Memorial da Ausência

Semana passada, o presidente da toda-poderosa Fundação Palmares, Sr. Zulu Araújo, afirmou para o Jornal Nacional que o Parque Memorial Quilombo dos Palmares estaria em pleno funcionamento no último domingo, dia 1º de junho.

Montado na Serra da Barriga e inaugurado a pouco mais de seis meses, em União dos Palmares, interior do estado de Alagoas, o parque saiu ao custo de, segundo as fontes oficiais, em torno de 2 Milhões de Reais. O que seria o símbolo máximo em homenagem ao Quilombo liderado, em seu auge, por Zumbi, tornou-se objeto de disputa nas esferas municipal, estadual e federal pelo seu gerenciamento.

Apesar dos pesares, e considerando a qualidade dos órgãos políticos de Alagoas e seus gestores, a Fundação Palmares seria uma saída razoável para manter vivo um projeto extremamente importante para a valorização de uma faceta da identidade cultural e social do estado: a negra.

Infelizmente, segundo reportagem do Bom Dia Alagoas de hoje, 3 de junho, o Parque continua a não funcionar.

Em nota, publicada em seu site oficial, a Fundação Palmares contestou a reportagem veiculada pelo Jornal Nacional semana passada, afirmando que o telejornal “preferiu apenas colocar no ar aquilo que mais lhe agradou no rumo já antecipado da reportagem proposta”.

Ainda na nota, Zulu teria explicado, num material não veiculado na TV, “que os projetos prometidos ao Parque, na ocasião da sua inauguração, dependiam da liberação do Orçamento da União, que, por sua vez, dependia da votação do Congresso Nacional. E que somente agora, após a liberação e contigenciamento pelo Ministério do Planejamento, a Fundação Cultural Palmares, responsável pela preservação e manutenção do Parque, estaria apta a iniciar os procedimentos para as atividades propostas”.

Independente dos interesses aos quais a matéria poderia atender — como é questionado no comunicado — e da necessidade da liberação das verbas requisitadas, o Parque Memorial Quilombo dos Palmares, até o presente momento, nada mais é do que o reflexo de obras do tipo realizadas em solo alagoano: fogos de artifício para uma platéia ausente. O que é uma pena.

Soa fantasioso imaginar que, um dia, possamos recomendar, além das praias do nosso belíssimo litoral — provavelmente um dos três mais belos do Nordeste, senão o primeiro lugar entre estes —, pontos de visitação que falem da história e cultura de Alagoas.

E eu não duvido: se União dos Palmares e Zumbi fossem da Bahia, o Memorial seria um tipo de Disneylândia do movimento negro. Devíamos contratá-los para fazer um serviço de consultoria sobre bairrismo por estas bandas, quem sabe.

Aproveite e leia o meu relato sobre os dias em que estive em União dos Palmares, ano passado, e que antecederam a inauguração “oficial” do Memorial.



2 Responses (Add Your Comment)

  1. primeiro:grande txto jornalístico, hermano.

    segundo: é tudo isso mesmo, e no meu trabalho a gente tenta muito entrar em contato com diretores do memorial, oq é pura perda de tempo, já que não há autoridades próximas. Quem comandava o elefante branco era até uma semana atrás a Patrícia Mourão, que até onde eu sei está residindo no Rio de Janeiro.

    Nem acesso existe ao memorial, é só lama e mato. E dois milhões investidos… enquanto isso a ONG da PATRÍCIA Mourão deve ir bem.

    Bom, afora isso, nesse fds chegam italianos á Alagoas pravisitar rotas de cultura negra. E álém do terreiro da mãe Neide pouco há. O AKUABA? É uma puta vergonha, pq essa mersinha de Estado continua mostrando oq é a corrupção na cara dura. Terrinha do Se Dar Bem.

    Enquanto isso a Bahia, amigão, investe mundos e fundos no turismo e não à toa sobrevive disso, na sua maior parte.

    é. acho q indgnei.
    valu,
    c.

  2. Valeu, Dona C.!

    A Patrícia deve estar muito bem mesmo. Depois da confusão que lembro de ter ouvido pra conseguir a grana e, ainda por cima, prestar as contas do que foi gasto, ela deve estar pouco se lixando pro Parque.

    Quanto ao acesso ao Memorial, aí já não sei. Ano passado tinha e, segundo um camarada de União, ainda está lá. O problema é mesmo o lance da administração da coisa.

    E o Akuaba é legal, representa bem a cultura negra… com uma vertente baiana, hahaha.

    Temos que nos indignar mesmo.

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Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

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O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.