A Lenda de Beowulf
dezembro 11th, 2007 • Cinema
Citar Neil Gaiman numa conversa sem associá-lo a Sandman é mais que improvável. Mesmo que ele tenha escrito romances que caíram no gosto da crítica e do público — Deuses Americanos, Filhos de Anansi e Stardust; este último adaptado para o cinema em 2007 —, a obra em quadrinhos de cerca de 60 edições é o referencial mor para qualquer um que conheça o mínimo sobre sua produção.
Isso não quer dizer que sua literatura seja menor ou deva ser desconsiderada perante Sandman. Seria um erro grosseiro. Gaiman, de certo modo, sempre foi um prosador. Sua passagem pelas histórias em quadrinhos foi uma benção para o meio e uma prova incontestável do potencial do mesmo para seus detratores. Mas o que está em questão aqui não é a invasão britânica nos quadrinhos norte-americanos por Neil, Alan, Grant e outros na década de 1980. E sim o retorno, digamos, do roteirista que mostrou a América como um punhado de areia daria vida a um pesadelo.
Ao lado de Roger Avary, parceiro de Quentin Tarantino em Pulp Fiction, Gaiman soube aliar suas qualidades como prosador as de roteirista em A Lenda de Beowulf, animação dirigida por Robert Zemeckis.
Com o fim de Sandman e sua partida para o mundo dos livros, as eventuais passagens do escritor pelo universo da Nona Arte não foram das mais notáveis. 1062 e Eternos, mini-séries que escreveu para a Marvel Comics, foram tiros no escuro com raros lampejos das belas caracterizações e diálogos soberbos, ambos marcas registradas do autor de Orquídea Negra. Compará-los a obras literárias do calibre de Coraline e Stardust, por exemplo, são de um disparate sem tamanho.
A Lenda de Beowulf, adaptação do poema anglo-saxão de autoria desconhecida do século 8, exigiria de Gaiman o timing narrativo dos seus tempos de bom roteirista de quadrinhos. Ou não: quem sabe a presença de Roger Avary foi o elemento-chave para o que se vê na tela — o casamento perfeito entre ação e uma história afiada, pontuada com diálogos ora bem-humorados, ora maduros.
A trama é enxuta: Beowulf, famoso herói e aventureiro, vai as terras gélidas de Heorot defender o Rei Hrotgar e seus súditos do cruel monstro Grendel. A tarefa se mostra complexa quando surge na equação a mãe de Grendel, interpretada através da captação de movimento pela bocuda preferida de todos Angelina Jolie.
A animação em si é estranha nos primeiros minutos. Para quem já assistiu o longa animado Final Fantasy VII, sabe que o resultado obtido pelo diretor Zemeckis ainda é capaz de ir mais longe, seja pela questão dos movimentos dos personagens em cena ou pela rigidez de certas expressões faciais. Mas estes minutos passam e a ótima trama que está se formando é capaz de segurar a atenção da audiência.
O roteiro produzido a quatro mãos, no início da película animada, possui certo ar simplista, beirando a uma inocente história de capa e espada. Longe disso. Com a progressão dos acontecimentos, Beowulf e outros personagens são lançados em questionamentos morais intricados, que ecoam até a última cena do filme. Há diálogos cômicos e sérios, mas nenhum meio-termo piegas, que se fique registrado. A ação é sanguinolenta e heróica, disfarçada justamente pelo elemento “animação” da produção. Objetos são jogados diante da tela ou a câmera dá rodopios nervosos para ocultar a brutalidade dos confrontos.
A Lenda de Beowulf não é um clássico instantâneo. Mas sim, uma grande obra de fantasia medieval, sem os excessos e certos clichês do gênero. Algo que me fará lembrar do Neil Gaiman roteirista inspirado de quadrinhos. E de Roger Avary, o fiel escudeiro.
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