Mesmo contando nos dedos feito um moleque que se acostuma com a matemática que ainda está aprendendo, não sei dizer ao certo há quanto tempo conheço o Hector (Lima, escritor por trás d’O Major, Escritório Noturno, Zumbingo, capisce?). Um “conheço” que é também bastante relativo: meu primeiro contato foi como leitor, quando ele ainda mantinha o site Escritório Noturno, onde publicava contos, artigos e HQs seus, além de traduções de textos bacanas sobre quadrinhos; inclusive — e espero não estar cometendo uma gafe aqui — aquele no qual o Warren Ellis ensina, com seu jeito pra lá de peculiar, o bê a ba da Nona Arte, “Como Escrever Histórias em Quadrinhos”, foi no Escritório Noturno, traduzido pelo Hector.
Não sei qual o assunto ou motivo, mas eventualmente entrei em contato com ele via e-mail. E não, aqui a história não ganha nenhum contorno emo-erótico, já que o desenrolar das coisas foi até bem simples: ambos tínhamos, e ainda temos, gostos em comum ou parecidos, graus diferentes de devoção a Grant Morrison e um objetivo idêntico de vida — viver de escrever histórias em quadrinhos. Ele em Santos (hoje em São Paulo), eu em Maceió, viramos compadres de luta, amigos. Nossos bate-papos de mesa de bar são por e-mail.
Foi no final de novembro de 2008 que uma das nossas conversas de botequim virtual deu origem a Inkshot.
“projeto maluco sem noção” era o título da extensa mensagem que o Hector me enviou com a ideia de produzir uma antologia composta só de roteiristas e desenhistas made in Brazil, com o intuito de publicá-la no mercado norte-americano, mostrando o que de melhor é produzido por estas bandas verde e amarela. O e-mail terminava assim: “bom, eh isso, coloco a corda no pescoço agora ou esqueço isso e vou viver?” O Hector já tinha a corda para se enforcar; o que ele precisava era só de uma mãozinha.
As conversas se seguiram e trouxemos para o barco outro parceiro no crime, o multitalentoso Felipe Cunha — outro com quem criei laços de amizade depois que nos metemos a fazer quadrinhos em parceira —, para cuidar Direção de Arte da coletânea… até então sem nome.
O próprio Hector disparou o título que acertou em cheio o gosto de todos: Inkshot, o “tiro de tinta”.
Nome pensado e aprovado, foi iniciada a convocação. Listamos nomes de autores em potencial, novos talentos que teriam interesse em participar, gente próxima de estourar e alguns veteranos. Conseguimos os e-mails e sites da listagem inicial. Hector redigiu uma mensagem de convocação que não deixava quase nenhuma margem para dúvida e apertou o enviar do seu gmail.
Inkshot cover
Daquele e-mail até agora, são quase 6 meses de produção da Inkshot e, particularmente, o resultado tem sido bem positivo. Trabalhoso e complicado em alguns momentos, é claro, mas o que estamos obtendo até agora tem feito todo o esforço valer a pena. Algo nos dizia que estávamos no caminho certo quando a primeira HQ, uma parceria praticamente mística entre André Dantas e Milton Sobreiro, foi concluída.
Hoje já temos um número razoável de autores, artistas e páginas, mas ainda estamos abertos a novas colaborações. Se você é escritor e/ou desenhista brasileiro e quer participar, mande um e-mail para o Hector, nosso Editor-chefe, e fique por dentro das regras de submissão. Eu me meto no processo no momento de avaliar e sugerir eventuais mudanças, como um bom editor assistente — ou não, já que Hector, Felipe e eu fazemos o rodízio do “editor mau”. Enquanto isso, vamos preparando o terreno para o que está quase ou completamente pronto, divulgando novidades e prévias no blog oficial da coletânea; como a capa sensacional do Felipe Sobreiro (Heavy Metal, Earthbuilders) e a primeira página da Cannibal Lunchbox, hq insana de Danilo Beyruth (Necronauta). Ainda estamos sem editora certa lá fora e aqui no Brasil, mas isso deve se resolver nos próximos meses.
Da minha parte, já conclui metade do que me propôs ao participar da Inkshot. 50% é o editor assistente, que vai ralar até o fim, e os outros 50 é o escritor, que já finalizou seu roteiro, de título A Cartilha da Bala. O responsável pela arte é o nosso capista Felipe Sobreiro, que já ilustrou mais da metade da HQ. O que eu posso adiantar é o seguinte:
Está ficando foda.