O Cálculo da Origem
novembro 1st, 2006 • Arte Seqüencial, Linha de Produção
Era um sábado à tarde e fazia um tempo agradável. Agradável, é claro, para os padrões maceioenses: sol ameno circundado por um belo conjunto de nuvens pálidas e acompanhado pelo fundo azulado do céu litorâneo nordestino. A ocasião em questão, para os então presentes Thiago Oliveira, André Dantas, Emanoel Melo, Emerson Magalhães, Jaguar e eu, era corriqueira naqueles tempos.
Estávamos levando adiante mais uma das nossas mesas-redondas criacionistas. Mais uma das reuniões sem-número do rascunho de estúdio de quadrinhos “NAPALM! Comics”.
Sentados num dos bancos cimentados ou de pé no meio das passarelas da unidade no bairro do Poço do Sesi, trocávamos e lançávamos idéias para histórias em quadrinhos que poderiam vir a preencher páginas extras de uma publicação impressa imaginada por nós. Não devia fazer um ano que nosso projeto estava inserido na incubadora cultural do Sebrae Alagoas, a InCult, e que podíamos nos gabar de, através disso, termos tido a oportunidade de embarcar para Belo Horizonte, onde participamos da terceira edição do FIQ (Festival Internacional de Quadrinhos). A discussão girava em torno de oito páginas que deixaríamos livres numa revista que teria a série Strangers, do Jaguar, como carro-chefe. “NAPALM! Apresenta” era o título do material, sem bem me recordo.
As lembranças ficam confusas quanto a quem deu o primeiro passo em relação ao que fazer com as tais oito páginas: André ou Emanoel, não consigo descobrir agora, jogou a idéia de que, em conjunto, eles dois e eu poderíamos escrever, cada um, uma série de histórias isoladas que, de algum modo, coexistiam num mesmo universo. Após a excitação com este primeiro lampejo, veio a sugestão de que deveríamos criar, dentro do cenário que desenvolveríamos posteriormente, histórias em quadrinhos com base em gêneros fora do nosso paladar ficcionista ou mesmo que nos causasse certa dificuldade.
Basicamente, optaríamos por temas que evitávamos escrever quando criávamos qualquer coisa, não importando a razão primária. Assim, além de preenchermos as oito páginas, desenvolveríamos um modo de trabalharmos em grupo mais eficientemente e, como autores, estaríamos testando nossos talentos ao desafiarmos os limites nos quais deixávamos-nos residir. O nome para este projeto veio semanas depois, quando finalmente realizamos uma votação entre os integrantes do grupo. A minha sugestão, coincidentemente, levou a melhor: a empreitada se chamaria “Terra Incógnita”.
As três séries, estruturalmente, encaixavam-se em tramas de oito páginas, e se alternariam mensalmente no miolo da “NAPALM! Apresenta”. Seu conceito universal falava de um mundo – ou mundos, como bem desenvolveu o André posteriormente – no qual os limites da realidade precisavam ser protegidos. Exercendo tal função de salva-guarnição, estava uma entidade ancestral repleta de ramificações específicas, preparadas para combater às ameaças-além ao mundo comum em diversas áreas. Sobre essa instituição, nunca chegaríamos a contar a origem. Ela permaneceria um mistério para sempre, servindo apenas de elo para nossas histórias e para a coexistência das mesmas num único cenário.
Com essa primeira fundação estabelecida, começamos então a desenvolver os temas avessos aos nossos gostos particulares. Enquanto o André procurava um modo de andar de mãos dadas com seu grupo de super-heróis e o Emanoel não se decidia quanto ao seu personagem psicodélico, eu estava às voltas com meu personagem “mágico”. Ficção científica, drama, policial, horror… todos os outros gêneros/estilos/categorias passavam pelos meus dedos e mente com gosto. Mas histórias sobre ou com magia eram àquelas as quais eu preferiria ler a escrever.
De repente, eu estava com esse personagem masculino, provavelmente um anti-herói, repleto de conteúdo místico para desenvolver e não havia nada que me fizesse sair da estaca zero. Ainda de movo primitivo naquela época, o conceito de remixagem pop me levou a caracterizar o indivíduo, logo de cara, no modelo mais óbvio possível: o de “John Constantine”. Ele seria britânico, fumaria do mesmo modo que respirava e teria sempre um diálogo esperto na ponta da língua.
O “primitivo” comentado linhas atrás se refere justamente a esse reaproveitamento óbvio e pobre que imaginei em um momento preguiçoso e idiota. Eu podia fazer melhor. E até que tentei: tirei o linguajar descolado e o cigarro. O fator britânico iria permanecer, pois eu tinha planos de usar Stonehedge posteriormente – outra coisa pouco original, mas que a perfeição fosse à merda. No entanto, a coisa da magia ainda me incomodava. Tudo porque eu simplesmente não entendia nada do assunto e não estava nem um pouco a fim de cair em campo virtual para pesquisar mais a fundo (tudo bem, outra mancada por causa de preguiça mental, mas a minha inexperiência passada merece certo desconto, vai).
Acabei, depois de quebrar a cabeça, encontrando um modo de burlar o nosso acordo: eu iria sim escrever uma história em quadrinhos sobre magia, misticismo, etc, mas faria isso usando ficção científica para incrementar o caldo. Foi mais ou menos assim que, consequentemente, cheguei ao conceito da “magia científica”. Ou Sci-magic, se preferirem. Que, para falar a verdade, foi primeiramente chamada de “sci-fi-magic”. Mas, como o André bem me chamou a atenção – ou teria sido o Emerson? –, se o personagem lançava mão de “magia de ficção científica”, o produto de seus poderes seria baseado em obras de ficção científica. E eu não pretendia que, no meio de um combate, meu anti-herói invocasse um monstro do Lovercraft para ajudá-lo no quebra-pau. Não, sem genéricos de Pokémon para mim, por favor.
Sci-magic encerrou a discussão e caiu como uma luva na minha proposta: um mago capaz de fazer magia através de cálculos. Próximo dos trinta anos, ele se vestiria como um típico punk de raiz, tendo sempre espetado o seu moicano, com alguns toques contemporâneos de alguém interessado em modificações corporais, como bem indicam os alargadores em suas orelhas. Mas o que mais chamaria a atenção nele não seria nada disso, mas tudo o que foi citado somado a ausência de seu braço esquerdo – perdido numa de suas missões para proteger os limites da realidade mundana.
Ele não seria o meu John Constantine.
O sujeito de moicano estiloso e ar punk-ultrapassado precisava, então, de um nome que me fosse relevante. Mesmo que não fosse dele, um nome de batismo, mas um apelido, uma alcunha adotiva. Coincidiu de, durante o processo criativo da minha parte do projeto “Terra Incógnita”, assistir ao filme “Uma Mente Brilhante”, com o Russel Crown, Jennifer Connely e Ed Harris no elenco. A película fala da vida conturbada do matemático norte-americano John Nash, um indivíduo genial, mas que sofria de um grave problema esquizofrênico – Nash costumava imaginar situações e pessoas imaginárias em seu cotidiano, acontecimentos que acarretaram enormes problemas no relacionamento com sua esposa.
O sobrenome do matemático, assim como sua própria história de vida, serviu perfeitamente para nomear a minha criação. Dando-lhe, de algum modo, profundidade. Dimensão. Contornos que foram cristalizados quando o Thiago, que colaboraria na arte das minhas histórias para o projeto, chegou com os primeiros rascunhos do personagem. Foi tudo o que eu precisei para, finalmente, meter a mão na produção do primeiro roteiro.
O relato aqui se divide, então, em dois momentos. O primeiro deles, a parte do “felizmente”, conta que o roteiro foi finalizado, ganhando vida logo a seguir através do lápis do Thiago e dos efeitos de sombreamento digital do Renato Moraes. Quando encerrei o letreamento das páginas, podíamos comemorar, já que tínhamos em mãos a primeira história do projeto “Terra Incógnita” pronta para ser publicada. Mas é aí que entramos na segunda parte, a do “infelizmente”, já que problemas de diversas espécies fizeram a proposta da “NAPALM! Apresenta” ser descontinuada, prejudicando, posteriormente, o andamento da produção das histórias do “Terra Incógnita”. Que estancou tendo uma única HQ finalizada, a do Nash; uma escrita e ilustrada, realização do André em parceria com o Jaguar; e uma apenas roteirizada, a do Emanoel.
“Invisíveis”, título da minha primeira trama com o personagem, foi parar na minha pasta de amostras. Batizada desse modo para simbolizar uma referência óbvia a série escrita pelo escocês Grant Morrison, a história gira em torno de uma das tarefas corriqueiras incumbidas a Nash pela “Agência” – modo como ele se refere à entidade que monitora e protege os limites da realidade. Ele é um coletor, mago responsável por varrer do mundo comum infestações indesejadas vindas de outras realidades, capazes de perturbar o status quo do homem mundano e do próprio balanço existencial. Nesta primeira aventura, a idéia seria não nomear o protagonista em momento algum. Dando a entender que ele é, numa estrutura ampla e complexa, apenas uma das muitas engrenagens que fazem a mesma funcionar.
A história acabou encarando um período de arquivamento por quase dois anos. Sendo vista, apenas, por aqueles que tiveram a oportunidade de passar a vista pela minha pasta de amostras durante alguns dos eventos de RPG, mangá e anime que costumam acontecer em Maceió. E só veio encontrar a luz a pouco mais de dois meses atrás, quando Leonardo Melo, conhecido meu da lista de discussão Quadrim, me questionou sobre “algum material pronto, preferencialmente de ficção científica”. Ele estava se preparando para publicar, do próprio bolso, uma nova revista em quadrinhos tupiniquim. A resposta, é claro, estava na ponta dos dedos.
No dia 20 de outubro de 2006, o mago capaz de realizar ações místicas através de cálculos matemáticos ganhou, finalmente, as mãos do público curitibano através das páginas da revista Quadrinhópole. Ilustrada por Thiago Oliveira e com efeitos de sombreamento dados por Renato Moraes, “Invisíveis” agora existe em um outro nível de realidade. Onde, quem sabe, possa receber no futuro a companhia de seqüências. Pois é de coisas assim que o mundinho mundano precisa para se distrair vez ou outra – da ameaça imaginária que nos leve para uma situação completamente fantástica e inusitada.
Agradecimentos à:
Thiago Oliveira pelo empenho na ilustração das páginas, carregadas da mais negra trinta de todas. Renato Moraes pelas pinceladas e efeitos digitais mágicos. André Dantas, Emerson Magalhães e Emanoel Melo pelo brainstorm que deu origem ao personagem e seu universo, assim como pelas críticas e pitacos costumeiros. E Leonardo Melo e a equipe da revista Quadrinhópole pela oportunidade, e por acreditar que um sujeito sem-braço e de moicano engessado poderia acrescentar algo ao mix da publicação.
Nota:
Dos dias 02 a 05 de novembro, estarei no 11º Fest Comix, participando do lançamento em São Paulo da edição de estréia da Quadrinhópole. Estarei com o pessoal da revista, participando das vendas e quem sabe autografando alguns exemplares, se assim me pedirem. Estarei também vendendo edições dos fanzines Terra do Nunca Love Song Five, Don Caraleone é Mau!/Esparta, Mariposa e Bit Hunter Girl edições #1 e #2. Todos ao preço de R$ 1,00.
Até lá.
Bônus:
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Balas & Barbaridades — Café-da-Manhã dos Campeões — março 10, 2008 at 5:41 pm

