Archive for Arte Seqüencial

Rock and roll all nite: novas reportagens e repercussão

Depois da entrevista que Felipe e eu demos ao Matheus Moura para o Bigorna, mais duas novas reportagens sobre Rock and roll all nite, nosso Mojo Comix, ganharam a rede e o mundo impresso.

A primeira foi encabeçada pelo Felipe numa matéria, publicada na última segunda-feira, para a revista eletrônica O Grito, com sede física em Recife, Pernumabuco, realizada pela Lidianne Andrade. Ele fala sobre não curtir o KISS, o porquê do envolvimento no projeto, suas referências e os projetos futuros.

Hoje, Dia das Bruxas, foi a vez da Gazeta de Alagoas no dar a capa do Caderno B. Na matéria assinada pelo Marcelo Cabral, comento, ao lado do Felipe, sobre o processo de elaboração da história, a escolha da música e da banda, as referências e, também, dos próximos projetos. A reportagem pode ser lida na integra aqui (arquivo em .pdf).

Enquanto isso, no site da Mojo Books, os comentários dos leitores acerca da HQ são bastante distintos. Há os que não gostaram nem um pouco…

natalia tiberio     20/10/2008 08:10
achei muito deprê pra ser hq inspirado no kiss, ainda mais neste som…

gerson nascimento     28/10/2008 16:10
concordo com a natália, e achei os desenhos toscos.

…como também aqueles que pegaram o espírito da coisa:

Giovani Franco Dressler     19/10/2008 23:10
CARALHO QUE MASSA !

Atila Velo     29/10/2008 10:10
Eu curti muito! Achei a pegada muito inteligente, por explorar o outro lado dos extremos vividos no mundo do rock/metal. Justamente a empolgação headbanger oscila com depressão e solidão. Ducaraliu! Simples, curta, objetiva, profunda. Parabéns!

E o making of da HQ continua no forno. Aguardem.

Fé em monstros

Em meados dos anos 90, a Marvel causava estardalhaço entre seus leitores com a publicação da mega-saga de verão Massacre, que culminou na “morte” de alguns de seus principais heróis — Capitão América, Quarteto Fantástico, Vingadores e Homem de Ferro deram a vida para acabar com o vilão e possibilitar o retorno das antigas pratas da casa Jim Lee, Rob Liefeld e Whilce Portacio, alguns dos sócio-fundadores da Image Comics, na investida furada que foi o projeto Heróis Renascem. Com o universo Marvel carente de algumas de suas principais figuras, a editora, visando suprir tal vácuo, investiu em novos heróis e suas eventuais séries mensais.

Os Thunderbolts apareceram nessa época.

Thunderbolts - Fé em monstros A revista, escrita pelo veterano Kurt Busiek e ilustrada pelo ágil Mark Bagley, estrelava um grupo de super-heróis que, na verdade, eram supervilões sob novas identidades. Aproveitando a morte dos grandes heróis, o bando, composto por vilões de segunda e terceira categoria, decide forjar essa nova equipe para ganhar a confiança da população, da imprensa e dos outros heróis, e então aplicar algum tipo de vingança contra todos. Lembro que não passei do primeiro arco de histórias publicado aqui no Brasil pela editora Abril.

A série passou por altos e baixos. Busiek deixou os roteiros, Bagley foi realocado para outros projetos e as equipes criativas seguintes não deram conta de mantê-la em evidência. Numa das tentativas de salvar a revista, a numeração da mesma foi zerada e uma nova proposta estabelecida: algo como uma rinha de galo estrelada por supervilões. Nada deu efetivamente certo.

Quando da realização de mais um de seus eventos de verão — a Guerra Civil —, a Marvel decidiu intervir mais uma vez nos Thunderbolts: pôs o britânico Warren Ellis para cuidar dos roteiros e o brasileiro Mike Deodato, com o qual o escritor colaborou numa breve fase no Thor, na arte.

É durante a Guerra Civil que o senado norte-americano sanciona a lei de registro de super-humanos: qualquer super-herói, se quisesse continuar atuando legalmente em solo estadunidense, deveria realizar o registro governamental; o que, dentre outras coisas, consistia em abrir mão de sua identidade secreta para as autoridades. Caso contrário, seria considerado criminoso e passível de prisão por desrespeitar a lei de registro.

Os Thunderbolts de Ellis e Deodato são incumbidos de cuidar dos heróis fora-da-lei. Fé em monstros, arco em seis edições inicial do run da nova equipe criativa (edições #110 a #115, no original; Universo Marvel #33 a #38 no Brasil), mostra como se deu a seleção dos integrantes do grupo, a função estatal do mesmo e as caçadas a alguns heróis menores.

Apesar de atrelado aos eventos de um grande crossover, Ellis se mostra a vontade e ciente de como pode atuar com os personagens e cenário que lhes foram dado. E ele não poderia estar mais em casa ao ter um elenco composto por degenerados, assassinos e psicóticos, estes envoltos por uma atmosfera de humor negro e ultra-violência — figurinhas e elementos carimbados em boa parte dos trabalhos do autor. O que não significa que eles vão se dar bem nas histórias do bastardo britânico.

Mike Deodato, fã declarado dos roteiros do autor inglês, constrói suas páginas com enquadramentos cinematográficos, ora usando referências fotográficas para trazer realismo aos personagens (é possível identificar figuras como Tommy Lee Jones ou Jô Soares logo na edição de estréia da dupla criativa) ora estilizando-os anatomicamente (um tipo de ruído comum em seu estilo). Um trabalho mais inspirado do que, por exemplo, sua colaboração com Brian Bendis num arco dos Novos Vingadores.

Na história, o diretor executivo responsável por recrutar os novos Thunderbolts e fazê-los funcionar como equipe é Norman Osborn — empresário milionário conhecido por infernizar a vida do Homem-Aranha durante anos como o vilão Duende Verde, recebeu um tipo de perdão governamental para assumir o cargo. Em entrevista a imprensa (edição #110, no original), ele afirma que todo homem merece a chance de se redimir perante a sociedade, e aquela seria a dele. A ironia, que servirá de tom de boa parte deste primeiro arco, já começa por aqui: Norman, sob a aparência deste sujeito em busca do perdão social, toma remédios controlados, usa de sua posição para ameaçar os integrantes da equipe e, em seu íntimo, tenta dominar seu desejo doentio de pôr seus vilões no encalço do herói aracnídeo.

Ignorando as eventuais incongruências do contexto gerado pelo grande evento de verão que foi a Guerra Civil — vilões altamente perigosos trabalhando às claras pelo governo? Nenhuma missão envolvendo um super-herói de primeira linha? —, Ellis estabelece uma linha coerente para sua história: apresenta os vilões à mídia (sejam nas propagandas em que bonecos articulados capturam o Capitão América “terrorista” ou na qual Stan Lee promove o reality show para aqueles que almejem ser um thunderbolt); define o tipo de atuação de cada personagem; e, o que faz a engrenagem funcionar, põe os mesmos para sair a cata de heróis dos escalões inferiores da Casa das Idéias.

Nas duas primeiras histórias do arco, os Thunderbolts — compostos por Venom (atualmente Mac Gargan, ex-Escorpião), Espadachim, Soprano, Suplício (ex-Speedball dos Novos Guerreiros), Homem Radioativo e Rocha Lunar, a líder de campo — metem os pés pelas mãos para capturar Jack Flag, um dos ex-parceiros do Capitão América; e só o conseguem com a ajuda do Mercenário, o integrante extra-oficial da equipe. Ellis e Deodato orquestram bem as seqüências de ação e violência, intercalando-as de modo também competente com aquelas construídas sobre diálogos e caracterizações.

Thunderbolts - Fé em monstros Diferentemente do trato dado aos seus anti-heróis e de todo o fan service auto-referencial de seu estilo de escrita — coadjuvantes com pinta de freak, personagens (britânicos ou não) fumantes inveterados, personagens fodões botando pra quebrar, etc. —, em Thunderbolts Ellis dá aos vilões o espaço para eles demonstrarem o seu pior, seja física ou psicologicamente, sem que isto deixe de acrescentar a trama. Duas passagens de destaque nesse sentido são protagonizadas pelo Mercenário: a primeira acontece nas páginas da edição de estréia, quando o assassino é recrutado por Norman Osborn; a segunda transcorre na edição seguinte, num monólogo em que o personagem fala sobre o prazer que matar lhe dá. Estão presentes também referências a elementos contemporâneos e conceitos pouco conhecidos do grande público; um cacoete do escritor que funciona perfeitamente aqui.

O uso dos heróis de menor escalão para serem perseguidos pelos Thunderbolts, além de livrar Ellis e a própria Marvel de mexerem drasticamente com algum de seus figurões, permite ao roteirista maior liberdade para dar o fim que quiser a eles. Algo que executou sem deixar de lado o estabelecimento de caracterizações adequadas a situação do universo da editora pós-Guerra Civil: o Aranha de Aço, personagem obscuro que aparece da terceira a sexta parte do arco, decide que não cederá a lei do registro e tão pouco deixará de patrulhar as ruas de sua cidade; sua fixação em fazer justiça, algo inspirado no Peter Parker/Homem-Aranha, transforma sua vida particular num caos.

Ellis balanceia a história de forma veladamente maniqueísta: mesmo incumbidos de uma tarefa (paradoxalmente) correta, os integrantes dos Thunderbolts não são tratados como vilões regenerados — ao menos a maioria, já que Soprano e o Homem Radioativo parecem ter virado casaca nas fases anteriores da série. Dentro de suas obrigações e limitações na proposta da equipe, eles agem, no momento oportuno, da maneira do que se esperaria de um vilão. E nas mãos do escritor britânico, isso vai da troca dos remédios controlados por placebos que Norman Osborn precisa tomar para se manter são a um breve espancamento de um Jack Flag já aleijado pelo Mercenário.

Unidos meramente por obrigações burocráticas, esse núcleo dos Thunderbolts é uma pilha de C4 prestes a ser detonada. O que é visível na interação entre eles quando estão em campo. Depois de uma quase-surpreendente canseira dada por Jack Flag, o grupo bate cabeça quando vai ao encalço do Aranha de Aço e acaba topando com o Águia Americana e a heroína Sepulcro. São estes heróis menores que servem de contraponto aos vilões protagonistas, transformando os Thunderbolts num tipo de piada disfarçada — dentro e fora da história. A surra que o Mercenário leva no desfecho do arco nas mãos do Águia Americana é o sorriso que se desenha no canto da boca de qualquer fanboy.

Vale a pena destacar que, sem Mike Deodato, talvez a história não tivesse o mesmo impacto. Diferente de outros escritores do primeiro time, Ellis é o tipo de roteirista do qual o trabalho depende de um desenhista razoavelmente talentoso; mas não naquela idéia de que “o desenho que salvou a história”, nada disso. E sim porque o escritor britânico exige muito do visual em seus roteiros, estabelecendo um tipo de química entre as duas funções (como deveria ser em qualquer parceria) para que a narrativa e seu conteúdo fluam.

Um tipo de composição que será difícil de ser encontrada em qualquer nova fase ou série vinda de algum mega-crossover de verão.

Rock and roll all nite: lançamento e entrevista

Rock and roll all nite: lançamento e entrevista Oportunidades aparecem tão rápido quanto desaparecem. Mesmo que você tenha a noite toda para cair de cabeça na música que mais gosta, fique atento a quem está ao seu lado. Pode ser que essa chance nunca mais aconteça novamente… a não ser que você possa voltar no tempo. O roteirista Pablo Casado e o artista Felipe Cunha fazem uma homenagem a uma das músicas mais emblemáticas do Kiss e, por conseqüência, da geração dos anos 70 e 80. O que é que você quer? “I… wanna rock and roll all nite!”

Yeah, baby!

Semana passada, 16 de outubro, a Mojo Books publicou a terceira edição de sua série em quadrinhos Mojo Comix, estrelando a interpretação (peculiar, digamos) de uma das mais conhecidas músicas dos norte-americanos do KISS: Rock and roll all nite, distribuída para download gratuito em formato .pdf mediante um rápido cadastro no site da editora virtual.

A HQ, escrita por mim e ilustrada e colorida pelo Felipe Cunha, é mais uma na nossa já estabelecida e frutífera parceria. Em virtude do lançamento da mesma, o Matheus Moura, do Toka di Rato, nos entrevistou para o site de quadrinhos Bigorna. Na entrevista, além dessa edição da Mojo Comix, falamos sobre o nosso trabalho e projetos futuros — em especial da DUO, nossa mini-antologia.

Para fechar os festejos hypadaços sobre este novo trabalho, publicarei em breve um making-off falando da origem ao produto final da HQ.

No mais: leiam, comentem, divulguem!

Especificações. (Elas são importantes)

To: Ghastly <ghastlycomic@gmail.com>
From: YaoiYumYum <yyyfangirl169@hotmail.com>
Subject: Re: Alan Moore YAOI Comission (tentacle)

Quando eu te encomendei um desenho YAOI do Alan Moore, quis dizer alguma coisa tipo Doutor Manhattan x V ou Monstro do Pântano x Rorschach. Como PORRA eu vou tocar uma pra isso?

Por favor reponha o pagamento do Paypal IMEDIATAMENTE!

Sério, que tipo de MERDA você tem na CABEÇA?

Clique AQUI e veja a tal arte comissionada. NSFW.

Texto (traduzido livremente) do webcomic Ghastly’s Ghastly Comic. NSFW 2.

Via Pedro.

Rock and roll na prancheta

Rock'n'roll all nite, por Felipe Cunha

Da prancheta do Felipe Cunha: uma das páginas (clique na imagem para ver a versão maior) de Rock’n'roll All Nite, música do KISS que estamos produzindo em quadrinhos para o Mojo Comix, selo da Nona Arte da Mojo Books, a ser publicada em outubro e distribuída gratuitamente no site da editora virtual.

Medicina alternativa

We Are Robots

We The Robots de hoje. Um dos meus webcomics favoritos por estes dias.

E nos arquivos tem coisas ainda mais hilárias. Vale um favoritos ou delicious.

Eugênio Colonnese faleceu

Que triste. Li sobre isso agora a tarde na lista de discussão do Quarto Mundo.

Escrevi uma nota no Goma.

Colonnese morreu aos 78 anos, depois de um AVC, uma gangrena que amputou a perna direita e infecções pulmonares. O criador da Mirza fumava há sessenta anos.

Tudo isso aconteceu em dois meses, a propósito; tempo suficiente para o cigarro cobrar a dívida de uma vida inteira.

Quem dá mais?

Nunca fui muito de participar de concursos. Quando era moleque, o máximo que cheguei perto de algo parecido foi um sorteio no festival de sorvete no meu colégio, onde o vencedor levaria não sei quantos potes de sorvete. Fui sorteado, mas nunca vi a cara dos prêmios, já que não dei as caras no evento — era sábado e fiquei assistindo a uma partida entre São Paulo e Santos, na Vila Belmiro, onde o tricolor venceu. Soube do sorteio pelo meu irmão do meio, que esteve no festival.

Nos últimos anos, voltei a concorrer a alguma coisa quando submeti um projeto de um álbum de quadrinhos para o edital do Banco do Nordeste. A proposta passou na primeira etapa e foi limada na escolha final. Sem mágoas ou traumas, claro. Fora isso, uma ou outra tentativa de submissão para antologias estrangeiras sem nenhum tipo de remuneração, mais para fazer currículo; desse bolo, entrei com o Jeferson Bastista na britânica Just 1 Page, uma antologia de caridade.

Ou seja: quando se trata de quadrinhos, eu até me meto a participar. Nunca se sabe, certo?

Bem, depende do que o concurso propõe.

Peguemos como exemplo o anunciado concurso internacional promovido pela editora espanhola Planeta DeAgostini: para participar, basta enviar um roteiro completo (mínimo de 46 páginas) em inglês, francês, espanhol ou italiano, e as oito primeiras páginas dele produzidas. A história em quadrinhos precisa ser inédita.

O(s) vencedor(es) leva(m) a bolada de 20 mil Euros.

Então, quem ficou todo excitado para enviar material, sonhando em faturar esse bem-bolado?

Eu não.

Não que eu esteja achando que 20 mil Euros é pouca coisa por uma história em quadrinhos. É claro que não. Mas quem é esperto percebeu que deve haver uma pegadinha na jogada, hein? Pois é: a Planeta DeAgostini irá ficar com todos os direitos da produção escolhida, podendo explorá-la em todas as mídias e idiomas.

20 mil Euros é uma esmola considerando o potencial aproveitamento da história em quadrinhos vencedora em toda e qualquer mídia. Pense bem: você vai ao supermercado e, naquela seção de material escolar, vê uma lancheira com os personagens do seu gibi — e você não está ganhando simplesmente NADA com aquilo.

Tudo bem, isso não é uma prática nova e d’outro mundo. Muitas editoras atuam com contratos do tipo, em que os autores cedem parcial ou integralmente os direitos relativos à obra, sem precisar realizar qualquer concurso. Mas não dá um gosto ruim na boca quando uma grande editora européia, onde o mercado de quadrinhos é consolidado e o seu público não nivela essa forma de arte por baixo, propor uma negociata dessas? Quantos autores aspirantes não se sentem tentados com uma oportunidade dessas, mesmo que, para isso, tenham que ceder os direitos de sua criação?

20 mil Euros vale tudo isso?

As regras estão claras. O jogo, proposto.

Turma da Mônica Made in Liberdade

O Guilherme Domingues escreveu para o Universo HQ a resenha do número zero da Turma da Mônica Jovem, nova empreitada dos estúdios Maurício de Sousa, apontando erros e acertos:

Mesmo sendo difícil precisar, devido às poucas páginas, nota-se um potencial de boas histórias com essa roupagem dos personagens. Logicamente, os fãs mais puristas não vão gostar muito, mas essa adequação de conteúdo é parte importante para a renovação do público, que tem novas exigências.

A única coisa que pode realmente ser questionada é o “estilo mangá” na chamada do gibi. Apesar dos olhões, que já estavam presentes na Turma da Mônica original, e o fato da publicação ser em preto-e-branco, não há muitas mais características das HQs japonesas.

No aguardo do número um aportar pelas bancas de Maceió. Vale a pena conferir uma das jogadas mais arriscadas e inteligentes do grande nome no mercado tupiniquim, o sujeito que ainda forma novos leitores - por mais que não credite devidamente sua equipe criativa.

Batman - O Cavaleiro das Trevas

A década de 80 foi um período fértil para os quadrinhos norte-americanos, principalmente para os de super-heróis. A DC Comics, por exemplo, realizava sua faxina cronológica com a máxi-série Crise nas Infinitas Terras; ao reiniciar ali o processo de atualização de seu universo de super-seres encapuzados, a editora abriu espaço para a criação de obras que, até hoje, são consideradas referenciais. Dentre elas, duas são estreladas pelo Batman, tendo sido ambas escritas por Frank Miller.

Batman: Ano Um e Batman – O Cavaleiro das Trevas são marcos referenciais ora tangenciais ora distintos. Encontram-se ao elevar ao máximo a atmosfera pulp e hard boiled com os quais os quadrinhos do Homem-Morcego, até então, pareciam acenar. Tornam-se ímpares na abordagem narrativa e na proposta: no primeiro, Miller, ao lado do excepcional ilustrador David Mazzucchelli, reconta a origem do Homem-Morcego de modo crível, usando a máfia e uma Gotham corrompida pela marginalidade para estabelecer o vigilante como a renovação da esperança numa salvação do caos; no segundo, Frank redige e desenha de modo arrojado aquela que é considerada a história definitiva com o personagem, tragando para o universo policial do Batman elementos dos super-heróis num víeis político-social, abordagem que se cristalizou naquela década.

O cenário desenvolvido nos quadrinhos na década de 80 pode ser usado como um paralelo para o que foi feito do Homem-Morcego no cinema.

Depois de Tim Burton ter dado sua visão pessoal do herói — em dois filmes que considero bacanas, mesmo com todo o desvirtuamento de certos elementos  — e de Joel Schumacher, mais do que falho, tentar emular o seriado clássico com Adam West — principalmente no terrível Batman & Robin —, era o momento de trazer alguém mais afeito ao contexto urbano e de crime que as histórias de Frank Miller estabeleceram. E Christopher Nolan, festejado pelo excepcional Amnésia e o bom Insônia, parecia uma escolha acertada. Com Batman Begins, ele provou isso, passando uma borracha nas produções anteriores e reiniciando a franquia cinematográfica; trazendo consigo a seriedade necessária, com base em certa suspensão de descrença, do contexto policial e dramático daquelas que são consideradas as melhores histórias e fases da criação de Bob Kane.

Mesmo com Ra’s al Ghul caracterizando noções mais condizentes com o aspecto super-herói do universo do Batman, a construção psicológica do protagonista, a ambientação crível de Gotham e os debates acerca do crime e da violência se fizeram os verdadeiros destaques daquele filme — algo aproximando-se do já citado Batman: Ano Um, elencado como uma das referências para a película.

Utilizando o título da outra obra de Miller, Nolan e equipe cravam os pés ainda mais no chão e entregam uma seqüência que não é apenas um dos melhores — senão, até agora, o melhor — filmes inspirados numa história em quadrinhos, como também um grande drama policial, com atuações brilhantes.

Na trama, depois de se estabelecer como o vigilante de Gotham City, Batman precisa lidar com a máfia local, que se une com o intuito de derrubá-lo definitivamente, e o surgimento daquele que será o seu principal adversário em mais de duas horas e meia de projeção: o Coringa.

No primeiro filme, Christian Bale foi o foco como Bruce Wayne/Batman. Pela primeira vez no cinema, a reinvenção do personagem foi mostrada em sua riqueza como nos quadrinhos. Estão lá as três facetas: Bruce Wayne depois da morte dos pais, buscando sentido para sua vida; o Bruce Wayne playboy festeiro, que compra hotéis com um mero cheque e anda com supermodelos; e o Batman, o vigilante soturno. Cada um do seu timbre de voz, postura e modo de agir. Todos máscaras do garoto que viu seus pais serem friamente assassinados. No segundo filme, não se deixa de lado a história de origem apenas para contar uma nova história, mas para abrir espaço para outros personagens.

Gary Oldman causa a empatia adequada para o Tenente/Comissário Gordon e o fardo que este precisa carregar: ele sabe a desconfiança que o Homem-Morcego causa no departamento e na população, mas tem certeza que, sem o herói, não será possível livrar Gotham do crime. Aaron Eckhart como Harvey Dent, representa — trocadilho a seguir — a outra faceta da justiça na cidade. Sua gradual transformação e mudança de lado foram tratados com a maturidade que uma figura como o Duas-caras necessita. Na periferia da história, Michael Caine (Alfred) e Morgan Freeman (Lucius Fox) brilham como coadjuvantes de luxo. E Maggie Gyllenhaal consegue fazer tudo o que Katie Homes, no primeiro filme, não conseguiu — mas, infelizmente, sem o mesmo rostinho bonito.

O motor do filme, como se esperava desde o início das campanhas virais e, infelizmente, potencializada após sua morte, foi a atuação de Heath Ledger como Coringa. Um dos maiores vilões do Batman e dos quadrinhos de herói, o Palhaço do Crime ganhou uma representação ainda mais bombástica do que podia se imaginar.

Nas HQ’s, além do comentado Cavaleiro das Trevas, há outras duas obras que são representativas no histórico do vilão: Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave McKean, e A Piada Mortal, de Alan Moore e Brian Bolland. É nesta trinca que podemos encontrar a imagem lapidada do conceito que é o Coringa: uma entidade anárquica, violenta e imprevisível, que encontra no Batman o combustível para sua existência. São marcantes os momentos quando, em Cavaleiro das Trevas, o maníaco desperta de seu estado letárgico após ver na TV que o Homem-Morcego voltara a ativa, e em A Piada Mortal, quando ambos dividem risadas depois de uma piada contada pelo palhaço. No filme, essa relação doentia foi potencializada e tratada de modo particular, como a história pedia.

O resultado é que Ledger rouba a cena, mesmo quando não aparece; afinal, a engrenagem da história gira em torno de suas ações, afetando a cada um dos personagens. Quando aparece, é difícil que provoque risos confortáveis. O que me remete, como fã e leitor dos quadrinhos da DC, a situações em certos gibis onde dois super-heróis conversam, e um deles fala sobre quão assustador o Batman é; e o outro replica: É? Então pede pra ele te falar do Coringa. É isso que encontramos no filme: um Coringa do qual apenas as histórias sobre ele são capazes de assustar. Imagine, então, vê-lo em ação.

Nolan e seu irmão, Jonathan, baseados na história desenvolvida pelo diretor e o co-roteirista do filme anterior, David S. Goyer, estruturaram um roteiro onde ainda existem toques de suspensão de descrença: não no contexto da trama, mas nalgumas cenas de ação. Nolan aproveita e abre um pouco o enfoque de sua câmera, mostrando um pouco mais do Batman nas lutas; mas sem entregar tanto e não abrindo mão de uma boa quantidade de sombras. Por mais pé-no-chão que a construção da armadura do Homem-Morcego fora desenvolvida, o aspecto de boneco articulado não sumiu, e o diretor sabe disso.

No que diz respeito a ambientação da história, não há resquícios do que foi visto com a participação de Ra’s al Ghul. Temos o Coringa, o crime organizado e a violência de uma cidade grande. Trabalho suficiente para deixar marcas profundas no corpo e, principalmente, na mente de Bruce Wayne. Ao longo de sua jornada, ele irá se questionar — e será questionado — sobre seu papel social, sendo este um dos trunfos da caracterização do vigilante no filme.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é um filme enorme, e não me refiro a duração: há camadas nele a serem destrinchadas e analisadas em separado, para então serem reagrupadas numa peça única. Como uma das grandes histórias em quadrinhos do personagem da década de 80, trata-se de um clássico, uma obra de referência para o que virá a seguir. E que, dificilmente, será superada.

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Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

Área compartilhada

O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.