Corujão Cine Sesi II
agosto 16th, 2007 • Cinema, Paraíso das Águas
Em junho deste ano, o Cine Sesi encerrava a programação referente à comemoração de um ano de atividade de sua única sala de cinema, voltada para a exibição de filmes diferenciados, em sua maioria off-mainstream. A festividade foi coroada com a realização do primeiro Corujão Cine Sesi, no dia 2 do referido mês, com a projeção madrugada adentro de uma trinca de longa-metragens internacionais.
Foram escalados Dias Selvagens, do comentado diretor chinês Kar Wai Wong; C.R.A.Z.Y. - Loucos de amor, excepcional drama familiar canadense de Jean Marc-Valée; e Notas Sobre um Escândalo, adaptação do livro de mesmo nome e estrelado por Cate Blanchett e Judi Dench, na época popular pelas indicações recebidas para o Oscar. As exibições foram pontuadas por rápidos intervalos e inserções artísticas, como o breve show do cantor Elieser Setton e a mostra de clipes de músicos alagoanos.
Apesar da desconfiança de parte do público, dias antes da maratona ocorrer todos os ingressos foram vendidos, deixando alguns cinéfilos na mão. Parte deles, no entanto, foi ao Cine Sesi no dia do evento - os mais persistentes conseguiram comprar entradas para sentar ou deitar-se no chão da sala de exibição. O verdadeiro amontoado de gente que se viu antes do primeiro filme ser projetado foi a prova de que havia - e há - público para filmes independentes e de arte; ausentes durante boa parte do ano nas salas mantidas pelo grupo Severiano Ribeiro, que nem seus blockbusters consegue exibir de modo competente na capital alagoana.
Ao final da maratona, quando a audiência sobrevivente dirigia-se para a mesa com o café-da-manhã oferecido pelo próprio Sesi, a pergunta que permaneceu no ar foi: quando seria o segundo Corujão?
2.0
Não tardou para que os anseios cinéfilos fossem saciados: pouco menos de dois meses após a realização do primeiro Corujão, a direção do Cine Sesi confirmou o segundo. E se o ditado sentencia que “um é pouco, dois é bom…”, sua programação não poderia deixar cair a peteca do primogênito.
Para o Corujão Cine Sesi 2, foram elencados o curta-metragem Texas Hotel, do diretor pernambucano Cláudio Assis (e anterior a Amarelo Manga, onde o “Texas Hotel” do título figura como um dos cenários); o polêmico longa Baixio das Bestas, também de Assis, que teve sua presença no evento confirmada para um bate-papo com a platéia; o espanhol Princesas e o norte-americano Zodíaco, do excelente David Fincher (Se7en e Clube da Luta).
Com data marcada para acontecer no sábado 4 de agosto, os ingressos para o Corujão 2 foram colocados a venda apenas no dia 2. Assim, o evento poderia ser melhor divulgado e os interessados teriam como se organizar para garantir suas entradas. Considerando o público da primeira edição, esperava-se que a procura fosse grande… mas não tão voraz.
Os 160 ingressos disponíveis, que começaram a ser comercializados a partir das 16 horas, esgotaram no próprio dia 2, pouco depois das 18 horas. Inclusive, fui eu o penúltimo a adquirir dois dos quatro que restavam no guichê do Cine Sesi na referida data. Os quinze minutinhos que sai antecipadamente do trabalho e o ônibus que pontualmente catei me ajudaram a não ficar de fora.
Engraçado foi acompanhar a saga dos que chegaram depois de mim, na ingênua expectativa de que ainda haveria uma boa quantidade de ingressos sobrando. Aproveitei a ida ao Cine Sesi e, além de garantir o meu lugar e o da Ana no Corujão, decidi assistir a’O Hospedeiro, filme coreano de monstro. Foi enquanto eu esperava o início de sua sessão, sentado no extenso e frio banco do corredor, que outros cinéfilos deram as caras.
Um grupo acabou ficando por ali, aguardando a possível chegada de Marcos Sampaio, gerente responsável pelo Cine Sesi, para discutir a possibilidade de existirem entradas extras. Fiquei de bate-papo variado com a galera até dar a minha hora. Desejei boa sorte e enfiei-me na sala. Descobri no dia do Corujão que cerca de 16 ou 18 ingressos a mais foram vendidos para aqueles cinéfilos, com a especificação de que eles davam direito a um lugar no chão da sala - e não a cadeiras extras. Um almofadão azul foi fornecido aos corajosos para que eles tivessem o mínimo de conforto durante a maratona.
Dia 4 chegou, e lá fomos nós. Por uma confusão de horário minha, demos as caras quase duas horas e meia antes das portas da sala do Cine Sesi se abrirem - algo que só aconteceu por volta das 23 horas. Mas se engana quem acha que fomos os primeiros: dois sujeitos e uma mocinha já estavam lá, empacotados e no aguardo. Apenas no momento de formar a fila é que tomamos a dianteira, repetindo o feito nérdico - “constrangedor”, diria a Ana - da exibição de 300 de sermos os primeiros a entrar e escolher os lugares na sala.
(Que, na prática, não se repetiu, porque fomos obrigados a dar passagem aos idosos que ali estavam. Paciência.)
TEXAS HOTEL
Os trabalhos foram abertos com o curta-metragem Texas Hotel, dirigido pelo pernambucano porra-louca Cláudio Assis, com roteiro do próprio ao lado de seu parceiro, Hilton Lacerda. Rodado em 1999, o filme mostra o cotidiano ora conturbado ora surreal da hospedagem que lhe dá nome, localizado no centro da cidade do Recife.
A película apresenta elementos e personagens que dariam fama a Assis em seu primeiro longa, o cruel Amarelo Manga.
O veterano Jonas Bloch, por exemplo, interpreta em Texas Hotel uma versão leve e em forma de rascunho daquele que viria a encarnar em Amarelo Manga. No primeiro, a ligação de seu personagem com a morte se resume a um caixão que ele usa para dormir; no segundo, a necrofilia de sua persona fictícia vai do contato visual com cadáveres aos absurdos sonhos com os mesmos, em situações permeadas com um alto teor de excitação.
Em entrevista ao site Contracampo, no entanto, Assis declarou que não “plagiou” a si mesmo, indicando que o roteiro de Amarelo Manga já estava escrito na época em que Texas Hotel era realizado.
Conflitos criativos à parte, Texas Hotel não possui a crueldade visual dos dois longas posteriores do diretor. O que não quer dizer que seja uma produção menos impactante ou mesmo fraca. Há um retrato sincero do (sub)mundo das pessoas que nele aparecerem e uma câmera que se dá ao direito de captar interessantes imagens alegóricas - como a seqüência giratória no quarto da gorda viciada -, além de registrar as ótimas tiradas de humor negro presentes no roteiro. Vale registrar também a passagem do músico Otto no começo do filme, que, junto com outro ator, interpreta um argentino que chega a recepção do hotel querendo uma faca. Coisa boa não podia sair disso…
A ótima trilha sonora ficou por conta de Jorge du Peixe e Lúcio Maia, respectivamente vocal e guitarrista da banda Nação Zumbi.
BAIXIO DAS BESTAS
Texas Hotel, de certo modo, foi exibido como aperitivo para o alardeado prato principal da noite: Baixio das Bestas, o longa mais recente de Cláudio Assis. Deixando a decadência urbana de Amarelo Manga para trás, o diretor partiu para o interior de Pernambuco e sua decadência rural. Um retrato familiar para qualquer cidadão nordestino que já vislumbrou, via telejornal ou in loco, a realidade da população que sobrevive na zona rural.
Sobreviver é, talvez, o principal verbo a ser conjugado por Baixio das Bestas. Algo que toma forma nas duas cenas inicias do filme.
Na primeira delas, imagens de usinas de cana-de-açúcar são exibidas de modo estático e sujo, acompanhadas por um texto em off sobre a perpetuação do sistema monocultural que tanto sangra a população interiorana. Em seguida, na segunda tomada, vemos o velho e desagradável Heitor despir sua jovem neta, Auxiliadora, nos fundos de um bar de beira de estrada. Quando a cena abre, somos apresentados a uma platéia de caminhoneiros nômades, que se masturbam diante dela numa sessão coletiva de pedofilia.
Assis não tem papas na língua. Não só na vida real, como demonstrou no bate-papo após a exibição de seu filme, como com sua câmera. Não há concessões em Baixio…, algo que já havia ficado claro no anterior Amarelo Manga. A diferença principal entre ambos é que não parece haver a exaltação disfarçada na desgraça retratada em Amarelo… no seu longa mais recente. A realidade apocalíptica na zona da mata não parece precisar de atenuantes visuais.
Baixio… foi feito para incomodar. E a visceralidade desse incomodo vai te revirar o estômago. O sexo aqui está longe de ser sinônimo de prazer - há três seqüências com estupros na narrativa. Violência que não serve apenas para retratar uma realidade, mas para atuar como uma alegoria generalizante de como as pessoas naquela região estão presas em engrenagens viciadas, que as impulsionam para a desgraça certa.
Auxiliadora é usada por Heitor, seu avô, com a desculpa de que eles precisam de dinheiro para se sustentar dignamente; para conseguir isso, vale descer diversos degraus na escala do humano. Os agroboys Everardo (numa atuação fantástica de Matheus Nachtergaele) e Cícero (Caio Blat, tão bom quanto seu parceiro de atuação), além de alguns amigos, vivem para beber, fumar maconha, se masturbar num cinema abandonado e fazer orgias ferozes com as parcas prostitutas da cidade. Eles não têm rumo certo na vida, e seu caminho segue direto para a auto-destruição.
No centro do pequeno universo da história, temos também os cortadores-de-cana e autônomos - vivendo à margem das plantações, sonhando com o dia em que o Maracatu, arte popular que eles mantêm com amor surpreendente, seja realmente valorizado. Retratação que pode soar estranho para alguns. Afinal, a imagem que se tem de Pernambuco é a de um estado bairrista (no bom sentido), que sabe ressaltar os valores e tradições de seu fértil terreno cultural.
Ambas as caracterização são verídicas. O que Assis mostra no filme são justamente aqueles - que creio ser a maioria - que ficam de fora. Grupos folclóricos que ganham 1.000 Reais (a serem divididos entre várias pessoas) para uma apresentação, mais o lanche, na capital Recife, e acham tudo aquilo uma maravilha. Não é: essas pessoas guardam as memórias da cultura popular de muitos anos, algumas em vias de extinção, de parte do povo brasileiro. Eles vivem em condições precárias e, hoje, costumam carecer de aprendizes. Jovens em formação que deveriam ser instruídos para perpetuarem o conhecimento que os mais velhos carregam.
Realidade que eu encontro aqui em Alagoas. Não apenas essa “realidade”, mas toda “as realidades” mostradas na película. Além da talentosa execução e das atuações - onde não posso deixar de destacar Mariah Teixeira, a menina Auxiliadora, um assombro de atriz -, Baixio das Bestas é um tratado sobre como a ganância e a ignorância lançaram a população do campo num verdadeiro regime escravo disfarçado.
BATE-PAPO COM CLÁUDIO ASSIS
Cláudio Assis não é uma figura que se destaque na multidão. Apesar do boné e das roupas teoricamente para jovens, ele é um típico senhor descolado contemporâneo - da linha dos que usam All Star, apesar de eu não ter visto um par dos mesmos em seus pés. Quando foi convidado ao palco do Cine Sesi e se arrumou na cadeira branca de plástico, por alguma razão, a platéia se intimidou. A primeira pergunta demorou segundos demais para sair.
Mas saiu. Depois disso, a coisa andou.
Assis não se intimida. Fala tudo, mas sem tentar ser ofensivo. É o seu jeito ser desbocado. Quando perguntado da polêmica com o diretor argentino Hector Babenco, o pernambucano desmentiu que a confusão - ocorrida durante a entrega do Grande Prêmio TAM do Cinema Brasileiro - aconteceu pelo fato de Carandiru ter ganho como Melhor Filme no lugar de seu Amarelo Manga. Mas sim, graças a uma entrevista que Babenco concedeu a um telejornal na Argentina, onde teria chamado o povo brasileiro de idiota.
Assis pontuou que Babenco não tinha liberdade para nos criticar de tal modo, principalmente depois de ter comido da nossa comida e de ter usufruído nossas riquezas - incluindo aqui as verbas federais, vindas das leis de incentivo, para alguns dos filmes dele, como Carandiru.
No decorrer da discussão, sobrou até para as vítimas do acidente com o vôo 3054 da TAM, em Congonhas: para o diretor, a supervalorização da mídia pelo assunto se deveu por se tratarem de pessoas da classe média. Redigido assim, meio que fora de contexto, parece que Assis mostrou desprezo pelo caso e seus vitimados, quando isso não é verdade. Sua crítica estava focada no modus operandi de parte da imprensa em relação ao caso, citado, claro, como um exemplo atual.
Voltando a falar sobre cinema, ele ressaltou a questão da responsabilidade em relação ao dinheiro público que é obtido através das leis de incentivo. Sua intenção não é fazer filmes que sejam extensão dos padrões das novelas da Globo, mas produções que causem reflexão e debate. O que levou a uma integrante da audiência questionar sobre a violência e o sexo em seus filmes. “Porque na vida tem sexo, tem violência”, começou a explicar. E mostrou estranhamento pela reação das pessoas com ambos os elementos. “Tem uma cena de estupro de 11 minutos no Irreversível, e dizem que cult”, destacou, citando também os filmes do diretor Quentin Tarantino. “E os meus filmes são violentos”.
“Eu não faço concessões nos meus filmes”, declarou Assis, num discurso sobre estética e conteúdo de sua obra que durou cerca de dois minutos. Quer queira ou não, o trecho citado no início deste parágrafo é o que melhor define o diretor - um artista que não se encaixa no gosto do mainstream, obviamente, e nem é mesmo unanimidade no cenário indie. Mas que merece ser assistido. Mesmo que apenas uma vez, caso o seu estômago não seja dos mais fortes.
PRINCESAS
Algo no pôster da produção espanhola Princesas, escrito e dirigido por Fernando Léon de Aranoa, denunciava: este seria o filme mais “leve” da maratona do Corujão II. O que viria de bom grado, consideração as exibições anteriores e a seguinte - Zodíaco, de David Fincher. Não apenas a pretensiosa chamada no cartaz (”no mesmo estilo de Almodóvar” ou algo parecido) como a minha expectativa foram por água abaixo.
A proposta do filme não era de todo mau: trata da amizade entre duas prostitutas, uma espanhola e uma dominicana, e dos conflitos entre as profissionais do sexo locais e a invasão das estrangeiras, que, por cobrarem mais barato, estavam abocanhando boa parte de seus clientes. A “vida fácil” e seus revezes ficam responsáveis por colocarem Caye, a nativa, em contato com Zulema, um bela estrangeira.
Aranoa perde a boa história que tinha nas mãos por - além de alongá-la demais - não se definir quanto ao teor de seriedade da mesma. Ele não se decide em tratar com leveza caricata o tema, e acaba enfiando aqui e acolá seqüências com tamanha violência psicológica que mereciam um tratamento mais apurado. Para efeito de exemplificação num contexto brasileiro: numa hora, o filme fica muito novela da Globo para o meu gosto.
Há, sim, alguns méritos da película. Mas eles acabam se tornando irrelevantes quando estamos falando de uma maratona cinéfila, e não existe uma química imediata entre audiência e filme. O que é apenas a minha humilde opinião: afinal, parte do público aplaudiu quando a projeção chegou ao fim. Agora, se foi uma salva irônica ou sincera, cabe a quem estava lá dizer.
ZODÍACO
Sobrou para a nova empreitada do diretor norte-americano David Fincher encerrar o Corujão II do Cine Sesi. Tarefa ingrata, considerando o cansaço visível em parte da platéia e da proposta filme. Da mesma maneira que Se7en se diferenciou dos filmes de serial killer da época e Clube da Luta foi um grande tapa na cara ao analisar o papel do homem nos anos 90 como consumidor-compulsivo, não era de se espantar que Zodíaco tivesse lá seu diferencial quanto às películas de “romance policial” de hoje.
Na história, Jake Gyllenhaal interpretá Robert Graysmith, cartunista do periódico San Francisco Chronicle que, ao se deparar com a primeira notícia referente ao assassinato de estréia do serial killer auto-intitulado Zodíaco, fica fascinado pelo caso. Assim como o personagem de Gyllenhaal, outros serão tragados para o verdadeiro quebra-cabeças armado para se descobrir a identidade do criminoso. Entre eles, o detetive Dave Toschi, numa atuação competente de Mark Ruffalo, e o jornalista Paul Avery, caracterizado pelo (quase) sempre excêntrico Robert Downey Jr.
Adaptação de dois livros do Robert Graysmith da vida real, Zodiac e Zodiac Unmasked: The Identity of Americas Most Elusive Serial Killer Revealed, o filme Zodíaco foge do que se espera de um do gênero: a descoberta da identidade do assassino após uma intensa investigação (leia-se aqui perseguições de carro, corre-corre e qualquer outra coisa para sacudir a adrenalina do espectador). A idéia dele está em mostrar os conflitos causados pelo caso na vida daqueles que se encontraram envolvidos em sua investigação.
Fincher casa a direção de elenco com a de filmagem, aplicando seu estilo e talento sem minimizar as atuações. Quem ficou com os olhos bem abertos durante a exibição, pôde assistir ao melhor filme da noite, IMHO. Da “roqueira” e estilosa cena do primeiro assassinato a seqüência hitchcockiana do porão, Zodíaco pode ser considerado por alguns um filme “parado”. Dependendo das suas expectativas, talvez seja. Para mim, muita coisa aconteceu nas mais de duas horas de filme. As vidas de algumas pessoas saíram dos trilhos - e é este descarrilhamento coletivo que vale o ingresso.

Nota: As fotos que ilustram este post, com exceção da primeira, fazem parte do álbum de imagens do Sesi Alagoas sobre o evento.
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