Fé em monstros
outubro 24th, 2008Em meados dos anos 90, a Marvel causava estardalhaço entre seus leitores com a publicação da mega-saga de verão Massacre, que culminou na “morte” de alguns de seus principais heróis — Capitão América, Quarteto Fantástico, Vingadores e Homem de Ferro deram a vida para acabar com o vilão e possibilitar o retorno das antigas pratas da casa Jim Lee, Rob Liefeld e Whilce Portacio, alguns dos sócio-fundadores da Image Comics, na investida furada que foi o projeto Heróis Renascem. Com o universo Marvel carente de algumas de suas principais figuras, a editora, visando suprir tal vácuo, investiu em novos heróis e suas eventuais séries mensais.
Os Thunderbolts apareceram nessa época.
A revista, escrita pelo veterano Kurt Busiek e ilustrada pelo ágil Mark Bagley, estrelava um grupo de super-heróis que, na verdade, eram supervilões sob novas identidades. Aproveitando a morte dos grandes heróis, o bando, composto por vilões de segunda e terceira categoria, decide forjar essa nova equipe para ganhar a confiança da população, da imprensa e dos outros heróis, e então aplicar algum tipo de vingança contra todos. Lembro que não passei do primeiro arco de histórias publicado aqui no Brasil pela editora Abril.
A série passou por altos e baixos. Busiek deixou os roteiros, Bagley foi realocado para outros projetos e as equipes criativas seguintes não deram conta de mantê-la em evidência. Numa das tentativas de salvar a revista, a numeração da mesma foi zerada e uma nova proposta estabelecida: algo como uma rinha de galo estrelada por supervilões. Nada deu efetivamente certo.
Quando da realização de mais um de seus eventos de verão — a Guerra Civil —, a Marvel decidiu intervir mais uma vez nos Thunderbolts: pôs o britânico Warren Ellis para cuidar dos roteiros e o brasileiro Mike Deodato, com o qual o escritor colaborou numa breve fase no Thor, na arte.
É durante a Guerra Civil que o senado norte-americano sanciona a lei de registro de super-humanos: qualquer super-herói, se quisesse continuar atuando legalmente em solo estadunidense, deveria realizar o registro governamental; o que, dentre outras coisas, consistia em abrir mão de sua identidade secreta para as autoridades. Caso contrário, seria considerado criminoso e passível de prisão por desrespeitar a lei de registro.
Os Thunderbolts de Ellis e Deodato são incumbidos de cuidar dos heróis fora-da-lei. Fé em monstros, arco em seis edições inicial do run da nova equipe criativa (edições #110 a #115, no original; Universo Marvel #33 a #38 no Brasil), mostra como se deu a seleção dos integrantes do grupo, a função estatal do mesmo e as caçadas a alguns heróis menores.
Apesar de atrelado aos eventos de um grande crossover, Ellis se mostra a vontade e ciente de como pode atuar com os personagens e cenário que lhes foram dado. E ele não poderia estar mais em casa ao ter um elenco composto por degenerados, assassinos e psicóticos, estes envoltos por uma atmosfera de humor negro e ultra-violência — figurinhas e elementos carimbados em boa parte dos trabalhos do autor. O que não significa que eles vão se dar bem nas histórias do bastardo britânico.
Mike Deodato, fã declarado dos roteiros do autor inglês, constrói suas páginas com enquadramentos cinematográficos, ora usando referências fotográficas para trazer realismo aos personagens (é possível identificar figuras como Tommy Lee Jones ou Jô Soares logo na edição de estréia da dupla criativa) ora estilizando-os anatomicamente (um tipo de ruído comum em seu estilo). Um trabalho mais inspirado do que, por exemplo, sua colaboração com Brian Bendis num arco dos Novos Vingadores.
Na história, o diretor executivo responsável por recrutar os novos Thunderbolts e fazê-los funcionar como equipe é Norman Osborn — empresário milionário conhecido por infernizar a vida do Homem-Aranha durante anos como o vilão Duende Verde, recebeu um tipo de perdão governamental para assumir o cargo. Em entrevista a imprensa (edição #110, no original), ele afirma que todo homem merece a chance de se redimir perante a sociedade, e aquela seria a dele. A ironia, que servirá de tom de boa parte deste primeiro arco, já começa por aqui: Norman, sob a aparência deste sujeito em busca do perdão social, toma remédios controlados, usa de sua posição para ameaçar os integrantes da equipe e, em seu íntimo, tenta dominar seu desejo doentio de pôr seus vilões no encalço do herói aracnídeo.
Ignorando as eventuais incongruências do contexto gerado pelo grande evento de verão que foi a Guerra Civil — vilões altamente perigosos trabalhando às claras pelo governo? Nenhuma missão envolvendo um super-herói de primeira linha? —, Ellis estabelece uma linha coerente para sua história: apresenta os vilões à mídia (sejam nas propagandas em que bonecos articulados capturam o Capitão América “terrorista” ou na qual Stan Lee promove o reality show para aqueles que almejem ser um thunderbolt); define o tipo de atuação de cada personagem; e, o que faz a engrenagem funcionar, põe os mesmos para sair a cata de heróis dos escalões inferiores da Casa das Idéias.
Nas duas primeiras histórias do arco, os Thunderbolts — compostos por Venom (atualmente Mac Gargan, ex-Escorpião), Espadachim, Soprano, Suplício (ex-Speedball dos Novos Guerreiros), Homem Radioativo e Rocha Lunar, a líder de campo — metem os pés pelas mãos para capturar Jack Flag, um dos ex-parceiros do Capitão América; e só o conseguem com a ajuda do Mercenário, o integrante extra-oficial da equipe. Ellis e Deodato orquestram bem as seqüências de ação e violência, intercalando-as de modo também competente com aquelas construídas sobre diálogos e caracterizações.
Diferentemente do trato dado aos seus anti-heróis e de todo o fan service auto-referencial de seu estilo de escrita — coadjuvantes com pinta de freak, personagens (britânicos ou não) fumantes inveterados, personagens fodões botando pra quebrar, etc. —, em Thunderbolts Ellis dá aos vilões o espaço para eles demonstrarem o seu pior, seja física ou psicologicamente, sem que isto deixe de acrescentar a trama. Duas passagens de destaque nesse sentido são protagonizadas pelo Mercenário: a primeira acontece nas páginas da edição de estréia, quando o assassino é recrutado por Norman Osborn; a segunda transcorre na edição seguinte, num monólogo em que o personagem fala sobre o prazer que matar lhe dá. Estão presentes também referências a elementos contemporâneos e conceitos pouco conhecidos do grande público; um cacoete do escritor que funciona perfeitamente aqui.
O uso dos heróis de menor escalão para serem perseguidos pelos Thunderbolts, além de livrar Ellis e a própria Marvel de mexerem drasticamente com algum de seus figurões, permite ao roteirista maior liberdade para dar o fim que quiser a eles. Algo que executou sem deixar de lado o estabelecimento de caracterizações adequadas a situação do universo da editora pós-Guerra Civil: o Aranha de Aço, personagem obscuro que aparece da terceira a sexta parte do arco, decide que não cederá a lei do registro e tão pouco deixará de patrulhar as ruas de sua cidade; sua fixação em fazer justiça, algo inspirado no Peter Parker/Homem-Aranha, transforma sua vida particular num caos.
Ellis balanceia a história de forma veladamente maniqueísta: mesmo incumbidos de uma tarefa (paradoxalmente) correta, os integrantes dos Thunderbolts não são tratados como vilões regenerados — ao menos a maioria, já que Soprano e o Homem Radioativo parecem ter virado casaca nas fases anteriores da série. Dentro de suas obrigações e limitações na proposta da equipe, eles agem, no momento oportuno, da maneira do que se esperaria de um vilão. E nas mãos do escritor britânico, isso vai da troca dos remédios controlados por placebos que Norman Osborn precisa tomar para se manter são a um breve espancamento de um Jack Flag já aleijado pelo Mercenário.
Unidos meramente por obrigações burocráticas, esse núcleo dos Thunderbolts é uma pilha de C4 prestes a ser detonada. O que é visível na interação entre eles quando estão em campo. Depois de uma quase-surpreendente canseira dada por Jack Flag, o grupo bate cabeça quando vai ao encalço do Aranha de Aço e acaba topando com o Águia Americana e a heroína Sepulcro. São estes heróis menores que servem de contraponto aos vilões protagonistas, transformando os Thunderbolts num tipo de piada disfarçada — dentro e fora da história. A surra que o Mercenário leva no desfecho do arco nas mãos do Águia Americana é o sorriso que se desenha no canto da boca de qualquer fanboy.
Vale a pena destacar que, sem Mike Deodato, talvez a história não tivesse o mesmo impacto. Diferente de outros escritores do primeiro time, Ellis é o tipo de roteirista do qual o trabalho depende de um desenhista razoavelmente talentoso; mas não naquela idéia de que “o desenho que salvou a história”, nada disso. E sim porque o escritor britânico exige muito do visual em seus roteiros, estabelecendo um tipo de química entre as duas funções (como deveria ser em qualquer parceria) para que a narrativa e seu conteúdo fluam.
Um tipo de composição que será difícil de ser encontrada em qualquer nova fase ou série vinda de algum mega-crossover de verão.