FMI MACEIÓ 2006: Como foi (pelo menos, o 1º dia)
março 31st, 2006 • Música, Paraíso das Águas
OPERETA INDEPENDENTE, AÍ VAMOS NÓS!
Cavalo dado não se olha os dentes, né mesmo?
Foi assim que eu encarei ser presenteado pela minha cunhada com um ingresso para o primeiro dia do FMI – Festival de Música Independente – em Maceió, que teria mais dois de apresentações diversas pela frente e, naquela noite, botaria o Tom Zé no palco do Teatro Deodoro. Além dele, mais outros três shows, sendo o Chau do Pife o cara que abriria a noite ao lado de sua banda.
Era algo que não podia ser perdido. Mas que deve ter acontecido pra gente que queria ver.
Ou seja: apesar da proposta bacana trazida para nossa cidadezinha litorânea, o alardeado FMI veio logo com alguns problemas mesmo antes do primeiro dia de apresentações. Faltando uma semana para o evento, os ingressos ainda não haviam chegado as lojas que se encarregariam de vendê-los – o pior: estava rolando uma promoção de ‘compre antecipado e pague menos’ e, na véspera do prazo pra ela expirar, as tais entradas não tinham chegado. Atendentes disseram a minha cunhada que outras pessoas estavam procurando, mas ninguém sabia quando isso ia ser resolvido.
Sem contar que, com o nível de poder aquisitivo que anda rolando ultimamente, parecia terem exagerado no salgado, sabe?
Não sabendo o que aconteceria, viajamos naquela véspera pro interior do estado e só voltamos dois dias antes da abertura, com outra pessoa já nos tendo comprado os ingressos – creio que com desconto, mas vai saber. E sexta aportamos no Teatro; eu meio assim, assim por ter que ver o Tom Zé pulando no palco e ficar sentado, só balançando e batendo as mãos nos joelhos. Nah, eu tinha chegado lá e isso já era o bastante.
DE ENTRADA, OS CONTRAS
A movimentação faltando uma hora pro começo era tímida, e ficamos comentando entre si se daria público suficiente. Vai que a desorganização inicial com os ingressos desmotivou quem foi procurar com antecedência… desorganização, viu, que ainda estava presente ali. Era tanta gente metida na ‘coordenação’ do evento, que quase ninguém sabia o porquê do atraso quando passou um bocado das 21 horas – horário no qual os portões deveriam ser abertos -, e uma fila legal tinha se formado. Nela, um público de idades distintas – acho que a terceira idade ganhou nesse dia.
No dia seguinte, a TV noticiou que 800 pessoas passaram por lá. Hm, será? Sei não…
Naquela sexta, o Tom Zé tinha dado uma entrevista na Gazeta, filial da Globo por aqui, e, no final do bate-papo, disse: “Show do Tom Zé começa na hora e termina na hora”. Pena ele ter falado com tanta convicção, porque os tais ‘organizadores’ ferraram com a promessa do músico. Quando o portão se abriu, e acho que já tinha passado das 22 horas, um segurança ainda veio dizer pra gente aguardar mais um pouquinho na entrada interna do teatro.
“Você quer que eu espere? Ora, vá tomar banho”, disparou uma senhora que estava ao nosso lado – tínhamos sido os primeiros da fila -, desvencilhou-se do braço do segurança e se enfiou dentro do Deodoro com o marido, sendo seguida por todos que vinham atrás dela e nem faziam idéia de que queriam que aguardássemos mais. Qualé, mermão?
Tomando cadeiras na primeira fileira, notamos lá dentro uma série de crachás: eram do povo da imprensa. Que abusou do seu direito de registrar o espetáculo e ficou se enfiando aos montes na primeira fila, batendo fotos e filmando sem muita ordem. Quer dizer, a ordem deveria ter vindo da coordenação do evento. Naquele dia chegamos a conclusão que essas palavrinhas que repeti bastante até agora – e mais uma vez: organização e coordenação -, eram conceitos confusos aos dicionários da bancada do FMI.
Sem contar no nervosismo de alguns que, não suportando a batata quente, acabaram descontando em quem não devia: no público. Acompanhe a reprodução do diálogo a seguir:
“…demorou muito para abrirem os portões. Sem contar que um segurança ainda veio dizer pra aguardamos um pouco na entrada.” – lamentou meu co-cunhado.
“Nós estamos fazendo o que podemos. O evento não tem ajuda da prefeitura nem do governo. E é o primeiro.” – explica um dos carinhas da tal ‘coordenação’, que fez eu me ficar perguntando o que diabos o governo tem a ver com o atraso num evento PARTICULAR.
“Não, tudo bem. Só estou dizendo isso pra vocês ficarem mais atentos. E o Tom Zé disse que o show dele começa na hora. Já tá atrasado…”
“Olha, se o Sr. quiser, a gente vai lá fora e eu devolvo o seu dinheiro, tá certo?” – respondeu em tom arisco o gordinho com a batata quente.
Deixa dessa. A gente imagina como deve ser difícil fazer um evento daquele porte. Mas, se você não está pronto pra ouvir reclamações, mesmo as mais educadas – como as do meu co-cunhado, que é bem pacato -, é melhor ficar em casa vendo filme água com açúcar na TV pra se manter calminho. A entrada foi cara, o atraso foi longo e todo mundo tava no direito de reclamar. O cara estava tão errado, que a namorada dele, ao seu lado na hora da conversinha, deu uma cutucada no sujeito depois que eles se afastaram a coisa de três passos. “Me desculpa, viu? É que eu tô nervoso…”, veio pedindo desculpas logo a seguir.
Era melhor ter ficado calado.
OS PRÓS, SIM SR.
Diretamente do interior da terrinha, o sr. Chau do Pife e banda entraram mandando ver no instrumental, abrindo oficialmente o Festival depois que dois apresentadores, mais perdidos do que cegos em tiroteio (pra usar um clichê), leram tropicando uns textos em suas mãos. Depois, fiquei sabendo que eles eram de Marte; por isso, a dificuldade em ler e saber onde estavam.
Fazia um tempo que eu estava curioso pra ver o Chau do Pife, considerado o ‘maior pifeiro do mundo’. Não duvido que ela possa ser o maior, mas com certeza deve ter um dos maiores fôlegos do planeta: duma vez só, ele soprava três músicas no seu pífano e era acompanhado prontamente pela banda ao seu redor. Daí parava, e manda mais três. Novamente, foi pena ter visto o show sentado. Era uma boa oportunidade pra arrastar o pé no chão.
E aí anunciaram o Tom Zé. Anunciaram e nada dele entrar. Dois ou três minutos depois, o baixinho de Irará deu as caras – a demora foi sua forma de protestar pela desorganização da organização (hahaha) e fazer ele passar por besta quando disse que era pontual, lá na entrevista pra TV Gazeta. E então, feitas as apresentações da banda, o Zé começa o show e diz da galáxia da qual veio…
Eu conhecia muito, MUITO pouco do Tom Zé. E ainda desconheço bastante. Dele, ouvi boa parte das músicas do seu último cd. Tom Zé é uma dessas maluquices com lógica que, quando você descobre, sabe que o mundo é um lugar mais divertido e além porque existe gente como ele.
O show não foi só do novo cd. Contou, claro, com repertório antigo. E meu com-cunhado ganhou o dia: fã disparado do Tom Zé, quando o músico pediu sugestões da platéia, a dele foi acolhida com grande entusiasmo: “Boa sugestão, a gente encerra com ela”, concluiu o artista ao ouvir ele sugerir Jimmy Renda-se. E sim, foi essa a música que finalizou o espetáculo.
Depois dali, a adrenalina estava toda acumulada, e saímos pra gastar um pouco dela numa música do Bonsucesso Samba Clube, de Pernambuco, tocando mangue. Só foi uma porque voltei com a patroa pra ver como estavam cunhada e co-cunhado, na fila pros autógrafos que o Tom Zé estava distribuindo. E eles conseguiram autógrafos, fotos e abraços.
GELADA, POR FAVOR
Acabou que todos queríamos uma cerveja gelada, mas estava um tumulto sem igual pra chegar ao barzinho do teatro. E, como o Tom Zé + Chau do Pife pareciam ter sido o suficiente para nos agradar naquela noite, concordamos em zarpar e ir derrubar umas geladas num boteco que alguns amigos e eu curtimos: Pedacinho do Céu, em Jaraguá, próximo ao bar/chopperia Orákulo. Na verdade, nós o chamamos de ‘bar underground’. Tem uma sonoridade melhor. Além de adequar ao contexto cultural onde está enfiado.
E no bairro onde Maceió começou, nossa noite de FMI terminou. Com algumas cervas, tira-gostos, minhas palhas e as reflexões de termos visto algo fantástico.
Uma pena mesmo foi não ter visto o Wado, Basílio Sé, Autoramas, Cidadão Instigado…
Meu caro Pablo, muita paz, saúde e felicidade pra vc. Lamento se o primeiro dia do FMI o decepcionou em alguns aspectos. Aí vão alguns esclarecimentos: 01) A cerveja esteve estupidamente gelada nos dois dias subseqüentes, onde o bar era nosso. No dia do teatro, funcionou o bar do Café do Teatro; 02) O Tom Zé estava receoso em fazer um show em Maceió, pois haviam dito a ele que o público aqui era muito exigente. Existia, portanto, uma preocupação para que tudo transcorresse sem problemas, principalmente no quesito horário; 03) O atraso deu-se por culpa exclusiva da produção do grande Tom Zé, que nos mandou o mapa de palco errado, o que teve de ser consertado de última hora; 04) O Tom Zé chegou atrasado no Teatro, e não foi por falha nossa, pois a Van estava no Hotel Ritz Lagoa da Anta a sua disposição desde o início daquela noite; 05) Obrigado por nos prestigiar no primeiro dia do festival, onde reconheço que erros aconteceram, o que foi sendo consertado no decorrer do festival; 06) Foi o nosso primeiro evento, e, apesar disso, ocorreram bem mais acertos do que erros; 07) Foi um sucesso, e, sem dúvida, um marco na cena alagoana; 08) Um grande abraço e ano que vem teremos ingressos com preços mais democráticos.