Wall-E
Em um mundo no qual o sinônimo de globalização pode ser definido de modo raso como a presença virulenta da Coca-cola ou do McDonalds nas grandes as pequenas cidades, não se pode cogitar a possibilidade de que certas marcas sejam realmente capazes de constituir uma mensagem cosmopolita pura, de união entre diferentes povos. E o itálico ali utilizado aparece para tentar desfazer qualquer ar pedante que o início desta crítica possa ter ganho: porque estou me referindo a um produto de consumo que não termina em si mesmo, no simples ato de digestão. Centenas de filmes podem ser tão descartáveis e passageiros como um bom refrigerante, cujo gosto se desfaz depois de um apanhado de minutos; mas não Wall-E.
Não se pode rotular a mais nova produção da Pixar como uma mera animação infantil. Na verdade, ficam para os pequenos as cenas de humor físico e os magníficos trejeitos tão humanos dos robozinhos — e que não deixam de cativar adolescentes e adultos, é claro. O longa animado, no entanto, vai além, como muitas das produções da casa. Wall-E tem momentos de filme mudo, romance e ficção científica. E não são poucos ou mesmo condensados. Hoje, a propósito, o filme de Andrew Stanton entraria fácil numa lista particular das melhores produções sci-fi da Sétima Arte.
Na história, o robô que dá título a história passa seus dias fazendo aquilo para o que foi programado: limpar a Terra, atolada em poluição e incapaz de sustentar vida orgânica, para que os humanos, em “férias” no espaço, possam um dia reabitar o planeta. Minto: ele faz mais do que isso. Wall-E coleciona objetivos em sua morada, o interior da carcaça de um robô maior desativado, e assiste a antigos musicais num I-Pod. Sua única companhia, seu animal de estimação, é uma baratinha que faz as vezes do cão agitado do protagonista nos filmes-família convencionais. A rotina do nosso herói — e ele o é — muda com a chegada de EVA, uma robô mais avançada, em visita a Terra em busca de “algo”.
Procurando Nemo, o filme mais babado de Stanton até então, não me empolgou. Considero uma animação OK, com um ou outro ponto interessante e uma mensagem bonitinha, mas nada além disso. Wall-E, de certo modo, carrega parte da essência de Nemo em sua história; só que não se contenta em retratar sua mensagem, mesmo que clichê, de modo simplório ou meramente infantil. Trata-se de uma obra refinada, que ousou flertar com o piegas, buscou ser referencial e entrelaçou romance e ficção científica como poucas outras. Da mesma forma que Brad Bird, em Os Incríveis, fez mil vezes mais para o gênero dos super-heróis do que Tim Story com os dois Quartetos Fantásticos — comparação feita considerando-se as similaridades de conceito do primeiro com as histórias em quadrinhos dos quais o segundo foi baseado.
Se em seu âmago Wall-E é um confortável colchão de referências, na superfície é uma grande e bela mensagem universal, capaz de promover o mínimo de reflexão além das risadas e do entretenimento de mais alto nível. Considerando a quantidade de sujeira na sala de cinema depois do fim do filme, foi triste constatar que quase todos os presentes não se deram conta do que acabaram de assistir. Talvez, como no próprio longa, estejamos conectados apenas durante o divertido compartilhamento do gás de um refrigerante e diante de uma tela multicolorida.
O único questionamento que não consegui chegar a uma resposta, até agora, foi: será que a beleza em diversas formas de Wall-E é capaz de bater a superação genial de Ratatouille? Ou ambos merecem dividir o trono de melhores produções da Pixar hoje?
8 comments
Finalmente ‘tirou a poeira’ dessa porra, abandono encerrado em grande estilo!!!
Uiiiii!!!!!!!!!!
Ainda vou assitir esse filme, essa semana quem sabe!!!
[ ]’s
OK, este é o dilema: eu só acheio cópias “dubladas”. Eu odeio coisas dubladas. Por outro lado, falaram que o filme é praticamente livre de diálogos inteligíveis. É seguro ir no cinema ver uma cópia “dublada” de um filme semi-mudo?
A propósito: http://g1.globo.com/Noticias/Tecnologia/0,,MUL604070-6174,00.html (êêê, Japão…)
Alex:
Valeu, hehehe. Mais resenhas virão - e não apenas de filmes.
Danilo:
Vai na fé, velho. Não tem nenhum ator global ou gente do Pânico envolvida. Só dublador profissa e que fala bem pouco, considerando-se a proposta do filme.
Quanto ao link: uhahuhauhuahahuaa.
aeee, legal!
WALL-E é lindão, um os filmes do ano até agora.
pena q tá sendo mal marketeado, parece.
mas além de poucas falas a dublagem nacional pra variar é mto boa!
Boa… Vou ver no fim de semana então. Valeu.
Pablo, sua sinopse me fez ficar com vontade de conferir. Taí, vou ao cinema na semana que vem ver Wall-E!
Grande Fábio! Legal sua presença por estas bandas.
Que bom que ficou animado. Vai valer cada centavo, pode apostar! =D
Se Stanley Kubrick tivesse feito animações, teria feito Wall-E.
Sensacional o filme.
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