Quem dá mais?
agosto 7th, 2008 • Arte Seqüencial
Nunca fui muito de participar de concursos. Quando era moleque, o máximo que cheguei perto de algo parecido foi um sorteio no festival de sorvete no meu colégio, onde o vencedor levaria não sei quantos potes de sorvete. Fui sorteado, mas nunca vi a cara dos prêmios, já que não dei as caras no evento — era sábado e fiquei assistindo a uma partida entre São Paulo e Santos, na Vila Belmiro, onde o tricolor venceu. Soube do sorteio pelo meu irmão do meio, que esteve no festival.
Nos últimos anos, voltei a concorrer a alguma coisa quando submeti um projeto de um álbum de quadrinhos para o edital do Banco do Nordeste. A proposta passou na primeira etapa e foi limada na escolha final. Sem mágoas ou traumas, claro. Fora isso, uma ou outra tentativa de submissão para antologias estrangeiras sem nenhum tipo de remuneração, mais para fazer currículo; desse bolo, entrei com o Jeferson Bastista na britânica Just 1 Page, uma antologia de caridade.
Ou seja: quando se trata de quadrinhos, eu até me meto a participar. Nunca se sabe, certo?
Bem, depende do que o concurso propõe.
Peguemos como exemplo o anunciado concurso internacional promovido pela editora espanhola Planeta DeAgostini: para participar, basta enviar um roteiro completo (mínimo de 46 páginas) em inglês, francês, espanhol ou italiano, e as oito primeiras páginas dele produzidas. A história em quadrinhos precisa ser inédita.
O(s) vencedor(es) leva(m) a bolada de 20 mil Euros.
Então, quem ficou todo excitado para enviar material, sonhando em faturar esse bem-bolado?
Eu não.
Não que eu esteja achando que 20 mil Euros é pouca coisa por uma história em quadrinhos. É claro que não. Mas quem é esperto percebeu que deve haver uma pegadinha na jogada, hein? Pois é: a Planeta DeAgostini irá ficar com todos os direitos da produção escolhida, podendo explorá-la em todas as mídias e idiomas.
20 mil Euros é uma esmola considerando o potencial aproveitamento da história em quadrinhos vencedora em toda e qualquer mídia. Pense bem: você vai ao supermercado e, naquela seção de material escolar, vê uma lancheira com os personagens do seu gibi — e você não está ganhando simplesmente NADA com aquilo.
Tudo bem, isso não é uma prática nova e d’outro mundo. Muitas editoras atuam com contratos do tipo, em que os autores cedem parcial ou integralmente os direitos relativos à obra, sem precisar realizar qualquer concurso. Mas não dá um gosto ruim na boca quando uma grande editora européia, onde o mercado de quadrinhos é consolidado e o seu público não nivela essa forma de arte por baixo, propor uma negociata dessas? Quantos autores aspirantes não se sentem tentados com uma oportunidade dessas, mesmo que, para isso, tenham que ceder os direitos de sua criação?
20 mil Euros vale tudo isso?
As regras estão claras. O jogo, proposto.
4 Responses (Add Your Comment)
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Mas é como eu falei, Daniel: até que ponto vale a pena abraçar essa oportunidade, por mais iniciante que seja o quadrinhista? Vale a pena abriu mão dos direitos autorais e da exploração da sua criação em qualquer mídia e idioma por 20 mil euros?
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abrir mão das coisas é difícil. abrir mão de criações deve ser como deixar um filho ao léu, ou seja lá como se escreve isso. mesmo que eu saiba que ele vai ser bem cuidado e explorado.
maior parte das brigas de roteiristas acontece por causa dos direitos dos personagens, já percebeu? tem coisas que simplesmente não valem a pena. e outras que valem. se eu soubesse fazer coisas boas eu acho que eu tentaria a sorte no jogo aí, mesmo sabendo que se ganhasse ia me corroer a falta do personagem. -
No meu caso - nunca tendo publicado nada, eu abriria mão tranquilamente.
Bom. Para que não tem portfólio - nunca foi publicado, ou tem pouca coisa/publicação, não acho má idéia começar ganhando um prêmio deste porte e exposição… huehuehue