As Melhores Histórias em Quadrinhos de 2006
janeiro 27th, 2007 • Arte Seqüencial
2006 foi um ano de boas publicações nos meios mainstream e indie norte-americano. Como meu bolso esteve bem apertado, o orçamento de quadrinhos teve que se restringir aos materiais estadunidenses – apesar de lançamentos bem recomendados de mangás e edições européias, fiquei com aquilo que tinha mais possibilidade de me agradar.
Claro: rolou também as edições pirateadas, aquelas baixadas no DC++’s, rapidshares e similares da vida. Não tanta coisa, porque o quadrinho impresso não é formatado para uma leitura agradável na tela do micro, e você se cansa depois de um tempo. Fato. Mas certas coisas são irresistíveis e precisam ser lidas, para quem sabe depois, com uma grana folgada, serem adquiridas.
Então, a lista é uma mistureba só: envolvem publicações lançadas em solo brasileiro e norte-americano. Não fiz distinção entre edições fechadas, mini e máxi-séries, novelas gráficas, etc. Escolhei dez obras que me agradaram, e ponto final. Abri espaço até para umas menções honrosas, porque não foram apenas dez gibis que me fizeram a cabeça no ano que se passou.
É isso aí. Chega de enrolação. Boa leitura.
1. Sete Soldados da Vitória

Para vencer uma ameaça até então desconhecida e impedir a destruição da Terra, sete super-heróis precisam ser convocados para o campo de batalha. Mas o triunfo só virá, no entanto, caso eles permaneçam separados e lutem sozinhos contra os Sheeda.
Este foi, provavelmente, o maior lançamento no mainstream norte-americano em 2006. Não só no que diz respeito ao seu tamanho (duas edições especiais e sete mini-séries de quatro edições cada), como também na proposta e no ego de seu idealizador: o escocês Grant Morrison.
Apesar de alguns pequenos tropeços no percurso, a mega-saga modular do criador de Invisíveis mostrou-se melhor e mais coesa que os blockbusters do ano que passou – Crise Infinita e Dinastia M, sem contar a inacabada Guerra Civil.
Tendo ao seu lado um invejável elenco de ilustradores, coloristas e letristas, o escritor elevou à potências incríveis personagens de escalões inferiores da DC Comics. Os destaques ficam por conta da Edição #0, o melhor número de estréia que se podia esperar; a insana mini-série do Frankenstein; e o deslumbrante trabalho de J.H. Williams nas Edições #0 e #1 (nesta última, ele emulou o traço dos desenhistas de todas as minis, encaixando-o com seus respectivos personagens. Sensacional.).
2. Fell

Richard Fell é um detetive acima da média. Sua incrível capacidade de interpretar o comportamento humano, desenvolvida através de seus estudos de programação neurolingüística, o tornaram especial dentro da força. Mas, por alguma razão, ele foi obrigado a enfrentar uma transferência. Agora, Fell é parte integrante do reduzido departamento de homicídios de Snow Town, um distrito onde a violência e estranhas crenças urbanas tomam conta das ruas.
Fell, por muito pouco, não ganha como melhor quadrinho de 2006. Apesar disso, é a minha série policial preferida no atual mercado norte-americano. Porque Warren Ellis pensou em tudo para criar uma série magnífica.
Comparada ao primeiro lugar, Fell tem uma similaridade: a proposta de brincar com os formatos convencionais do quadrinho estadunidense. Em apenas 16 páginas, Ellis e seu comparsa, o australiano Ben Templesmith, contam excelentes histórias fechadas (que, de algum modo, devem se conectar no futuro quando a série chegar ao fim). E isso não é fácil – o escritor britânico entra na dança com uma média de 9 quadros por página, todos uniformes dentro da narrativa. Trabalho apenas para quem conhece os segredos do jogo.
Como um fã de dramas policiais, eu fui conquistado por Fell logo no primeiro número. Suas histórias são intensas, o ambiente urbano é estranhamente assustador e seu elenco de apoio é fantástico – do chefe viciado em pílulas à bizarra freira com a cara do Richard Nixon, esse é um gibi ducacete.
3. Demolidor – fase Brian Bendis & Alex Maleev

Matt Murdock nunca teve vida fácil. Apesar de válvula de escape para as mazelas que o acometeram quando criança, o manto do Demolidor é o principal motivo de seus problemas enquanto adulto. E sua vida dupla se mostrou ainda mais complicada quando sua identidade secreta cai nas mãos de um popular jornal nova-iorquino. Fato que irá lançar sua existência num caminho extremamente tortuoso.
Antes de tudo, é preciso esquecer (em parte) quem é o escritor dessa fase: não há vez para o Brian Bendis mainstream, autor de trocentos gibis por mês, em Demolidor. Não se trata do sujeito que escreve as aventuras ultimate do Homem-Aranha ou dos pretensiosos Novos Vingadores. Estamos falando do car(ec)a por trás de pérolas como Alias.
Inspirado numa linguagem visual cinematográfica (calcada na descompressão dos eventos) e no modo como o drama é desenvolvido nos bons seriados do gênero na TV americana (Lei e Ordem, O Desafio, The Shield), Bendis desconstruiu o status no qual o vigilante se encontrava, para então fazê-lo renascer de modo soberbo.
Auxiliado pelo trabalho photoshopado-impressionista (porque esta é a única definição que consegui imaginar) de Alex Maleev, o escritor criou uma intricada novela repleta de ação, gangsterismo, traições e reviravoltas. O colante vermelho do super-herói, no fim, recebeu um significado e peso completamente diferentes do que fora visto anteriormente. Bendis, com isso, ganhou assento cativo no mesmo andar que o de Frank Miller – aquele no qual o trabalho de um autor, com determinado personagem, jamais poderá ser comparado ao de outro.
O mundo do Homem Sem Medo, depois de Brian Bendis, não tem como ser o mesmo.
4. Planetary

Num mundo povoado por super-humanos, vários segredos estão ocultos da realidade mundana. Segredos capazes de elevar a raça humana. Para desencavá-los e usá-los em nome do homem comum, uma peculiar organização decidiu empregar enormes somas de dinheiro e um grupo de três especiais meta-humanos. Essa organização se chama Planetary.
Em 1998, Warren Ellis e John Cassaday davam início a melhor e mais inventiva série de super-heróis dos últimos anos. Em 2006, após 26 edições publicadas de modo irregular, as aventuras dos Arqueólogos do Impossível – Elijah Snow, Jakita Wagner e Baterista – chegaram ao fim.
Ellis partiu da premissa de que os super-heróis não estão restritos apenas a indivíduos em uniformes apertados, e voltou os olhos para a ficção científica, aventura e ação; gêneros que deram origem ao mundo dos colantes coloridos nos quadrinhos do Tio Sam. O resultado: fantásticas histórias fechadas apresentadas em cada novo número, as quais o escritor gostava de definir como singles grudentos de 3 minutos.
Planetary (assim como The Authority) lançou Ellis ainda mais no mainstream norte-americano – não só como um escritor competente, mas como um estudioso de seu ofício. John Cassaday também teve a sua parte: a evolução de seu traço o transformou num dos ilustradores queridinhos do público, levando a Marvel a colocá-lo como desenhista de Astonishing X-Men, de Josh Whedon.
Repleta de referências as mais diversas camadas da popesfera, Planetary é uma revista em quadrinhos que deixará diversos órfãos. Um dos grandes clássicos recentes.
5. All Star Superman

Visando responder à linha Ultimate da Marvel Comics e suas versões revisitadas, ‘realistas’ e comandadas por artistas da moda, a DC formatou a linha All Star – versões revitalizadas de seus grandes medalhões, Batman e Super-Homem, comandadas por artistas da moda. O diferencial é que o elemento “realista” foi mandado para o espaço. E é aí que as histórias do Homem de Aço por Grant Morrison tomam os céus.
O caso entre a Era de Prata dos quadrinhos de heróis norte-americanos e o escriba escocês não é de hoje; e é inegável que eles formam um belo casal. Sua fase em JLA, não esquecendo a habilidade que Morrison possui em ressuscitar conceitos em baixa, é uma prova incontestável disso. Ao lado de sua alma gêmea criativa (segundo o próprio autor), Frank Quitely, o autor finalmente teve a oportunidade num título solo com seu herói preferido.
All Star Superman é uma ode ao mito do Homem de Aço. Do começo ao fim das seis edições lançadas até o momento, Morrison declara seu amor ao último filho de Krypton em histórias de vertiginosa diversão. O começo é algo memorável: numa única página, com quatro painéis simbólicos e um recordatório com duas palavras para cada um deles, a origem recontada do Super-Homem pelas mãos de Morrison e Quitely precisa entrar para a história do super-herói.
Ainda estamos no meio do caminho para podermos afirmar que a maxi-série em 12 números pode ser a história definitiva do personagem; mas, até agora, a leitura tem valido a pena. E muito.
6. Desolation Jones – Made in England (1 a 6)

Imagine que seu corpo foi vendido à ciência. Em seguida, você é submetido a um experimento peculiar: ficará, durante o período de um ano, acordado, confortavelmente preso a um divã numa sala repleta de televisores. Para mantê-lo desperto, doses diárias de algumas drogas serão injetadas em seu corpo. A alimentação também será realizada de modo intravenoso. Sua função, basicamente, consiste em assistir aos monitores. Neles, serão exibidas imagens de violência. Dos mais diversos tipos. O intuito é simples: o que acontecerá com você depois desse um ano, exposto a tanta degradação?
Seja bem-vindo ao Teste da Desolação.
Dessa premissa absurda, Warren Ellis deu vida a Michael Jones – ex-agente secreto do serviço britânico dado a bebedeiras, que teve a vida destroçada após o experimento. Forçadamente aposentado, Jones é enviado para Los Angeles, cidade que serve de prisão “aberta” para ex-espiões, e decide prestar serviços como detetive particular dentro de sua ‘comunidade’.
Além das referências pop, Ellis invoca os espíritos de Philip K. Dick e Raymond Chandler para compor a trama – permeada de reviravoltas até a última página, literalmente. J.H. Williams dá um show na arte, ilustrando páginas duplas a torto e a direito; uma provável reminiscência de seu trabalho anterior com Alan Moore, Promethea.
Leitura obrigatória para os amantes de ultra-violência, espionagem e mistério.
7. American Virgin – Head (1 a 4)

Adam Chamberlain não é um rapaz qualquer. Ele é um ícone. Bonito, repleto de saúde e de bem com a vida, seu trabalho, como bom cristão, é levar aos outros jovens norte-americanos a seguinte mensagem: é preciso se guardar para o verdadeiro amor. Ou “não façam sexo antes do casamento”. Ele crê que Deus lhe deu essa missão… até que um fato brutal acontece na África.
Steven T. Seagle não foi um escritor que deu sorte com super-heróis. Sua passagem pelos X-Men foi desastrosa, graças, principalmente, às interferências editorias da Casa das Idéias. E no Super-Homem ele passou batido. Sempre que seu nome foi bem citado, o trabalho havia sido publicado pela Vertigo. Dessa vez, não é diferente.
Com American Virgin, ele bate de frente com os paradigmas que envolvem religião e sexo nos Estados Unidos, levando o protagonista numa viagem pessoal de muitas facetas. Becky Cloonan (DEMO), é quem comando o lápis aqui, e comanda bem. Seu traço, que mistura influências do mangá, é explosivo nas demonstrações dos sentimentos. Só cai quando a arte-final não é dela, mas de Jim Rugg.
Um começo promissor para uma série que tem tudo para dar certo.
8. DMZ – On The Ground (1 a 6)

Num futuro próximo, guerras civis estraçalharam os estados norte-americanos, sendo este um resultado direto da política externa do país – principalmente no que diz respeito à invasão do Iraque. No caos que se instalou, a ilha de Manhattam tornou-se ume terra de ninguém, uma DMZ; no ramo da ciência da computação, a sigla significa DeMilitarized Zone (zona desmilitarizada), e trata-se de uma pequena rede situada entre uma rede confiável e uma não confiável. É nesse cenário que Matt Roth, jovem fotógrafo jornalístico, acaba parando por acidente, e começa a relatar o dia-a-dia do lugar.
A série escrita por Brian Wood e ilustrada por Riccardo Burchielli, publicada mensalmente nos states sob à batuta da Vertigo, é mais uma daquelas provas de que as histórias em quadrinhos merecem ser levadas à sério. Conclusão que vale, obviamente, para os leigos e/ou jornalistas que descobriram a Nona Arte por causa das adaptações cinematográficas de V de Vingança, Homem-Aranha, Estrada para a Perdição… ou simplesmente porque falar de gibis está na moda.
Apesar do traço de Burchielli não ter chegado a sua maturidade, ele cumpre profissionalmente com seu trabalho, fazendo com que o leitor se volte para o roteiro crítico e apurado de Wood. Não é a toa que a reflexão que ele faz em suas histórias tenha levado DMZ a figurar em reportagens políticas de importantes jornais estadunidenses.
9. Supremos Vol. 2

Eles foram reunidos pelo governo norte-americano com o pretexto de combater a onda de super-humanos emergentes ao longo do país. Um ano depois de terem salvo o mundo de uma invasão alienígena, o verdadeiro objetivo dos Supremos é revelado: manter a soberania dos Estados Unidos no planeta.
Se DMZ é a melhor crítica a questão da política externa estadunidense no âmbito da ficção científica urbana, Supremos o é com super-heróis. Basta você se esquecer que este é o mesmo Mark Millar hypado de Guerra Civil, e focá-lo como o sujeito que levou o Authority a um novo nível. Coincidentemente, é Bryan Hitch, o desenhista que ganhou status de super-star com a equipe de heróis criada por Warren Ellis, que guia o lápis da série da Marvel, elaborando fantásticas páginas de um filme em quadrinhos.
Mesmo não tendo chegado ao fim – nem aqui nem nos Estados Unidos –, Supremos não pode deixar de figurar na minha lista. Ou coisas como a carta deixada por Bruce Banner após o seu “julgamento” e a invasão dos EUA pelo verdadeiro Eixo do Mal não são seqüências antológicas?
10. NextWave

Eles são heróis de segunda, terceira… décima categoria. E foram enganados por uma organização terrorista disfarçada, e agora precisam impedir que a mesma utilize seu material bélico contra o povo norte-americano. Liderados por Monica Rambeau, ex-Fóton e atual Capitã Marvel, eles são a NextWave. Literalmente, a próxima onda!
Fazia tempo que um gibi de super-heróis não era tão engraçado. Algo parecido só foi visto do final dos anos 80 para o início dos 90 com a Liga da Justiça de Giffen, DeMatteis e Maguire. O grande diferencial aqui é que Warren Ellis e Stuart Immonen não dão o mínimo de peso dramático as aventuras de seu time. As situações mais escrotas acontecem com os heróis e você não consegue parar de rir. É de passar mal de um jeito bom.
MENÇÕES HONROSAS
Casanova

Matt Fraction e o brasileiro Gabriel Bá jogaram ácido em páginas em branco, criando assim as aventuras temporais de Casanova Quinn – agente duplo, canalha e conquistador por natureza. Enquanto Fraction se diverte com seus diálogos pop carregados, Bá trabalha com maestria no preto e branco, pincelado em seguida por tons de verde precisos. A Image lança, ainda no primeiro semestre de 2007, Luxuria, o encadernado com as sete primeiras edições do gibi. Corra atrás.
Homem-de-Ferro: Extremis

Warren Ellis escreveu apenas um arco em seis partes para o personagem e fez a melhor história do mesmo em anos. Atualizou a origem e a própria concepção do herói e sua armadura, tudo muito séc. XXI. Adi Granov encaixou-se como uma luva. Ficção científica com heróis que dá gosto em ler. Pena que a Marvel está ferrando tudo, como sempre.
Justiceiro MAX – Fase Garth Ennis

Garth Ennis não é mais o mesmo há quase uma década. Na verdade, ele simplesmente deixou de ser a sensação do momento e virou uma sombra de seus trabalhos de destaque, Preacher e Hitman. Mas em suas histórias com o Justiceiro, ele tem alguns momentos de brilhantismo. ‘Inferno Irlandês’ e ‘Mãe Rússia’ são arcos que te prendem. A Panini lança a bacana ‘A Cela’, one-shoot de Ennis, numa edição especial do personagem – mas ainda não deu sinais de publicar Punisher: The End, a melhor coisa que o escritor fez com o personagem.
Supermarket

Brian Wood é o cara da crítica social nos quadrinhos indies: nesta minissérie em quatro edições, ilustrada pelo fenomenal Kristian Donaldson, a sociedade, num futuro próximo, é dominada pelo sistema financeiro. Nesse cenário onde o dinheiro manda, Pella Suzuki precisa fugir da Yakuza e da Máfia Pornográfica Sueca depois que seus pais são assassinados. Mini-série Divertida e inteligente, como qualquer HQ que se preze deve ser.
NOS ACRÉSCIMOS DO SEGUNDO TEMPO…
O Imortal Punho-de-Ferro e Nightly News

Essa duas mini-séries foram lançadas no finalzinho de 2006, e valem a pena dar uma olhada. Na publicação da Marvel, Ed Brubaker e Matt Fraction dão um clima parecido ao que Bendis utilizou em Demolidor para tornar Daniel Hand, o Punho-de-Ferro, um personagem tridimensional e interessante. O gancho ao final da primeira edição é muito bacana. Na arte, David Aja não fica à sombra dos escritores.
Na mini lançada pela Image, o estreante Jonathan Hickman – formado em Arquitetura e Design -, escreve e ilustra uma das HQ’s mais visualmente bem boladas do mercado. Sua trama mostra uma seita que parte com tudo para cima da imprensa, a qual ela acusa de manipular a massa humana. Daí em diante, é jornalista sendo baleado na cabeça pra baixo. Mas você precisa ler para entender que esse gibi é MUITO bom.
Considerações finais
Se você conseguiu encarar todo o texto, parabéns e obrigado. Eu simplesmente decidi não consultar a minha coleção – seja ela a real ou a virtual – e ir escrevendo de cabeça. Assim, a lista saiu mais sincera. Afinal, eu devo ter recordado justamente das HQ’s que mais me agradaram em 2006.
As leituras de 2007 já começaram e tudo caminha para uma nova lista. E você, fez a sua de 2006?
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