Eu sou a Lenda

Eu sou a LendaÉ possível criar-se expectativas de que certos filmes tornem-se clássicos de um gênero, pontos de referência dentro da cultura pop. Se os produtores têm um bom roteiro em mãos, assim como diretor e atores a altura do projeto, e dispõem de um capital de investimento gorduroso, basta uma campanha publicitária certeira para se criar a euforia necessária em torno da película. Some a isso o fato do filme ser a adaptação de um livro cult, e a produção ganhará pontos extras. Seria esta a receita para o sucesso? Ao se assistir Eu sou a Lenda, não se pode afirmar isso com certeza.

Terceira adaptação do romance (de mesmo nome) do escritor Richard Matheson, e precedido por Mortos que matam (1964) e A Última Esperança Sobre a Terra (1971), o filme dirigido por Francis Lawrence, do bom Constantine, e estrelado pelo boa praça Will Smith possuía os requisitos básicos para se tornar uma obra marcante. E alcançar esse status não é para qualquer blockbuster — algo para o qual Eu sou a Lenda, depois de seus 101 minutos de reprodução, não obteve êxito. O que não o qualifica, necessariamente, como uma má produção.

Na história, Smith vive o tenente-coronel e cientista militar Robert Neville, único sobrevivente de uma Nova York arrasada por uma praga viral que se espalhou pelo mundo, eliminando drasticamente boa parte da população da Terra. Acompanhado por Sam, uma cachorra da raça pastor-alemão, Neville segue uma rotina diária durante três longos anos. O filme, precedido por um breve prólogo estrelado por Emma Thompson, começa justamente nesse terceiro ano. Acompanhamos o protagonista e sua fiel companheira numa caçada pelas ruas desertas da Grande Maçã, uma das muitas seqüências do tipo em Eu sou a Lenda a superar a Londres deserta de Extermínio. Mas talvez calhasse para o bem à película de Lawrence e Smith a ausência da pressão hollywodiana como a do filme de Danny Boyle, e que tange, inclusive, em alguns elementos a adaptação mais recente da obra de Matheson.

A mais clara delas é quanto ao investimento nos antagonistas monstruosos. Com uma maquiagem competente e um sem número de extras bem treinados, Boyle renovou o conceito dos zumbis lerdos de George Romero, transformando-os em assustadoras máquinas de devorar humanos. A opção por se criar os humanos infectados através de computação gráfica em Eu sou a Lenda é um de seus pontos fracos; há, nesses personagens, o peso deles representarem o medo concreto do que foi causado pelo vírus. Depois da construção crível de uma Nova York desolada, encarar os monstrengos em cgi com suas cabeças tortas e textura pobre nos faz perguntar se parte dos tantos milhões de dólares da produção foram realmente bem utilizados. O que me leva, de certo modo, a outra questão: a prática de product placement no filme.

Mas não espere uma opinião (totalmente) negativa da minha parte: a Warner conseguiu conciliar a prática marketeira com o roteiro de sua produção. Portanto, incomodará apenas aos mais cricris identificar, por exemplo, as logomarcas fusionadas do Super-Homem e Batman num dos outdoors de NY, que permanece em exibição por uns bons cinco segundos de duração. Ou mesmo o uso de uma seqüência quase inteira do primeiro Shrek (isso mesmo) que serve de analogia na boca do personagem de Smith durante a segunda metade do filme. Terá a Dreamworks pago pela inserção ou se tratou de apenas uma citação pop, como foi o caso de Bob Marley, sem benefício financeiro algum para a Warner?

Independente de eventuais negociatas, é possível perceber também que, da mesma maneira que houve uma adequação comercial a obra, o filme foi pensado para Will Smith. Ou Will Smith pensou no filme para si. A segunda opção aparenta ser o chute mais acertado. Considerando que o ator participou do resgate do roteiro original, escrito por Mark Protosevich, ao lado do produtor e co-roteirista do script final Akiva Goldsman, não seria de se estranhar. Una isso ao fato de que mais da metade do filme é conduzida por Smith e Abby, a pastor-alemão que interpreta Sam, e você tem uma das experiências cinematográficas mais interessantes produzidas nos anos 00.

Lawrence trabalha o roteiro com talento tremendo, fazendo transbordar os sentimentos dos personagens e das situações para fora da tela. Não há como evitar sorrir quando Neville abre a janela do carro para Sam enquanto eles percorrem a cidade ou de se segurar na cadeira durante o desfecho da perseguição frustrada a um cervo. E o que falar da seqüência no laboratório, responsável pela guinada que o filme sofre no início de sua segunda metade? Sem entregar nada, basta dizer que, é a partir dela que Eu sou a Lenda desanda.

Há uma sucessão de acontecimentos que, gradativamente, vai desestruturando a história. Alice Braga surge em cena e sua participação é relevante justamente nos momentos em que sua personagem tem diálogos curtos, mundanos, ou quando é colocada numa situação tensa — vide a cena do café-da-manhã com ovos e bacon. Ela interpreta Anna, brasileira que sabe-se lá porque não se chama Ana com apenas um ‘n’, e é completamente mal-aproveitada no roteiro. Ela tem dois momentos de destaque: a discussão sobre Deus com Neville, onde serve de escada para ótimas falas do personagem de Smith; e no final sem-graça típico de Hollywood, preparando terreno para uma eventual seqüência. Talento aqui desperdiçado, mas que pode ser visto em seu esplendor no ótimo nacional Cidade Baixa (uma mísera ponta em Cidade de Deus não conta, vamos lá).

Mesmo tropeçando nas próprias pernas no fim do segundo ato e em todo o terceiro, Eu sou a Lenda tem força suficiente para não ser um arrasa-quarteirão descartável. Ora uma ficção científica inteligente ora um drama dos mais consistentes, deve ter seus furos relevados e as falhas sublinhadas; afinal, foram estas últimas que eliminaram sua chance de ter os termos “clássico” ou “cult” usados como adjetivos pelos cinéfilos e críticos mais carrancudos. No mais, resta apenas louvar a melhor atuação de Will Smith em sua carreira e a história de sobrevivência do cientista Neville e sua cachorra Sam, ignorando as sobras da trama da mesma maneira que seu personagem faz, durante boa parte do filme, com a borboleta. Sobras bobas e inocentes como a brincadeira de uma criança.

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Update: segundo o Hector, Eu sou a Lenda é, na verdade, a quarta adaptação do romance de Matheson. A terceira seria essa pérola estrelada por Mark Dacascos.



6 Responses (Add Your Comment)

  1. bom constantine? não dá pra esperar que esse diretor produza um filme cult.

    sem Hollywood não teria Will, e não teria todo o orçamento, ou seja, um outro filme, talvez tão cult quanto Extermínio, que tem zumbis ótimos mesmo.

    mas nesse são zumbis memso ou vampiros albinos, hein hein?

  2. nao li tudo pra não pegar spoiler, mas só pra completar:

    tem mais uma adaptação, anterior - e oportunista - a essa, q eu descobri só agora:

    http://www.theasylum.cc/product.php?id=136

  3. é…o final é decepcionante mesmo.

  4. Eu achei o filme interessante. Não é um simples filme-pipoca, principalmente pelo final, mas não é daqueles filmes memoráveis que nunca vamos nos esquecer. Vale principalmente pela interpretação do Will, que evoluiu, e muito, como ator.

  5. Bom, o filme ficou uma obra de arte, e isso é inegável, pois maquiaram a cidade mostrando a natureza tomando novamente conta do que é dela, ao invés de criar um cenário cinza-azul pós-apocalíptico de ficção científica, ao contrário. Ficou poético. O lançe dos zumbis, que na realidade é mais para vampiros do que zumbi, no filme eles não tem nenhuma conotação destas. São chamados de infectados.
    Apesar do final, que ninguem gostou (eu achei que o final ficou curto), não apaga a qualidade do filme. E de fato, a melhor interpretação de Will Smith, sem dúvida.

  6. Rafael,

    concordo com você em relação a cidade. Em relação aos infectados, eu sei que a idéia é que eles tivessem uma conotação pro lance dos vampiros. Citei os zumbis (do Extermínio) por causa da maquiagem, que não necessitou de nenhum efeito em cgi.

    E não achei o final curto. Apenas muito ruim.

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Adeus, segunda-feira blues!

Desjejum variado, composto por porções de quadrinhos com acompanhamento de cinema e tv, doses de literatura e pedaços bem passados de crônicas, estas com pitadas consideráveis do cotidiano por vezes surreal numa cidade litorânea.

Deus Ex-machina

Pablo Casado teve como pano-de-fundo uma criação cosmopolita; depois, descobriu-se maceioense, alagoano. Escreve quadrinhos, fuma cigarro de palha e usa brincos.

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O autor também pode ser encontrado colaborando com o blog de cultura pop Goma de Mascar; participando do coletivo de quadrinistas Quarto Mundo, do qual é co-fundador; escrevendo para o fanzine literário-alagoano Gaveta; e nos arquivos de notícias, resenhas, entrevistas e artigos do Universo HQ.