Piada Mortal

Heath Ledger como CoringaDurante meu almoço no apartamento dos meus avós por esses dias, quando conversava amenidades com minha avó na cozinha, ela comenta com um alarde dos mais assustadores que o filho do vizinho, aquele que mora no andar de cima, não passou no último vestibular da federal. A pobre criou toda uma atmosfera de tragédia antes de dizer o que se tratava, que eu, com comida enfiada até o céu da boca, quase me engasgo com o susto. O que diabos ela queria que eu comentasse sobre um fato ocorrido com um moleque que posso ter visto uma ou outra vez no hall do edifício?

Este pequeno ocorrido com a minha avó me fez decidir, finalmente, escrever sobre a morte do ator Heath Ledger na última terça-feira, em Nova York.

Celebridades e suas mortes são assuntos um tanto quanto alienígenas nas nossas bocas, gente normal, aquelas que formam o rosto da multidão. Mas não nos importamos (e por que deveríamos, não é verdade?) em comentar com escárnio e certo nojinho as fotos da Britney menstruada, rir de tristeza da Miss Amy Blonde-house exagerando na escrotice com as drogas e mesmo sentir pesar pela morte repentina de um ator próximo de atingir o ápice de sua carreira cinematográfica. Não é possível classificar ou equiparar a nossa sensação com a aflição que acomete as famílias dessas pessoas.

E daí que um amigo ou parente próximo seu morreu de overdose, intencional ou não, como pode ter sido o caso de Ledger? As comparações se desvirtuam porque, mesmo que o elemento ser humano seja o alvo da equiparação abstrata, no final das contas o que nos incomoda é que uma daquelas estrelas inalcançáveis se apagou no mar da constelação pop.

Ninguém vai sentir falta do Heathcliff Andrew Ledger, mas do sujeito que fez aquele maloqueiro em 10 coisas que eu odeio em você; do filho do Mel Gibson em O Patriota que morre lá perto do fim do filme; e do cowboy carrancudo e gay do ótimo Brokeback Mountain. E para os milhões de nerds espalhados ao redor do globo, talvez ele já seja considerado o responsável pela representação definitiva do Coringa no cinema. E olha que Batman – O Cavaleiro das Trevas, filme onde ele interpreta o Palhaço do Crime, sequer estreou.

Essa coisa de especularmos e criticarmos nossos ídolos de mentirinha sempre será uma constante enquanto existir a cultura pop; até porque alguns desses astros, sejam eles atores, diretos, escritores ou personalidades instantâneas criadas por empresários espertinhos, meio que acabam se metendo no meio das nossas vidas cotidianas. Apontamos os defeitos, sentimos pena e criticamos como donos da verdade e dos bons costumes seus atos desvirtuados. Quando nós somos tão ou mais zoados com essa possessão egoísta para com esses ícones do entretenimento.

E tudo que eu penso agora é em como conseguir terminar este texto fazendo uma citação oportunista àquela graphic novel escrita pelo Alan Moore. Que não faço apenas por não conseguir a frase certa, irônica e nerd o bastante para agradar o meu ego. Seria uma bela homenagem ao Coringa.



3 Responses (Add Your Comment)

  1. é, me senti um pouco abalado pela morte do coringa.
    pelo que eu vi, jah estou preferindo ele ao nicholson.
    achei q morreu cedo…
    dia desses estava conversando com uns amigos e eu fiz a citação da graphic novel…
    mas eu nem lembro como foi.
    sei que tavam falando em fazer um cartaz do batman com os dizeres: “joker’s last joke” ou algo assim… cê sabe, the killing joke.

  2. hunf, why so serious?

    bastante de lado. tô descontente. farei reformas, mas só depois do bendito tcc.

  3. Adoro cinema, é um vício , rara é a semana que eu não assisto um bom longa.sou exigente, de tanto assitir aprendi a discernir os talentosos dos canastrões. Heath Ledger estava entre os talentosos, brilhante, promissor, carisma puro e sensualidade. Fará falta , era um ator jovem rebelde no meio dos caretas.

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Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

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O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.