Troca(n)do
Quem mora nas capitais ou grandes centros urbanos do interior, onde o transporte público é a metáfora mais próxima de um banheiro unisex lotado no inferno, já foi platéia das mais diversas figuras ao usá-lo diariamente: gente vestida de palhaço pedindo para comprar uma ou outra bugiganga, assim elas teriam recursos para continuar visitando os velhinhos nos asilos; vendedores de doces industriais ou artesanais anunciando o produto na base de um discurso em tom de rap ou repente; e desempregados afirmando que, assim como milhões de outros brasileiros, aquela era a sua situação atual e, ao invés de estarem roubando ou matando, estão apenas pedindo.
Claro, você ou ele ali já se comoveu, achou que o sujeito merecia ou estava com tanto mau-hálito que uma balinha cairia bem. Mas quem nunca teve o pé atrás com todo esse povo, que tenha o desgosto de perder dois ônibus e que o terceiro quebre antes de chegar até o ponto onde você está esperando debaixo de chuva!
Por esses dias, Ana confirmou aquilo que você, eu e a sua avó que adora andar de coletivo já sabíamos: tem gente safada demais metida entre esses — na falta de um termo socialmente menos pejorativo — pedintes. Não todos, claro. Enfim…
Três vezes, em dias distintos, mas sempre no ônibus que ela apanha para voltar do trabalho, um menino subiu, com todo aquele discurso de desemprego, e pediu ajuda. O detalhe gritante, o qual seria capaz de dissipar qualquer sentimento de piedade em relação ao moleque: das três vezes, segundo a Ana — e a palavra da minha esposa é Lei & Ordem, vagabundagem —, ele usou nomes diferentes. E nomes diferentes compostos!
Da última vez, Ana não se agüentou e começou a rir sozinha. Eu teria sacado uma ou duas moedas da carteira e dado pra ele, mandando lembranças para seus irmãos gêmeos.
E tem gente que consegue dormir em paz dando trocado para essas cobras criadas, achando que fez a “sua parte”.
2 comments
andar de ônibus tem sido uma tortura nessa província. e o trânsito e os buracos espalhados pelos bairros só têm contribuído pro nosso calvário de cada dia.
quase pari um texto primo desse semana passada. deixa só eu juntar mais um pouquinho de indignação.
=*
Manda ver, Carol!
Quem sabe com a licitação pra novas empresas meterem a cara no transporte público, quem sabe melhore. “Quem sabe”.
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