parceiro de Quentin Tarantino em Pulp Fiction, Gaiman soube aliar suas qualidades como prosador as de roteirista em A Lenda de Beowulf, animação dirigida por Robert Zemeckis.

Com o fim de Sandman e sua partida para o mundo dos livros, as eventuais passagens do escritor pelo universo da Nona Arte não foram das mais notáveis. 1062 e Eternos, mini-séries que escreveu para a Marvel Comics, foram tiros no escuro com raros lampejos das belas caracterizações e diálogos soberbos, ambos marcas registradas do autor de Orquídea Negra. Compará-los a obras literárias do calibre de Coraline e Stardust, por exemplo, são de um disparate sem tamanho.

A Lenda de Beowulf, adaptação do poema anglo-saxão de autoria desconhecida do século 8, exigiria de Gaiman o timing narrativo dos seus tempos de bom roteirista de quadrinhos. Ou não: quem sabe a presença de Roger Avary foi o elemento-chave para o que se vê na tela — o casamento perfeito entre ação e uma história afiada, pontuada com diálogos ora bem-humorados, ora maduros.

A trama é enxuta: Beowulf, famoso herói e aventureiro, vai as terras gélidas de Heorot defender o Rei Hrotgar e seus súditos do cruel monstro Grendel. A tarefa se mostra complexa quando surge na equação a mãe de Grendel, interpretada através da captação de movimento pela bocuda preferida de todos Angelina Jolie.

A animação em si é estranha nos primeiros minutos. Para quem já assistiu o longa animado Final Fantasy VII, sabe que o resultado obtido pelo diretor Zemeckis ainda é capaz de ir mais longe, seja pela questão dos movimentos dos personagens em cena ou pela rigidez de certas expressões faciais. Mas estes minutos passam e a ótima trama que está se formando é capaz de segurar a atenção da audiência.

O roteiro produzido a quatro mãos, no início da película animada, possui certo ar simplista, beirando a uma inocente história de capa e espada. Longe disso. Com a progressão dos acontecimentos, Beowulf e outros personagens são lançados em questionamentos morais intricados, que ecoam até a última cena do filme. Há diálogos cômicos e sérios, mas nenhum meio-termo piegas, que se fique registrado. A ação é sanguinolenta e heróica, disfarçada justamente pelo elemento “animação” da produção. Objetos são jogados diante da tela ou a câmera dá rodopios nervosos para ocultar a brutalidade dos confrontos.

A Lenda de Beowulf não é um clássico instantâneo. Mas sim, uma grande obra de fantasia medieval, sem os excessos e certos clichês do gênero. Algo que me fará lembrar do Neil Gaiman roteirista inspirado de quadrinhos. E de Roger Avary, o fiel escudeiro.

dezembro 11, 2007   No Comments

Esse cara vai comer a tia do Batimã

Heath Ledger caracterizado como Coringa = meda!

Dark Knight tem tudo para ser o X-Men 2 do Homem-Morcego, se é que vocês me entendem.

Via Judão.

novembro 27, 2007   No Comments