O mínimo de indignação

novembro 10th, 2008

Na minha lista de medos sociais, dentre várias coisas, constam o assaltante, o assassino, o seqüestrador. Claro: ser assaltado numa cidade como Maceió é pra lá de imprevisível se você previne-se devidamente; nunca dei motivo a ninguém para que me queiram a sete palmos; muito menos tenho dinheiro suficiente ou sou parente de alguém endinheirado para ser jogado num porta-malas e ficar refém em cativeiro nas imediações dum canavial. Apesar dos temores listados, não deixo de levar a vida fora de casa com certa tranqüilidade, sendo a minha maior preocupação quando ponho os pés na rua é não perder o horário do ônibus e chegar atrasado no trabalho.

A questão é que há itens aparentemente bobos na tal lista de coisas que me assustam (e irritam) no convívio social que são capazes de me deixar com o coração a mil e as veias pulsando feito o toque vibrador do celular. São bobos no que diz respeito a ação que causa incomodo — como o sujeito sentado na fila detrás da sua no cinema, chutando o encosto da cadeira. Não é todo mundo que verbaliza a reclamação. Numa situação destas, Ana e eu costumamos olhar com cara feia. Quando isso não é o bastante e os chutes permanecem, mudamos de lugar. Frescura, covardia? O (nosso) ponto é: não dá para saber com quem está se lidando. E não se trata do receio de iniciar um showzinho de punhos fechados e solados de tênis rasgando o ar. Em Maceió, não é só na periferia que as pessoas se matam por causa de R$ 10,00 que ficaram faltando para fechar a conta na birosca: já teve playboy que, no meio da balada num dos principais bares da cidade, saiu do lugar, foi até o carro, catou a arma e ficou esperando o cara que olhou lascivo para a namorada dele e meteu-lhe dez tiros no peito. Proporcionalmente, não são tantos os casos deste tipo, mas fica valendo a prevenção, certo?

O que não significa que se deva evitar certos causos quando a briga realmente é boa; até para confrontarmos a permissividade que parasita a passividade dessa filosofia de não querer meter-se em confusão. No domingo 2 de novembro, Dia de Finados, Ana e eu decidimos não fechar os olhos — e nem tapar os ouvidos — para um problema que estava acabando com o nosso sossego: um vizinho bêbado.

Eu havia acordado às 5h da manhã. Às 6h, liguei a TV e sintonizei no FX para assistir a mais uma reprise dum episódio da Família da Pesada (um vício no matrimônio meu e d’Ana). De repente, me vi aumentando o volume da TV, competindo com um som alto e abafado vindo da rua — um carro (um gol ou pálio, não lembro) equipado com caixas de som estúpidas, portas fechadas, tocando axé. Equação infalível para acabar com o descanso dominical de qualquer (não) cristão.

Imaginei se tratar de alguém retornando duma farra, cana empapando o quengo e com o juízo lá nos dedões dos pés. Bastava colocar o carro na garagem e tudo voltaria a tranqüilidade.

Tsc.

Ana saltou da cama depois das 8h. O ar-condicionado do quarto havia poupado seus ouvidos até ali. Claro: o som ainda não estava tão alto. Passando das 9h, assistir televisão estava impraticável. Conversa só na base do grito. Criou-se um impasse se deveríamos ou não ligar para a polícia — até porque percebemos um conflito em relação ao som: num momento, era diminuído; noutro, aumentado a níveis irracionais. Das janelas do nosso apartamento, vimos o carro na garagem do prédio defronte ao nosso, as portas e a mala escancaradas. No sobe e desce do volume, liguei para a polícia.

Primeiro para a delegacia civil no nosso bairro, onde a atendente me informou que é a polícia militar a responsável por atender esse tipo de ocorrência, pedindo para que eu tentasse o 190. O fiz. A nova atendente, após registrar a ocorrência, disse que encaminharia uma viatura assim que houvesse uma disponível. Quando ela meteu o “disponível” na frase, vi a probabilidade do problema ser resolvido cair mais do que as bolsas nesses tempos de crise financeira mundial. Beirando ao desespero de ver o nosso domingo de descanso se transformar numa micareta fora de contexto, liguei para um amigo PM que também mora no condomínio. Ao invés de pedir que resolvesse o problema (além de estar de folga, sua interferência no caso poderia ser mal interpretada pelos moradores, imaginando que ele estaria se aproveitando da função para se impor como uma figura de autoridade), perguntei se ele não tinha o telefone de alguém de patente relevante que pudesse viabilizar uma viatura o quanto antes. Isto me levou ao tenente responsável pelo plantão na região do meu bairro naquele domingo; que estava atendendo uma ocorrência n’alguma grota, mas garantiu que passaria pelo nosso endereço depois disso.

Nesse meio tempo, meu pai apareceu: foi nos buscar para o almoço em família. O furdunço era tamanho quando ele chegou que, para conseguir nos avisar que estava na entrada do prédio, só no grito. Até tentou ligando para o meu celular, mas não ouvi o aparelho tocar.

Coisa de vinte minutos antes de sairmos, a atendente da polícia militar me retorna a ligação: queria saber se eu anotei a placa do veículo — “Não, não tem condições deu fazer isso. Estou dentro do meu apartamento, não tem como ver da janela.” — e disse que a viatura da rádio patrulha já estava a caminho. E quando colocamos os pés fora do apartamento, Ana viu do hall a chegada dos policiais. Justiça seria feita.

Os ventos daquele Dia de Finados, no entanto, fizeram com que a merda jogada no ventilador também sobrasse para nós. Quando meu pai, Ana e eu saímos do prédio, nos dirigindo para o carro, o baderneiro, visivelmente alcoolizado, apontou para o meu pai e não poupou saliva: “Eu sei quem foi que ligou. Foi esse filho da puta aí, que tá saindo. Eu vi ele no telefone aí na porta, ligando! Filho da puta!” O circo se armou daí. As ofensas continuaram, sobrando inclusive para mim, o “playbozinho de merda”. Não faltou, também, incentivo dos PMs para que déssemos parte do sujeito por calúnia, difamação, injúria, etc. Apesar da nossa vontade inicial ser esta, o pai do irresponsável, amigo do meu avô — a quem o apartamento onde moramos pertence(u) e onde residiu por mais de 20 anos com minha avó, minha fortaleza em diversos fins de semana e férias durante a infância e adolescência — e que também conhecia meu pai, já com lágrimas nos olhos, pediu para que resolvêssemos a situação ali. Ele conversaria com o filho; garantiu também que o mesmo não faria nada contra Ana e eu, visto que chegou a formular pretensas ameaças contra nós.

Esta é uma versão resumida dos fatos, porque certas baixarias é bom de se ver só na novela das oito. Na vida real, tudo poderia ter saído muito errado, perigando para o prejuízo da nossa integridade física — minha e da Ana, pelo menos, já que seria bem improvável que o sujeito, mesmo sóbrio, fosse capaz de passar pelo meu pai. E não se trata de uma disputa de punhos que foi evitada, mas da ausência do respeito mínimo entre pessoas que dividem o mesmo espaço urbano e do receio de fazer valer a máxima de “o seu direito termina quando o meu começa”.

Uma mocinha que acompanhava o beberrão — “Eu tava aqui curtindo, bebendo minha cerveja, lavando meu carro, brincando com as crianças” — disse para nós, durante a confusão, que aquilo não era motivo para chamar a polícia — “E tava tão alto assim?” —, que poderíamos ter pedido para que ele baixasse o volume. Um argumento, no mínimo, tosco: ela foi a responsável por ligar para o pai do sujeito que, por não agüentar a altura insuportável do som, meteu-se dentro do seu carro e foi para um lugar mais tranqüilo. Um morador do prédio vizinho ao meu, pelo que me disseram, pegou o filho ainda bebê e fez o mesmo. Sem contar um dos vizinhos do meu andar que, antes da polícia chegar e testemunhado pela Ana, saltou a pérola: “Isso aqui é mesmo uma favela”, e foi se trancar no apartamento.

Não estávamos no cinema, onde se pode mudar de lugar, chamar a gerência ou mesmo assistir o filme noutra sessão. Cada um estava em sua residência, num dia de descanso, e ninguém se dignou a fazer nada além de procurar outro canto ou resmungar bobagens hipócritas. A atitude que tivemos, também, não nos fez melhores e mais corajosos que ninguém, porque o receio nos acompanhou igualmente no decorrer da situação. Mas decidimos não deixar nosso mínimo desejo de indignação amolecer quando tínhamos toda a razão do mundo conosco.

Uma semana depois do fato, a recompensa: um domingo tranqüilo, sem carro com som turbinado nos obrigando a ouvir o que não queríamos. Descanso.

De nada, vizinhos. Obrigado, polícia militar.

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